Pães de queijo

- Guilherme Purvin -


Todas as manhãs, Francisco vai à Padaria Santa Cecília comprar dois pãezinhos. Fica um pouco mais distante de casa do que, por exemplo, a Padaria Rainha do Bairro ou a Casa de Pães do Nolasco, mas vale a pena. A massa de pão é de qualidade superior, sente-se isso só de ver no cesto ao fundo do balcão os pãezinhos que chegam a cada meia hora do forno. Diferente da Rainha do Bairro, Francisco nunca correrá o risco de levar um pãozinho assado há mais de oito horas, frio e sem brilho. O pãozinho da Santa Cecília é crocante e, além disso, ali ele pode também optar pela farinha integral e pela fermentação natural. Tudo a um custo módico, justo, honesto, nunca o absurdo do Nolasco, cuja qualidade dos pãezinhos absolutamente não justifica o preço tão elevado.


A qualidade dos pãezinhos da Santa Cecília é tão boa que compensa alguns incômodos inevitáveis. No entanto, é preciso em primeiro lugar verificar se não está chovendo, pois de nada adiantará sair à busca do melhor pãozinho do bairro e voltar para casa com ele molhado. Isso aconteceu uma vez com Francisco. O tempo estava escuro, mas ele pensou: é apenas um quarteirão de sua casa, menos de cem metros de caminhada. Pois não é que não levou nem dez minutos e caiu um pé d’água tão grande que de nada adiantou a Francisco correr de volta para casa abraçado ao saquinho de pães, tentando evitar que molhassem? Ao chegar à cozinha, a casca dos pães estava empastada, imprestável. Bem que ele tentou salvá-los, colocando-os no forno, mas isso só piorou a qualidade dos pães e não restou alternativa alguma senão descartá-los. Beijou-os, pediu perdão a Jesus pelo sacrifício e, em seguida, jogou-os no lixo.


De igual importância será atentar para os buracos nas calçadas: uma pequena distração poderá acabar com toda a alegria que o pãozinho poderia lhe oferecer. Um vizinho, ninguém muito conhecido, um sujeito até meio antipático e cheio de si, uns dez anos mais novo do que Francisco, há um mês, estava, pelo visto, com muita pressa, pois ultrapassou Francisco rumo à padaria Santa Cecília. O resultado dessa sua afobação ou arrogância foi que ele torceu o pé num desvão sem-vergonha da calçada. Esborrachou-se no chão de forma humilhante, ralou o joelho mas, todo orgulhoso, não quis aceitar a ajuda de Francisco para reerguer-se. “Não foi nada, pode deixar” — disse o sujeito rispidamente, querendo que o vizinho desaparecesse dali, tão ridículo foi seu tombo. Fosse uma pessoa paciente e cordata, não teria ultrapassado Francisco, poderiam os dois caminhar no mesmo passo e, quem sabe, trocar algumas palavras de cortesia, falar do bom tempo, da qualidade dos pães da Santa Cecília.


No mais, comprar pãezinhos na Padaria Santa Cecília é uma tarefa muito agradável e recompensadora. A fila para compra dos pães, em determinados horários do dia, chega até a rua. A todo instante, dezenas de fregueses da vizinhança correm para comprar pãezinhos quentes e a aguentar os desaforos dos balconistas que, sabendo da excelência dos produtos, não se esforçam nem um pouco para cativar a clientela. Quando chega a vez de Francisco, um dos balconistas a que ele, mentalmente, batizou de “Ressuscitado”, por causa de uma cicatriz que tem no pescoço (e que somente por um milagre não tirou sua vida), diz num tom de notório desprezo:


— Dois do mesmo de novo?


— Sim, por favor. Dois pãezinhos integrais clarinhos.


"Ressuscitado" se incomoda com o comentário.


— Sei, sei. Dois pãezinhos de farinha integral e mal assados. Sempre essa mesma merda, não importa se é primavera ou outono, se faz frio ou calor. Sua vida é sempre essa rotina óbvia.


Francisco limita-se a sorrir, meio sem jeito. Não quer arrumar briga com o Ressuscitado. Até porque, com ele, o balconista nem é assim tão agressivo. Já presenciou uma cena que por muito pouco não descamba para o homicídio, um gracejo grosseiro e machista para a esposa de um freguês que acabou sendo resolvida com um mimo: o gerente da padaria, num gesto de inesperada generosidade, ofereceu ao casal um pãozinho de queijo que acabara de sair do forno — um apenas, para os dois. O marido mordeu e devorou a metade, a esposa provou a outra.

— Muito gostoso — disse o freguês, esquecido das ofensas do Ressuscitado.


— Me separa uns quinze, por favor.


O balconista colocou quinze pãezinhos de queijo num saquinho de papel, pesou-o e o entregou à mulher do freguês, não sem antes mostrar a ela sua língua para fora, num gesto lascivo. A mulher não se fez de rogada e retribuiu na mesma moeda, sem maiores consequências.


Mas, com Francisco, Ressuscitado limita-se a humilhá-lo e a ressaltar que não passa de um medíocre, um sujeito previsível e ponderado, que jamais irá surpreender o mundo com algum gesto magnífico. Ridiculariza-o por causa dos dois pãezinhos integrais branquinhos, por causa de suas calças de brim cáqui, de sua barba bem aparada.


Francisco, hoje, está de bom humor e decide responder no mesmo tom:


— Exatamente. E, como sempre, você faz o mesmo comentário, como se fosse uma gravação que não cessa jamais de se repetir. Seja verão ou inverno, chova ou faça tempo seco, sua vida resume-se a ofender os fregueses com essas indelicadezas. Talvez a sua vida é que seja tão óbvia e vazia e você precise compensar suas frustrações com esses gracejos maldosos.


Ressuscitado olha com surpresa para Francisco.


— Eu esperava que você sorrisse com embaraço, apanhasse o pacote e se despedisse de cabeça baixa. Estou pasmo com sua resposta. Desmotivado mesmo!


Os demais fregueses olham para Francisco com ar de reprovação. Os colegas de Ressuscitado aproximam-se dele para saber o que foi que ele disse. Ressuscitado explica:


— Ele disse que eu falo sempre a mesma coisa e que a minha vida é vazia e, por isso, eu ofendo os fregueses.


— O senhor disse isso a ele? — pergunta, incrédula, a balconista que cuida do fatiamento dos frios.


Francisco fica tenso. Não esperava essa reação. Por que foi falar aquilo?


— Não foi bem isso o que eu disse.


— Eu estou aqui atrás na fila e ouvi exatamente isso — contesta um freguês.


— Não, eu não disse que a vida do Ressuscitado é vazia...


— Ressuscitado? — pergunta o gerente da padaria, que acaba de se aproximar por conta da confusão que começa a se formar diante do balcão.


— O balconista aí.


— O meu nome é Melquíades, não é Ressuscitado. Por que você me chamou de Ressuscitado?


— Ele disse que a vida do Melquíades é vazia sim, eu ouvi! — insiste o freguês de trás, no que é apoiado por uma senhora que vem logo em seguida.


— Vamos por partes — diz o gerente da padaria. — Primeira questão, você disse ou não disse que a vida dele é vazia? Segunda questão, por que o chamou de Ressuscitado?


Francisco procura reagir. Tenta afastar-se do grupo que se formou à sua volta, segura com firmeza o saquinho com os dois pãezinhos integrais branquinhos e caminha resoluto ao caixa.


— Três reais e sessenta e sete centavos — diz o caixa.


— Pode ficar com o troco — responde Francisco, entregando duas notas de dois reais.


Sai depressa para a rua, precisa respirar um pouco de ar puro. Começa a caminhar rumo à sua casa, mas é abordado pelas costas. Melquíades e mais uns quinze empregados da padaria Santa Cecília o seguem.


— O que vocês querem? — pergunta Francisco, assustado e acelerando o passo.


— Queremos lhe devolver o troco. Trinta e três centavos.


— Eu disse que vocês podiam ficar com o troco.


— Ninguém quer suas esmolas. Queremos saber por que você disse que a minha vida é vazia e por que me chamou de Ressuscitado.


— Essa abordagem é absurda! — protesta Francisco. — Eu simplesmente reagi a uma ofensa, uma agressão que você me irroga todas as manhãs. Eu nada disse que pudesse ser considerado mais grave do que havia ouvido de você. Tenho o direito de responder no mesmo tom, ora essa! Além disso, eu não disse que a sua vida era vazia, eu disse que talvez fosse vazia e, por isso, você procurasse compensar suas frustrações com essas ofensas sem graça nenhuma. Eu disse “talvez”, entendeu?


— E por que você me chamou de Ressuscitado! O que você sabe a meu respeito?


— Isso é uma bobagem. É por causa dessa cicatriz em seu rosto e que se estende até a sua jugular e sua carótida. Eu sempre achei incrível que você possa ter sobrevivido a alguma facada nessa região da cabeça, por isso, na minha cabeça, chamo você de Ressuscitado.

— Não sei nada dessa história de jugular e carótida.


— Isso não tem importância! Deixem-me em paz! Só quero ir para minha casa comer o pãozinho enquanto ainda está quente e tomar um café. E olhem para o céu! Daqui a pouco começa um toró e o pãozinho vai acabar estragando!


— Mas não vai sair daqui de jeito nenhum! Você vai ter que voltar para a padaria e explicar pessoalmente aos fregueses toda essa história de jugular e carótida.


Não tem jeito, os funcionários da padaria arrastam Francisco de volta ao estabelecimento e, ali, ele é obrigado a explicar de forma sucinta o que são veias e qual a sua diferença com as artérias, a jugular é uma veia, a carótida é uma artéria. Melquíades complementa a aula:


— A facada que eu levei nesta região era pra ter me matado. No entanto, eu estou aqui, vivinho da silva. E como é que se explica isso? De acordo com o freguês aqui, eu só posso ter morrido e ressuscitado depois.


Ao final da preleção, o gerente da padaria oferece um pãozinho de queijo (dos pequeninos) a Francisco. Francisco agradece.


— Não é preciso agradecer. Fica como compensação pelos trinta e sete centavos que você deixou de esmola no caixa.


— Foram trinta e três centavos, chefe — corrige Melquíades.


— Sem problema. Amanhã o freguês paga esses quatro centavos que estão faltando.


Francisco sai às pressas da padaria, quase correndo. Quando chega à outra esquina, percebe que confundiu de direção, estava tão atordoado que correu no sentido oposto de sua casa. Terá que passar de novo diante da Padaria Santa Cecília, onde uma multidão está aglomerada, comprimindo-se por causa da chuva que começa a cair. O incidente atrasou a fornada e as pessoas parecem irritadas, procuram descobrir quem foi que causou esse transtorno. Francisco muda de calçada, com medo dos olhares ameaçadores da vizinhança. O gerente da padaria traz uma bandeja de pãezinhos de queijo, na tentativa de acalmar a freguesia. Gotas grossas de chuva começam a cair sobre o corpo curvado de Francisco, que busca proteger inutilmente os pãezinhos, sem atentar para o desvão da calçada.


S.Paulo, 26 de fevereiro de 2020

GUILHERME PURVIŅŠ é formado em Letras e Direito pela USP. É escritor e professor de Direito Ambiental.



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