Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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SOBRE ÓPERAS E SEREIAS

Atualizado: 27 de Jul de 2019

-PATRÍCIA BIANCHI-


https://www.google.com/amp/s/oscaracoisblog.wordpress.com/2016/11/21/lenda-negrinho-do-pastoreiro/amp/

Inflama-se, hoje, quem pensa que a vida deveria ser pautada em princípios e valores inegociáveis, princípios esses que congregam, por exemplo, liberdades democráticas, e que com a prevalência de tais princípios se sucederia um Poder Público atuante na correção de desequilíbrios e desigualdades sociais. Inflamam-se como um público exigente de uma ópera, em face de um espetáculo que os envolve, conduz e governa.


A ópera foi aqui escolhida pois parece melhor representar um drama musical, assemelhando-se ao drama sócio-ambiental em trânsito. A vida cotidiana, que compõe o mosaico da história, pode ser comparada a esse gênero musical, numa harmonia entre o canto, a música e a teatralidade. Assim como numa ópera de bel canto, a plebe aprecia os diálogos televisivos no recitativo matinal, observa-se de tão perto e tão longe os defeitos e virtudes dos protagonistas, seu comprometimento, sua (in) coerência política, assim como se observa nas operas os adornos e as expressões vocais.

Os protagonistas destacam-se em meio à multidão, projeções alcançadas em razão, por vezes de duvidosas e precárias circunstâncias sociais, políticas, jurídicas e econômicas; ajustes e esquemas visíveis e ocultos, conforme propósitos também claros ou obscuros.


Nesse passo, a realidade assemelha-se à música barroca, marcada por complexos contrapontos tonais, contrapontos solitários em meio à multidão, à massa.

Num contexto classicista, costumava-se primar pela claridade, simetria e equilíbrio na música, aliando-se a métrica à perfeição. Numa troca com o movimento Iluminista, enfatizava-se a razão e a lógica. E tudo isso, somando-se à genuína genialidade, revelou, entre outros, Mozart. Mas apesar desse desenho exato e perfeito, toda a ilusão do espetáculo pode servir para a construção de uma sociedade com desenvolvimento precário, carente de educação e pouco politizada. Onde os protagonistas professam aqueles princípios e valores irrenunciáveis, mas que, em realidade, vê-se aos poucos diluírem-se e perderem-se num cotidiano difícil, por vezes trágico e ainda mais real.


Num mundo onde os protagonistas encarnam personagens complexos e dramáticos, a platéia-massa tem dificuldades em assumir o seu próprio protagonismo. Sabe-se que a realidade, historicamente pensada, nunca foi mesmo simples ou tranquila. Nunca houve justiça completa, perene ou de modo equânime. Esse é um status que deve ser conquistado a cada ato da ópera. Assim como a platéia num concerto, o público erudito, formado por uma aristocracia de várias frentes, tende a ser mais exigente e cruel.


A comunicação pode se revelar tanto por vaias, quanto por inúmeros “bravíssimos” em alto e bom tom. Mas esse movimento não traz grandes mudanças naquela realidade: venera-se a perfeição, critica-se o precário, mas não se alteram os velhos papéis.


De outro vértice, há tempos observa-se algo de pedante na música erudita e, por isso, hoje pipocam ações e movimentos que pretendem desmitificá-la, democratizá-la. Desejam-se promover o desenvolvimento de outras tonalidades e escalas, um propósito que, muitas vezes, não encontra ecos. Ao contrário, manifesta-se como um canto monofônico, uma melodia desprovida de qualquer acompanhamento, que rivaliza com uma mídia polifônica, que reúne múltiplas vozes a serviço de um grupo, e cresceu sob as bênçãos de elites protagonistas.


Essa mídia que nos entorpece faz ressurgir lembranças e saudades da linda Iara, a sereia, Senhora das Águas, que em águas doces ou salgadas seduzia os homens com sua rara beleza e canto. Filha do folclore popular brasileiro, reza a lenda que o seu canto seduziu muitos pescadores levando-os ao fundo de mares e rios para serem devorados.

Assim, na realidade atual, como num espetáculo de ópera, em vários momentos sacam-se os leques, em movimentos rápidos, ventos lentos, à moda de comportamentos burgueses, aristocráticos, naquela programação padrão afeta a essas apresentações musico-dramáticas.


Aqui tudo conta, tudo se revela: a velocidade, a métrica, o ritmo e a exata maneira de se executar uma peça musical. Mas a ilusão, a representação, funde-se ao belo, ao sublime. Nessa dança das notas e arranjos, onde se busca a perfeição, sobra pouco espaço à improvisação. Esta, por sua vez, vive muito mais próxima das músicas populares.


A teatralidade de uma ópera, de fato, pode camuflar e fundamentar um contexto sócio-político com potencialidades de fazer uma população sangrar. Numa profusão de tons, pode-se abrir mais ou menos a porta das injustiças, e aqueles princípios e valores, aprioristicamente inegociáveis, já podem ser vistos negociados em feiras nacionais ou estrangeiras; onde se vende bens da vida; crianças e seus futuros; adultos são ceifados de sua dignidade, seus lazeres e sua paz. Aqui e agora o tom transmuda-se num outro acorde. Há uma separação mais profunda entre os protagonistas e a platéia, entre os aclamados e a multidão.

Nesse enredo, é como se a música erudita subjugasse a popular, numa dança descortês e autoritária, despida de valores e princípios, que já não mais vigoram. A sociedade vê-se perdida, vendida em meio a diferentes timbres e tonalidades, criando-se um som profundo e rico. Mas essa riqueza é de poucos e não comporta distribuição, e tudo isso é naturalizado, num tom onde a apatia se fortalece. As melodias das orquestras sociais acompanham bem as óperas, e assim seguimos o chamado processo de desenvolvimento musical, podendo assumir a forma de sonata ou fuga, de privilegiados ou marginalizados.


Nesse contexto, é crucial, ou mesmo vital, revelar que os protagonistas são habitués a uma atmosfera solene e silenciosa como nos concertos, eles esboçam pânico e violência frente aos atos que debordam o script, que denotem liberdades ou aspirem direitos. Importa também advertir que a linha que separa a música erudita da música popular pode ser muito frágil. E assim, como no período Romântico, a qualquer momento podem-se expressar linhas melódicas com características mais livres e emotivas, a exemplo dos noturnos, fantasias e prelúdios, podem surgir construções musicais com tonalidades mais coloridas e dissonantes.

E é aí que podem surgir alguns Beethovens, visto como filho da democratização das instituições no âmbito da sua música, exemplo genial e atemporal da sua estirpe, que vivenciou uma época em que os compositores e músicos tornaram-se, em grande medida, independentes da nobreza. Ludwig van Beethoven, há quem diga que este não tem nada de erudito, e que nem Heitor Villa-Lobos, considerado o maior compositor das Américas, o teria.


O compositor alemão brindou-nos com sua obra, esta revelada numa de suas características mais marcantes “a liberdade”, sendo esta liberdade normalmente traduzida na liberdade política, artística, do indivíduo, de credo, enfim, nos seus mais variados sentidos. Mas o que merece mesmo relevo é que a obra de Beethoven foi considerada revolucionária, um avanço, um refinamento cultural, além da sua forte influência e contribuição para a história da música.

No Brasil, o compositor e maestro Heitor Villa-Lobos viveu e representou um período no qual diversos compositores rejeitaram alguns valores tradicionais no âmbito da tonalidade, melodia, instrumentação e estrutura musicais. Villa-Lobos, considerado o músico-compositor brasileiro mais criativo do Século XX, descobriu uma linguagem peculiarmente nacional, compôs obras que congregam culturas regionais do Brasil com elementos de canções populares e indígenas, misturando música folclórica nacional com elementos estilísticos da tradição clássica européia, cujo resultado traduziu-se nas famosas Bachianas Brasileiras.

Estas representam uma série de nove composições, onde Villa-Lobos fundiu material folclórico nacional, especialmente música caipira, às formas pré-clássicas no estilo de Bach, promovendo uma verdadeira revolução cultural-musical, fazendo uma releitura da realidade da música clássica sob a ótica brasileira, numa ruptura com a música erudita essencialmente européia. Aqui, a criatividade, genialidade e a liberdade marcaram a obra de um brasileiro.


Esse quadro denota, mais uma vez, uma linha tênue entre a música erudita e a composição popular. A relação entre uma e outra muitas vezes se revelou polêmica, sobretudo nas discussões sobre o valor estético de cada obra. Assim, adeptos da música erudita alegam que a música popular é mero entretenimento (de massa); que música clássica, em grande parte, tem uma maior complexidade, com maior número de modulações, que tem menos repetições; sem considerar que a música popular pode ser bastante complexa em diferentes contextos, como no jazz, no frevo, na bossa nova e outros ritmos e composições populares construídas e interpretadas por Tom Jobim, Gilberto Gil, João Bosco e do próprio Villa-Lobos, só para citar alguns exemplos.


Mas numa ópera – quer se veicule uma música clássica de raízes europeias, quer uma peça de conotações mais populares, nacionais – requer-se grande atenção do público, já que ali sempre se trata de um espetáculo, e tudo de bom e de ruim que ele comporta. E os mais atentos e astutos sabem, como se tem dito, que a teatralidade que lá se insere, de fato, pode camuflar e fundamentar um contexto sócio-político com potencialidades de fazer uma platéia/população, com dificuldades de empoderamento, sangrar. E nesse contexto em que a mídia agencia e auxilia os protagonistas, seres míticos como as sereias foram relegados às memórias de um passado guardado em mentes tradicionais e ingênuas.


Por fim, no atual contexto da grande ópera brasileira, dizem as más línguas, que Iara, a sereia, hoje já não mais entoa seu canto. Sua beleza já não é refletida nas águas agora turvas dos mares e rios, diz-se que foi vista em ruas, casas e até mesmo em bares, e que em suas andanças descobriu a origem do esquecimento da lenda e da desconexão dos homens com a Natureza. Com os princípios esquecidos, a sereia esquecida, no mundo real agora quem dá o tom é a mídia, que seduz e mata mais homens que outrora, já não se precisa de sereias para isso, nem se alimentam suas lendas.


Iara, então, se recolhe imponente às profundezas dos rios brasileiros, dando as costas à erudita ignorância e à soberba humana. E, em não havendo mais princípios, ela profetiza que em breve retornará e, por meio de sua beleza e canto, fará com que homens, mulheres e crianças conheçam o inferno e o terror das profundezas, causando um mal semelhante às grandes guerras, a fim de conduzir a terra ao seu natural equilíbrio. E após sua grande ópera, mais uma vez, se recolherá nas águas do Amazonas ou do São Francisco, aguardando um novo e eventual chamado daquela que é a única de quem recebe ordens, Gaia, a Mãe-Terra.

Patrícia Bianchi escreve mensalmente todo dia 23. É Doutora pela UFSC. Pós-doutora pela USP. Conselheira do CONSEMA e CONAMA. Professora de Políticas Públicas Ambientais do Mestrado em Direito do UNISAL.


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