Julgamento e morte do capitão

- Guilherme Purvin -



Meu avô paterno me contava sempre a história que ouvira de seu avô paterno, Henrique Caetano, médico em Goa, onde participava da criação do ensino da medicina na possessão portuguesa.


O episódio ocorrera em 1821 (há 200 anos, portanto). Um navio, de bandeira portuguesa encontrava-se à deriva, em algum ponto entre os Oceanos Índico e Pacífico. A tripulação, cerca de 120 almas, morria como mosca, vítima peste e de fome, não podendo fazer nada senão sujeitar-se às ordens de certo Roque Açougueiro, fanfarrão que se fez conhecido por seu prazer em ver como as pessoas são fracas, sentem dor e até abandonam a vida após algumas sessões de tortura.


Inábil em assuntos náuticos, o capitão designou o filho mais velho para a função de piloto, ele que não tinha a menor noção de como ler e controlar os equipamentos. Os outros filhos foram nomeados para os cargos de mestre, contramestre e juiz-executor.


Já haviam se passado mais de três semanas da data prevista para desembarque em Macau e o navio continuava em alto mar. Após várias semanas de uma viagem sem rumo, os tripulantes vieram a saber que pai e filho se divertiam em executar manobras bruscas, aleatoriamente, por puro deleite, como crianças, o que levava o navio a descrever uma trajetória caótica em torno do nada.


Certa feita em março daquele ano, depois de dois dias de tempestade, um dos filhos, o juiz-executor, dirige-se ao capitão e informa que lá em baixo, haviam morrido mais de trinta tripulantes.


— Posso determinar que sejam jogados os corpos ao mar?


O capitão olha com surpresa para o filho.


— Para que, menino, se eles já estão mortos?


— Tem razão, pai!


Se os atirassem ao mar, nunca teriam noção da grandeza de sua obra.



A história surpreende mais pela revelação de sua origem do que pela tragédia em si. Piratas cruéis e alucinados sempre existiram, isso é um lugar-comum. Por vezes o que os conduzia à violência e à insanidade era o consumo de álcool. Ou então um dos estágios finais da sífilis. Na maior parte das vezes, as duas coisas ao mesmo tempo, provável caso deste capitão tirano. Epidemias de peste dentro dos navios, igualmente, eram (e ainda são) comuns: navegar era arriscar a vida. As condições de higiene eram péssimas e não havia nenhum planejamento médico e nutricional preventivo antecedendo os embarques (este era um ponto destacado por meu trisavô em suas cartas ao Rei).

O detalhe que tornava a história mais pitoresca é que Roque Açougueiro não era o capitão que zarpara de Lisboa, rumo às Índias Portuguesas, nos primeiros dias do ano de 1821. O legítimo capitão da nau, um certo Denis Alencar Vaz, havia sido escorraçado do comando num ignominioso motim de parte da tripulação. Os motivos era os mais pífios ou torpes: arrogância (passava o tempo lendo Camões e Dante) e pouca flexibilidade a formas alternativas de mercancia (leia-se, negociatas e contrabando). Não era um deles. Deixado em Dili, no Timor Leste, Vaz comunicou a Lisboa o motim, mas os tempos eram outros, a velocidade da informação era equivalente à da fuga dos amotinados.


Para a tripulação, não haveria grande dificuldade em se amotinar novamente e nomear um terceiro capitão. Isto se não estivessem enfrentando uma terrível epidemia a bordo. Estavam fracos fisicamente e, também, moralmente, por haverem escolhido um péssimo líder, um louco que os conduzia à morte certa, e que tinha à sua volta quatro cães ferozes, seus armados filhos, que professavam uma adoração religiosa pelo pai.

A nave viria a ser recuperada dias após a morte do capitão. Isso ocorreu somente em abril do mesmo ano, na costa de Macau. Dos doze tripulantes que sobreviveram à viagem de horrores, sete deles foram julgados culpados por participarem do motim e condenados à morte, dentre eles os quatro infames filhos de Roque Açougueiro. Este foi poupado de julgamento pelas cortes lusitanas, mas não dos dentes dos ratos que saltavam por entre os corpos em putrefação de suas vítimas.

Guilherme Purvin é escritor, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação" e "Sambas & Polonaises", dentre outros.


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