PARADOXOS DE RACHEL DE QUEIROZ A PARTIR DE “O QUINZE"

Atualizado: 17 de jan.

- Ricardo Antonio Lucas Camargo -


Ilustração fornecida pelo autor do artigo.

Um dado curioso em relação a Rachel de Queiroz e seu primeiro grande romance, O quinze: estamos a falar em uma escritora que, além de romper o estereótipo vigente até então de que mulheres escreveriam ou histórias açucaradas, destinadas a moçoilas e a crianças (simpatias e antipatias à parte, é com Monteiro Lobato que se começa, no Brasil, a levar a sério a literatura infantil, saindo das narrativas puramente moralizantes) ou breviários de regras para uma “boa dona de casa”, foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, eleita em 1977, na vaga do ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal Cândido Motta Filho, e as vicissitudes são contadas por Heloísa Buarque de Hollanda em texto publicado em homenagem à autora, na Revista eletrônica Diadorim, do Departamento de Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2010. (Acessado em 8.8.2021).

Nesta mesma revista, encontra-se um texto que seleciona os contrastes que se apresentam em O quinze, firmado por Julio Cesar Rodrigues Cattapan, que será o fio condutor da ordem da exposição, sem que implique, obviamente, uma renúncia ao exame pessoal (Acessado em 8.8.2021).

Este romance, escrito em 1930, quando a autora contava vinte anos de idade, centrado numa família de retirantes cuja cabeça é o vaqueiro Chico Bento, que se vê na contingência de deixar o sertão em direção à cidade no momento em que D. Maroca, a dona da fazenda em que trabalhava, se desfaz do gado, em virtude da seca que se abatera sobre o Ceará em 1915. Explora vários motivos condutores, com uma narrativa direta, sem julgamentos do narrador sobre situações ou personagens, é pontuado de diálogos e foge tanto ao sentimentalismo, como dito, esperado nas produções literárias femininas quanto do sensualismo naturalista, que tomava a temática nordestina com certa frequência, a exemplo de O mulato, de Aluysio Azevedo, e Luzia-Homem, de Domingos Olympio.


Chico Bento, que com sua esposa Cordulina e seus filhos, manifesta sua “recusa de morrer” dirigindo-se à capital, depara-se com a calamidade e seus efeitos em várias dimensões: a presença de outros famintos, com os quais vai dividir parte de sua parca ração, a morte, pela ingestão de mandioca crua, de seu pequeno filho Josias, o desaparecimento de seu filho mais velho, o confinamento, quando chega à cidade, no “Campo de Concentração” – sim, eles existiam no Brasil antes da ascensão do nazifascismo na Alemanha -, ante o caráter ameaçador que se via naqueles forasteiros provenientes dos grotões.


Dito que este romance é “centrado” em Chico e família, não se entenda que a trama se cinja à sua difícil e, em vários sentidos, frustrante jornada em direção à capital: aparecem elementos que opõem a vida urbana à vida rural, a começar pela Conceição, jovem professora, órfã residente com a avó, e que não acredita que a mulher só deva ser esposa, mãe e frequentadora de missas, contrariando as apóstrofes que a anciã lhe dirige, pois, para esta, o que se vê é uma verdadeira agressão à ordem natural das coisas nessa obsessão da jovem neta pela leitura, e ainda mais de assuntos que só poderiam ser tratados por homens, àqueles tempos, como salienta, no mesmo número da Revista Diadorim, a Professora Lígia Regina Calado de Medeiros, da Universidade Federal de Campina Grande (Acessado em 8 ago 2021).

O contraste entre as visões liberal e conservadora – aqui, é bom que se diga, está a ser utilizada a expressão “liberal” na acepção croceana do termo, reservada ao “liberalismo político”, embora, para a discussão deste tema, o “liberalismo econômico” ou “liberismo”, também se faça presente – entre as duas mulheres habitantes da cidade, também se vai colocar entre Vicente, primo de Conceição, pecuarista que só lê um livro, que é o da “nota do gado”, e seu irmão bacharel.


O confronto entre o meio rural e o meio urbano, o primeiro, tendencialmente mais conservador, o segundo, tendencialmente mais propenso a mudanças – recordo que o saudoso Professor Washington Peluso Albino de Souza, em estudo publicado no primeiro semestre de 1980 na Revista Brasileira de Estudos Políticos, referiu a lição de Spengler, acerca de estar aí a principal diferença anímica entre o campo e a cidade -, contudo, não deixa de demonstrar, também, um pendor maior para o representante do setor rural, a começar pela preocupação sincera que ele tem com os seus vaqueiros, enquanto seu irmão é exemplo do aparente intelectualismo pedante e oco.


Conceição – que me parece, em muitos aspectos, passível de uma comparação com uma outra Professora, leitora contumaz e observadora sagaz, menos politicamente engajada, a gaúcha Clarissa, criada, em 1933, por Érico Veríssimo, comparação, esta, por si só, digna de uma mesa específica, em outro evento -, de outra parte, vai representar um aspecto mais “positivo” da alma citadina, e irá contrastar com o seu primo, pelo qual nutre, entretanto, um amor que nunca se irá traduzir em situações concretas, em razão de seu intelectualismo e sensibilidade, algo que, para ele, homem que precisa da força e da coragem física para sobreviver no campo e comandar a produção em suas terras, é impensável.


Por sinal, vale destacar uma observação feita por Cattapan, no texto cuja ordem venho seguindo na exposição, que se põe em um aspecto menos evidente do que os anteriores, e que vai mostrar que a “positividade” referida no parágrafo acima vai manchar-se: a “avançada” Conceição, que lê livros sem o anterior conselho e aprovação da Igreja, não deixa de exprimir preconceitos decorrentes da escravidão, ao saber que Vicente anda a envolver-se com uma cabocla; fala do “absurdo” de “um moço branco andar se sujando com negras”.


As desigualdades sociais, representadas pelos proprietários que veem os respectivos custos terem a reposição esvaziada pela seca, mas que têm alternativas à respectiva disposição, e pelos trabalhadores, que, diante desse quadro, são lançados ao desemprego e á necessidade de, dentro das suas possibilidades físicas, porque lhes faltam, inclusive, recursos para se servirem de outros meios de transporte que lhes poupem os pés, ficam mais evidentes, ainda, pois à época em que se ambienta o romance estava em vigor a Constituição republicana de 1891, a mesma que, segundo Rui Barbosa, pelas mesmas razões que o seu modelo americano, seria impeditiva à adoção de medidas legislativas que viessem a corrigir o desequilíbrio material que decorria da igualdade formal estabelecida entre aquele que o empregado e o empregador, razão por que em seu discurso de 20 de março de 1919 defendera o jurisconsulto e político baiano a respectiva revisão.


As relações de trabalho eram restritas ao âmbito civilístico; vigoravam, então, as Ordenações, o Código Civil somente seria promulgado em 1916 e entraria em vigor em 1917.


Já a estrutura agrária era totalmente definida pelos negócios privados e pelo direito de sucessões, não havia a mão do Estado a proceder à definição de conceitos como “latifúndio”, “função social da terra” e outros que costumam acender sinais de alerta em meio aos ruralistas, até hoje.


País, pois, economicamente “liberista”, embora, antes, tivesse havido uma experiência, que provocara muitos sobressaltos dos estudiosos de economia, do Convênio de Taubaté para a valorização do café a ser exportado, celebrado entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, em 1906.


Quanto a eventual “progressismo” da visão da autora, mesmo, no Estado Novo, chamada de “comunista”, ela esteve francamente ligada aos movimentos mais engajados com o conservadorismo e, mesmo, com o reacionarismo – tomada a expressão no seu sentido originário, dos que se opuseram ferrenhamente à Revolução Francesa e tudo o que ela significava – no Brasil, em especial as conspirações que:


1) levaram ao suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954,


2) quase impediram a posse de Juscelino em 1955,


3) conduziram ao golpe de 1964 foram por ela explicitamente apoiadas, pois nutria:


1) ódio profundo pelo varguismo e tudo o que dele derivasse,


2) admiração por Carlos Lacerda e Jânio Quadros,


3) amizade pessoal com Castello Branco.


Em relação, mesmo, à situação das suas personagens, lembro, que numa crônica jornalística que dedicara à “metonímia”, ela se referia ao personagem Vicente – que rendera ensejo à crônica em questão em virtude do “peito entreaberto na blusa” - como o “herói” do romance, quando se tem presente a importância menor que apresenta para a trama do que a família de Chico Bento.


De qualquer modo, esses problemas não fazem com que os temas por ela feridos percam importância ou possam ser vistos como desculpas para ignorar seus tisnes, e isto se aplica a qualquer escritor ou escritora.


Lembremos: se uma conduta no estalinismo mereceu o repúdio até mesmo dos mais ortodoxos marxistas, foi precisamente a de apagar os inconvenientes da fotografia.

Texto-base da intervenção apresentada no 25º Congresso do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública – IBAP, no dia 12 de agosto de 2021, em mesa versando sobre o tema “Rachel de Queiroz em Debate”, mediada pelo Dr. José Nuzzi Neto, com a participação, ainda, dos Profs. Carlos Marés de Souza Filho e Sheila Pitombeira, acessível pelo Canal da Revista PUB no Youtube - https://youtu.be/-uoCXidjW2I.

RICARDO ANTONIO LUCAS CAMARGO é Professor nos cursos de Graduação e Pós Graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública – IBAP.

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