Hoje ela me olhou nos olhos!

- Elizabeth Harkot de la Taille -


Hoje ela me olhou nos olhos!

Sorriu. Segurou meus dedos respondendo a minhas carícias em sua mão direita. Reteve minha mão na sua. Seus olhos laconicamente cerrados, desabotoaram-se por momentos a alguma palavra minha. Olhar e sorriso aquiescentes. Mão firme na mão. O tempo passando, precisei desfazer o entrelace para sair. Sorriu de novo a meu beijo em sua testa. “– Fique bem! Até terça!”. Em silêncio, retribuiu o beijo e se re-recolheu, fechando os olhos.


Pensei se ela sente esperança.


Pensei se tenho esperança.


Pensei o que é a esperança.

Cicero Sandroni (FSP, 30/07/19), em “Esperança? Substantivo marca a nossa história desde 1500”, pontua as longas, inúmeras e muitas inócuas esperas nossas, nesta pátria nada mãe gentil. Menciona os “profissionais da esperança”, para quem éramos felizes e não sabíamos, quando a maioria de nós não “imaginava que o retrocesso bateria à porta (...), para engolir o futuro”.


Diuturnamente, há já 4 anos, no início cá e lá, assistimos a retrocessos. Desde então, estes se recrudescem, aceleradamente: primeiro, a cada mês, depois, semana, hoje, diariamente. Inicialmente inaugurou-se o enxame de “notícias” pouco ou nada vinculadas a fatos, configurou-se a perda de direitos trabalhistas e, gradativamente, a de poder de compra, que não só não se recupera, como continua a se enfraquecer. O êxito das “verdades alternativas” obtido - e por voto -, passaram ao primeiro plano incentivos diretos e indiretos desembocando no incremento da mortalidade na infância, do desmatamento ilegal, da desigualdade econômica e do trabalho infantil. Não de menor importância, junto às tragédias anteriores vêm os atentados civilizacionais e as violências das “pessoas de bem”, legitimadas nas perversões mitóides mitômanas.


“Está provado, quem espera nunca alcança”. “Inútil dormir, que dor não passa”. Dois bons conselhos de Chico e sua sabedoria poética, na contramão dos ditados populares.

Na língua francesa, “esperança” se traduz por duas palavras: espoir, no âmbito do dia a dia, e espérance, na filosofia. Ambas têm em comum a característica da confiança em uma realização futura esperada, almejada.


Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo, dedica um belo pequeno livro à felicidade, em que a esperança ocupa lugar destacado. Seu título em português, como em francês, a meu ver um tanto forçado, é “Felicidade, desesperadamente”, sugerindo erroneamente a busca desenfreada desse sentimento da aspiração humana ao sublime bem-estar. Nada disso. O livro prima por sua concretude nos modos de se encarar a realização pessoal.


O autor define a filosofia como “uma prática discursiva (...) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim” (p. 13 do livro em francês, 2000, tradução minha). Na busca da felicidade, sustenta, a esperança, da qual é crítico contumaz, tende a se instalar. Assim como em Platão o desejo é falta, a esperança se deposita naquilo que não se tem, como um desejo que ignora se será satisfeito, como um desejo sem saber, sempre acompanhado de receio de não se realizar. Mais ainda, é um desejo cuja satisfação independe do esperançoso, de sua ação. Quando se espera algo, não se pode mudar nada. Se algo a fazer é possível, então se trata não mais de esperança, mas de vontade, o que evoca ação, ou melhor, de projeto. Segundo o autor, é possível ser feliz deixando de esperar o “mais possível” e desejando o real, aprendendo a desejar o que depende de nós, de nosso querer e agir, e o que é, logo, amar. Em suma, é preciso parar de esperar a felicidade para atingi-la, pois a felicidade “em ato” não contém esperança. Ela apenas é.

Admitindo que Comte-Sponville possa realmente ensinar sobre a felicidade, não me parece uma lição simples de se aprender, menos ainda de se praticar. “Inútil dormir, que a dor não passa” ecoa-me interna e repetidamente.


Maria Bethânia, em entrevista na FSP em 01/08/19, C3, p. 1, diz que não sabe como “jogar água fria” em tantas atrocidades que sobrevêm, a não ser encontrando força para agir, em seu caso, cantar, pois “[a] vida exige coragem sempre. É preciso coragem para chegar a uma situação que traga alegria”.


Volto ao início e evoco os olhos tenros nos meus, o sorriso, o firme entrelaçar de dedos com minha mãe idosa, de consciência se esvaindo, mas de afeto ainda resistente.


Esperança? Não, não tenho.

É muita tristeza. Ainda assim, não deixa de haver um átomo de felicidade, uma felicidade triste, muito profundamente triste.


Quando não mais houver seu sorriso, olhar ou dedos entrelaçados aos meus, terei saudade, muita saudade, saudade que já se impõe e que só crescerá.

Elizabeth Harkot de la Taille escreve todo dia 2 de cada mês na Revista PUB. É Doutora em Semiótica e Lingüística Geral pela USP e Professora Associada Livre Docente da Universidade de São Paulo nas áreas da Língua Inglesa e Linguística.



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