A formação pelas ondas médias

- GUILHERME PURVIN-

Umberto ganhou um radinho de pilha preto, colocou-o debaixo do travesseiro à noite e dormiu embalado ao som da Rádio Excelsior, AM prefixo 780 KHz, uma estação de rádio que reproduzia os sucessos da Cashbox, que por sua vez era uma revista especializada em divulgar os sucessos musicais dos EUA, criada em meio à 2ª Guerra Mundial e que duraria quase até meados dos anos 1990. Os sucessos eram, quase sempre, canções melosas de amor acompanhadas de guitarra elétrica, contrabaixo, bateria e, às vezes, um piano ou uma orquestra de cordas. Uma voz de mulher sussurrava “Excelsior”, prolongando o “ceeeel”, num gemido cuja expressão lhe escapava, mas que provavelmente estava relacionada com aquelas coisas que os meninos mais velhos tinham falado na rua em tom de bravata. Sua única concorrente era a Difusora, apelidada de Jet Music, e que divulgava os sucessos de vendas segundo a Billboard.


Naquela noite de outubro, ele ouviu a canção Come Together. Por uma obscura associação de ideias equivocadas, imaginou que os Beatles diziam “ship” e não “shoot me” e que o solo da guitarra era a simulação de um apito de um barco. Mesmo quinze anos mais tarde, quando viajava de fusquinha na lua de mel, tropeçando em enigmas como “old flap top”, “juju eyeballs” e “holy rollers”, quando ouvia Come Together, vinha à sua mente a imagem de um piloto no leme de um vapor atravessando preguiçosamente o São Francisco, o Mississippi ou o Tâmisa e tomando Coca-Cola.


Nenhuma dificuldade linguística o impedia de gostar da música dos Beatles, dos Rolling Stones, dos Bee Gees ou dos Mamma’s & Pappa’s. Seu Joel, o pai, estava feliz, era funcionário numa fábrica que fornecia peças para a Volkswagen, no Sacomã, bairro onde moravam. Sua mãe, dona Marisa, estava igualmente radiante, trabalhava fazia já dez anos como professora primária num colégio particular no bairro vizinho do Ipiranga que crescia a cada ano.

Mas, pelo que parecia, a presença do Presidente Médici no jogo, trouxe sorte para o tricolor paulista, cujo último título havia sido conquistado no ano de nascimento do Umberto

No ano seguinte, as grandes notícias seriam a separação dos Beatles, fato que pouco significou para Umberto, que nessa época começou a interessar-se pelo futebol. Em seu radinho portátil que cabia na palma de minha mão, ele acompanhava a evolução da campanha do tricolor no campeonato paulista. Logo no começo daquele ano glorioso, Seu Joel, dona Marisa e o filho de 12 anos aproveitaram o dia de fundação da cidade de São Paulo para prestigiar a inauguração do Estádio do Morumbi, que finalmente tinha sido inaugurado em sua integralidade. Era um jogo contra o time do Porto, de Portugal. Tratava-se de um momento tão importante, que até o governador Abreu Sodré e o Presidente do Brasil estavam presentes ao estádio. No fim, o jogo ficou num empate de um a um, meio sem graça. Mas, pelo que parecia, a presença do Presidente Médici no jogo, trouxe sorte para o tricolor paulista, cujo último título havia sido conquistado no ano de nascimento do Umberto. Naquele ano glorioso, o time conquistaria o campeonato paulista. Até hoje Umberto lembra-se da escalação : o goleiro Sérgio, Forlan, Jurandir, Dias e Gilberto na defesa; Edson e Gerson no meio de campo; Paulo, Terto, Toninho e Paraná no ataque. Os jogos não eram transmitidos pela Excelsior, mas pela Bandeirantes ou pela Panamericana (AM 670 KHz). Ele preferia a “Pan” à Bandeirantes, por causa do Show do Rádio, um esquete de humor comandado pelo Estevão Sangirardi, criador de tipos como o milionário são-paulino Didu Morumbi e seu mordomo ou o palmeirense Comendador Fumagalli, com sua voz de papagaio, que se extasiavam com os gols ou lamentavam os resultados de seus times, em dramatizações permeadas com a retransmissão da narrativa dos momentos mais empolgantes do jogo.

Depois do jogo, voltava a sintonizar a Excelsior, a “máquina do som”, dirigida por Antonio Celso, que só tocava música cantada em inglês, com letras românticas piegas ou com um significado tão misterioso quanto Come Together. Nessa época já havia desaparecido do cenário radiofônico a música italiana que havia feito parte de primeira infância do filho do seu Joel e da dona Marisa. Rita Pavone, Pino Donaggio, Bobby Solo, Gigliola Cinquetti, cujas canções ele cantava com sua avó Alice, colados ao grande rádio de válvulas, agora davam lugar Middle of the Road, Rick Shayne, Don McLean, Archies, The Osmonds. A cada 9 canções em inglês, uma era em português, italiano ou francês. Pelo telefone, Umberto discava para o programa da Excelsior e pedia a sua canção predileta: It’s five o’clock, com o grupo Aphrodite’s Child. O que dizia a canção? São cinco horas, então eu acordo... o resto, pouco importava, legal era ouvir aquele órgão elétrico do Vangelis e a voz rouca do Demis Roussos.


Muitos cantores brasileiros imitavam a prosódia e a fonética da língua inglesa e criavam o legendário estilo embromation. Os brasileiros disputavam o mercado da música pop cantando também em inglês. Aliás, a banda que ele mais gostava naquele ano chamava-se Sunday, que havia emplacado com o sucesso I’m gonna get married – estava apaixonado pela cantora do Sunday que dizia kind of love, just a special kind of love... Vozes femininas na rádio começavam a provocar uma mudança no comportamento de Umberto. No aniversário, ele ganhou um gravador de fita cassete e passou a gravar blocos de músicas com o microfone do gravador colado no alto-falante do radinho debaixo do travesseiro, para abafar o ruído de fora. Certa noite, a Excelsior tocou uma canção francesa que havia furado o bloqueio anglo-americano na rádio. Nela, a cantora Jane Birkin sussurrava je t’aime, daquele jeito da vinheta “Exceeelsior”. A fita cassete preciosa passou a ser ouvida com frequência à noite, quando os pais já dormiam. Com a porta do quarto fechada a chave, naturalmente.


A introdução de um gravador na vida de Umberto gerou um efeito inesperado em seu gosto musical. Até então, as músicas e os jogos de futebol eram ouvidos de forma ligeira, com ruídos de estática, interferências de outras emissoras, posicionamentos estratégicos do radinho pela casa – por exemplo, a Rádio América não pegava na sala, a Eldorado não pegava na cozinha. Ouvir uma vez algo como I think I love you, com a Partridge Family (ou, no Brasil, Família Do-Ré-Mi), era algo suportável. Agora, ouvir Louisiana, com um certo Mike Kennedy, grande sucesso em 1971, ou Summer Holiday, hit no Brasil em 1972, numa fita cassete, continuamente, começava a se tornar algo um tanto desesperador.

Umberto acabara de obter o diploma ginasial. No colegial, seus novos amigos de classe só ouviam rádio FM. Sua amiga Heloísa, que se sentava ao lado de sua carteira, disse que tinha em casa um gravador estéreo e disse a ele que gostava de um jornal chamado Rolling Stone. Umberto achou que fosse um jornal da banda de rock. Não era. Resolveu fazer amizade com o Carlos, um jornaleiro que tinha banca na esquina da Rua Guaxinduva. O Carlos era um sujeito bacana, tinha uns 20 anos de idade e gostava de livrinhos de faroeste do Texas Kid, publicados pela Editora Vecchi. Nos longos intervalos de solidão, enquanto aguardava algum freguês, Carlos folheava esses livrinhos para passar o tempo.

Seu Joel e dona Marisa autorizaram o filho a passar a trabalhar quatro horas por dia na banca do Carlos, sem registro em carteira. Umberto voltava da escola, almoçava e corria para banca de Carlos, que lhe ensinava o truque dos envelopes com figurinhas carimbadas. Bastava verificar para onde a ponta era dobrada: se era virada para trás, a figurinha era repetida. Dobras coladas para a frente é que traziam as figurinhas raras. Mas Umberto já havia deixado a fase da coleção do álbum Coisas Nossas para trás fazia muito tempo. O que ele queria era conhecer o jornal que Heloísa havia indicado, pois estava enjoado daquelas musiquinhas de bailinho. Carlos não conhecia o jornal e, seguindo a recomendação do novo colega, pediu ao distribuidor que deixasse no próximo mês uns dois ou três exemplares da Rolling Stone na banca, que Umberto passou a ler avidamente, anotando os nomes das bandas de rock que precisava conhecer.

Em 1972, o tricolor não obteve o tricampeonato. Umberto rompeu com a Excelsior e com a Difusora. Anotou os nomes dos LPs que haveria de comprar para ouvir com Heloísa: Meddle, do Pink Floyd; Islands, do King Crimson; Batuka, do Santana; Pictures at an Exhibition, do trio Emerson, Lake & Palmer. Com o dinheiro que havia ganhado na banca do Carlos, levou os discos para casa e começou a ouvi-los atentamente. Eram músicas absurdas, com mais de seis ou sete minutos. Uma delas ocupava uma faixa inteira do LP, mais do que vinte minutos, igual àquelas músicas clássicas que seu pai ouvia na vitrola grande da sala de jantar! Santana, por sua vez, parecia um barulho infernal. Tudo aquilo era mais incompreensível do que a letra de Come Together. Teve que ouvir cinco, seis, sete vezes seguidas aqueles discos e, certa tarde, ao som de Echoes, do Pink Floyd, teve a revelação – algo que não caberia nos limites de uma breve crônica sobre a radiofonia no Brasil do começo dos anos 1970.

Heloísa, que conhecia gíria londrina, explicou a Umberto que Come Together foi criada para a campanha política de Timothy Leary para o governo da Califórnia. Leary competia com Ronald Reagan. Come together, join the party, era o lema de campanha do psiquiatra amigo de Lennon e defensor da descriminalização das drogas. Como a candidatura dele foi impugnada, Lennon a reescreveu, destinando cada verso a um beatle diferente. O primeiro verso, por exemplo, parece descrever o gingado de algum sem teto pelas ruas de Londres, com os olhões esbugalhados, cabelos longos até os joelhos, à procura de seguidores fanáticos, daqueles que se atiram no chão em transe, só querendo fazer o que lhe dá prazer. Nada a ver com barcos a vapor subindo o São Francisco e tocando seu apito para anunciar sua partida ou chegada em cada porto. Nada a ver com a greve na fábrica onde trabalhava o Seu Joel e que lhe custou o emprego. Nada que se pudesse explicar num programa de rádio em ondas médias na época do governo Garrastazu Médici.

Guilherme Purvin, escritor e advogado, é formado em Letras e Direito pela USP. Procurador do Estado/SP Aposentado, é secretário-geral do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública e coordenador geral da APRODAB.


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