Efeitos econômicos da erupção do Vulcão Laki na Bolsa de Nova York

- GUILHERME PURVIŅŠ -


Advertência: Deixo aqui consignado que parte dos dados que compõem este relato (aqueles relativos às regiões da Islândia, Ilhas Faroé e Riga) foram colhidos em pesquisas realizadas no ano de 2019 na capital da Letônia, quando buscava informações sobre a família de minha avó paterna. As informações sobre as paradas em portos da Inglaterra, França, Portugal, Ilhas Canárias, Dacar e Nova York encontram-se disponíveis nos arquivos alfandegários dos respectivos países. Finalmente, as informações sobre o Futa Bundu foram parcialmente colhidas do The Cambridge History of Africa, Volume 5, e de várias páginas da Internet. Como dei ao relato que segue um colorido literário especial, não cuidei de padronizar as referências bibliográficas. Embora baseado em fatos reais e em dados acessíveis, o conteúdo ficcional justifica o desrespeito às normas da ABNT e às exigências da CAPES.

Guilherme Purviņš – Riga (LV), 02/01/2020

I

Manhã de sábado, ano de 1784. O vilarejo formado ao redor do Claustro de Kirkjubæjar, fundado em 1186 por monges beneditinos, amanhece em pânico. O vulcão Laki, localizado a poucos quilômetros de distância, entra em erupção após muitos séculos de adormecimento.

O povoado de Kirkjubæjarklaustur, contudo, é milagrosamente poupado da fúria vulcânica, talvez por sua posição geográfica ou pela direção dos ventos naquele momento dramático, talvez por uma intervenção dos deuses. A mesma sorte não têm os outros povoados da região, alguns deles muito mais distantes de Laki. Nestes, os habitantes perecem envenenados pela fumaça sulfídrica ou simplesmente são soterrados pela lava. A partir deste episódio, toda a área passa a ser chamada de Planície de Dauða que, em islandês, significa morte.


Souleymane Aðalsteinn, de profissão ferreiro, deixa o seu estabelecimento e inicia uma peregrinação para verificar se há sobreviventes fora de sua pequena cidade. O que ele vê é desolador. É como se todos os prédios, armazéns, casas, igrejas, tivessem sido intencionalmente incendiados, depredados, pulverizados juntamente com seus moradores, mobílias e pertences pessoais. Nada mais há que lembre sequer vagamente o que foi um dia aquela terra. Ele, que sempre sonhou em um dia viver diante do mar, próximo às águas termais, nada mais tem para fazer senão abandonar a Islândia e buscar a vida em algum lugar menos gélido e hostil.


Em Systrafoss, Souleymane encontra uma mulher deitada ao chão, numa área não calcinada próxima a uma queda d’água congelada. Inicialmente, acredita que ela é uma das incontáveis vítimas da fumaça tóxica. No entanto, ao senti-lo aproximar-se, subitamente a mulher ergue-se e olha para ele com perplexidade.


— Você mora aqui, na região? — pergunta Souleymane.


— Sou casada com Thomas, o acendedor de lampiões.


— Onde está seu marido?


— Todos os habitantes de Systrafoss morreram.


Souleymane oferece à mulher água e biscoitos. A sobrevivente está elegantemente trajada, com um vestido de tecido sofisticado, repleto de desenhos. Descobre que seu nome é Dona Alba Edinsen. Seu marido era um homem de ideias extravagantes e estava respondendo a um processo eclesiástico e militar em razão das opiniões que externava nas ruas, enquanto acendia os lampiões nos postes, acerca da movimentação do Sol, da Lua e das estrelas em torno da Terra. O processo ia mal para ele, não havia como camuflar as evidências. Tratava-se, sem dúvida, de um réu confesso.


Apoiada no ombro de Souleymane, Dona leva-o onde um dia foi sua casa. A construção está ainda fumegante. Tudo à volta é negro, cinza ou branco.


— Aqui eu trabalhava como tapeceira, senhor. Isto é o resto de minha casa. Melhor seria que o vulcão Laki não tivesse me poupado. O que vou fazer agora?


Souleymane repara que há um pedaço da casa, um cubículo erguido com pedras, que resistiu à erupção vulcânica. Ao entrar naquele espaço, encontra farto lote de fios e tecidos.


— O que é isso, minha senhora?


— Era o material que eu usava em meu trabalho. Aprendi tudo com os mestres da Baixa Normandia.


Uma lufada de vento traz consigo fagulhas e os fios começam a queimar. A fumaça tem um aroma bastante agradável. Os dois aproximam-se do fogo, riem e começam a cantar velhas canções islandesas. Confundem as letras das canções, dão gargalhadas e resolvem comer o pão que há no farnel de Souleymane. Depois bebem vinho e riem mais ainda.


II

Souleymane Aðalsteinn deixa a Islândia e embarca num navio rumo a Tórshavn, nas Ilhas Faroé, levando consigo a jovem viúva Dona Alba Edinsen. Já no porto da ilha dinamarquesa, a mulher envolve-se logo ao chegar com um grupo de conspiradores — pessoas com ideias muito parecidas com as de seu finado Thomas, pensa Souleymane. Em pouco tempo, descobrirá que, na verdade, as ideias subversivas acerca das órbitas expandidas sempre foram da própria mulher. Dona é a grande responsável pela difusão de uma doutrina segundo a qual a Terra gira em torno do núcleo da Via Láctea. Não se trata de negar a influência do Sol como centro da órbita anual terrestre. Para ela (e seus seguidores), esse giro a cada 365 dias e seis horas não passaria de um tremelicar irrelevante, pois o que importa realmente é a órbita solar em sua dança com Nemesis, sua parceira cósmica.


O destino, porém, conduz Souleymane a trilhar rumos espiritualmente menos elevados. A princesa Sissy, herdeira do trono dinamarquês, encontra-se na ilha difundindo seu ideário escravocrata. A Dinamarca precisa se antecipar a Portugal, França e Espanha e adentrar no ramo do tráfico negreiro no Senegal. Para isso, ela necessita de líderes instruídos que estabeleçam pontes comerciais entre Copenhague e a África. O islandês, sob o pretexto de oferecer à princesa um dos belos tapetes confeccionados por Dona Alba Edinsen que resistiu às chamas, apresenta-se como voluntário e, com a promessa de recebimento de um saco de moedas, recebe uma embarcação excelentemente equipada para rumar à África na condição de enviado especial da princesa. Evidentemente, a qualidade do tapete influiu mais na decisão de Sissy do que a oratória do islandês. Tanto que Sissy orientou-o a aproveitar a viagem e, no retorno, trazer para a Dinamarca alguns mestres da Baixa Normandia.


Constam registros policiais e alfandegários de curtas passagens de Souleymane e Alba por Brighton (out.1788), Brest (nov.1788), Porto (nov.1788) e Tenerife (dez.1788). A chegada em Dacar ocorre na noite de Natal daquele ano, mas Souleymane imediatamente inicia viagem para o interior, rumo a Kidira, uma cidade na região de Tambacounda. É ali que ele recebe das mãos de um líder comunitário chamado Bundu, jovem negro musculoso de dois metros de altura, uma caixa com um grande pote de cristal.


— O que vem a ser isto e quem lhe mandou entregar isto a mim? E como você sabia que eu viria para este lugar? — pergunta Souleymane em francês, inglês e espanhol a Bundu. Bundu não consegue entender as perguntas. Volta-se a Alba e diz, em bom islandês: — Esse negro estúpido não sabe falar nenhuma língua civilizada.


Bundu enfurece-se, agarra Souleymane pelo pescoço e o ergue do solo, quase enforcando o homem. Ao descobrir que o negro falava islandês como um nativo, pede-lhe desculpas e repete as mesmas perguntas.


— Não me informaram o que há nesse jarro. Quem mandou entregar foram mensageiros vindos de Tórshavn. Afirmaram que a caixa deveria ser entregue com todo cuidado ao sequestrador da grande mentora da Teoria Helionemesiscêntrica.

Dona Alba Edinsen se insurge:


— Está tudo fora de ordem! Não estou sendo sequestrada e o nome correto é Teoria das Órbitas Expandidas, pois não acredito em centro algum!


Souleymane contemporiza:


— Terminologias não são relevantes. Só quero saber como é que esta correspondência chegou aqui!


Bundu esclarece:


— Na verdade, a caixa me foi entregue na confluência dos dois rios. Não consegui arrancar mais nenhuma informação dos enviados de Tórshavn. Além disso, eles estavam bêbados e eu não me surpreenderia se os representantes do Império Tukolor Al-Jajj Umar se tenham incumbido de decapitá-los e colocar suas cabeças em infusão de vinho de Bordeaux.


O local a que Bundu se refere era a região sob o domínio de sua família, ou seja, a confluência dos rios Senegal e Faleme, onde hoje fazem divisas o Senegal, Mali e Mauritânia. Souleymane não tinha a menor noção de que o jovem fosse um dos mais poderosos representantes do Futa Bundu. O Futa Bundu foi fundado por Malik Dauda Sissy no final do Século XVII. Ele negociava terras e direitos de comércio com seus vizinhos e seu nome está sempre ligado ao fracasso na tentativa de conversão da população ao Islã. Sua dinastia tornou-se o grupo dominante. O jovem Bundu, bonito, forte e próspero, conseguiria manter a independência daquelas terras até meados do século XIX. Em 1850 a região da confluência dos dois rios tornou-se parte do Império Tukolor Al-Jajj Umar. Resgatou sua independência 14 anos mais tarde, mas apenas por mais 23 anos, caindo em 1887 diante da França e nunca mais recuperando os seus anos de glória.


O nome Malik Dauda Sissy, porém, traz grande dificuldade para o prosseguimento desta narrativa. Para quem não é islandês ou senegalês, a diferença entre o nome Dauda e a palavra “Dauða” (morte, em islandês) é irrelevante. Por outro lado, não deixa de ser espantoso que o mesmo nome, Sissy, esteja presente na vida do jovem Bundu e da herdeira do trono dinamarquês.


Ao abrir o frasco recebido, Souleymane encontra uma cabeça humana preservada em vinho. Retira a cabeça do frasco e, horrorizado, consegue reconhecer a fisionomia: trata-se da herdeira do trono de Copenhague, aquela que havia lhe prometido um saco de moedas de ouro em troca dos contatos comerciais para o tráfico de escravos e lições de tapeçaria da Baixa Normandia.


— Isto é coisa dos seus amigos subversivos — afirma Souleymane, apontando o dedo para Dona. Não receberei mais moeda alguma! Toda esta viagem foi inútil!


— Isso é para você aprender a me respeitar — diz Dona, dobrando o indicador do parceiro para trás até se ouvir um estalido. Gritando de dor, Souleymane pede perdão à tecelã viúva, mas ela o despreza. Decide viajar para o Novo Mundo iniciar um ousado projeto têxtil e difundir a Teoria das Órbitas Expandidas. Antes, porém, firma um compromisso comercial com Bundu e seu ex-companheiro: o Senegal será um posto estratégico na rota comercial entre os Estados Unidos e a França; Souleymane irá para a Baixa Normandia e entrará em contato com certo Paul Creton; e Dona defenderá intransigentemente nos Estados Unidos o reconhecimento da independência do Futa Bundu como nação livre, ao melhor estilo do mundo ocidental.


III

Nos Anais do Expurgo Geocêntrico de 1814, consta que certo islandês residente no Senegal, teria emigrado para os Estados Unidos com o objetivo de matar Thomas Alva Edison. Evidentemente não se trata do mesmo Edison que todos conhecemos, pois o inventor da lâmpada nasceu em 1847. O mais provável é que o escriba dos anais tenha confundido ou americanizado o nome de Dona Alba Edinsen. Souleymane teria atravessado o Atlântico Norte unicamente para vingar-se daquela que um dia quebrou seu dedo? Deveria estar com mais de 90 anos de idade quando foi condenado a cumprir pena no Presídio de Alcatraz. Ali, escreveu:

Sinto-me desnorteado. Um prisioneiro disse-me que eu poderia solicitar a comutação da pena por uma extradição para o Pântano de Riga. Não levarei em consideração essa alternativa humilhante. Luto contra o fogo e a febre, sem dispor de um só instrumento médico que indique a minha temperatura. Quando, há tantos anos, parti para a luta pela honra e glória de Hefesto, nem ao menos me foi dada uma égide de bronze, que tão útil se mostrou em outras batalhas de igual dimensão. Meus braços doem e não conseguirei escrever e dizer tudo o que sempre tive a dizer em minha vida. Condenado por tê-lo obedecido? Sinto-me injustiçado.Só posso acreditar que a decisão de deixar-me pendurado nesta masmorra fria tenha sido um grande erro judiciário que poderá ser corrigido ex officio a qualquer tempo”.


A última anotação do diário de Souleymane Aðalsteinn é repleta de ressentimentos e pieguice. Afirma que Dona Alba Edinsen o abandonou porque queria um homem perfeito e que não o poupou num momento histórico tão grave como aquele, em que “o prestígio de nossos deuses declina em ritmo de queda livre”. Volta a falar da falta que lhe fez na vida a égide de bronze e, ao final, declara: “Rio-me com os demais que testemunharam a nudez de sua mulher com seu amante, apanhados nas redes de metal. Esta noite escaparei da masmorra. Seguirei para o Pântano de Riga onde registrarei todas as injustiças sofridas, desde o dia em que Laki derramou sua lava sobre o conceito de amor”.


Souleymane Aðalsteinn foi bem sucedido em sua fuga. Estabeleceu-se no subúrbio de Riga, na Slokas Iela, região pantanosa na margem oposta do Rio Daugava. Ali passou o resto de seus dias, ganhando a vida como ferreiro — era o que sabia fazer com perfeição — e, nas horas vagas, tentando inventar engenhocas que produzissem sons e luz artificiais. Nunca, porém, foi perdoado por seus contemporâneos: era, na prática, um sujeito racista e misógino.



P.S. 1: Quando o Senegal foi dominado pela França, Paul Creton, o famoso tecelão da Baixa Normandia e inventor do cretone, tipo de tecido de algodão bastante utilizado na tapeçaria, já havia difundido mundialmente sua invenção. Cabe ressaltar que o tecido é urdido com fios de cânhamo. A queima do fio, por ocasião do incêndio na casa de Dona Alba Eddinsen, é que teria sido responsável pela confusa trajetória de Souleymane pela superfície da Terra.


P.S. 2: Thomas Alva Edison nasceu em Ohio, no ano de 1847. É possível que tenha se encontrado com Dona Alba Edinsen. Tendo sobrevivido ao atentado praticado por seu conterrâneo e ex-companheiro Souleymane, Dona Alba teve uma longevidade espantosa. Viveu ainda a ponto de testemunhar o crack da Bolsa de Nova York, havendo quem sustente que foi uma de suas grandes responsáveis, ao difundir junto aos especuladores uma versão corrompida de sua Teoria das Órbitas Expandidas e o consumo de cânhamo para fins recreativos.

Riga / LV, 2 de janeiro de 2019

Guilherme Purviņš, graduado em Letras (FFLCH-USP) e doutor em Direito (FADUSP), é advogado e escritor. É autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação" (2017) e "Sambas & Polonaises" (2019) e editor da Revista de Direitos Difusos.

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