Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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A PRIMEIRA FEMINISTA

-CELSO AUGUSTO COCCARO FILHO-



A turba bradava, do lado de fora,


- Desça, rameira, prostituta do rei!


Marie de Gouze, que numa das mutações de sua existência passou a se chamar Olympe de Gouges, resolveu enfrentar aquela multidão, que costumava enforcar os desafetos nos postes de Paris e que acabava com a oposição pela raiz, que no caso de inimigos políticos eram as cabeças, o germe das ideias diferentes, espetadas em piques e patrioticamente desfiladas.


Um sans culotte versado na poda das opiniões salientes a puxou pelos cabelos, prendeu-a pelo pescoço e, com o facão já posicionado apregoou aos seus pares,


- 24 soldos pela cabeça da De Gouges, repito 24 soldos, quem vai querer, quem se apresenta?


Uma voz sufocada e reprimida se fez ouvir primeiro:


- cidadão, ofereço um lance de 30 soldos pela minha própria cabeça e peço prioridade...


- feito, cidadã, você venceu! Devolvo-lhe a cabeça, ainda presa à sua dona.


A arrematante da própria vida nascera em 1748, com dois possíveis pais: um açougueiro, burguês do tiers, ou o marquês poeta Franc de Pompignan, um dos muitos narradores da história de Dido, rainha de Cartago, e que se tornou conhecido por ter sido acusado de plágio e massacrado na academia francesa pelo implacável Voltaire.

É claro que Marie, casada desde a adolescência com outro açougueiro, preferia se imaginar filha do marquês trovador.


A viuvez aos dezoito anos quebrou as amarras da existência anônima e subordinada a algum amo do segundo ou do terceiro estado (do primeiro, o Clero, talvez, mas nunca oficialmente...).


Passou a se autodenominar Olympe e a escrever o sobrenome Gouze como o falava, com a influência do sotaque occitano de sua família materna: “Gouge”.


Com a mesma audácia com a qual manteve a cabeça sobre os ombros, lançou-se nos vários salões culturais da época, amigando-se com pessoas influentes, um amante aqui e outro acolá, uma social climber iluminista.


Inverteu a forte tendência a se transformar em comensal, ou a “preferida” de algum homem, com produção expressiva de peças teatrais e dos panfletos políticos, comuns na época, pregados nas paredes de Paris e das principais cidades francesas.


Lançou ideias interessantes, como o “imposto voluntário”, ou “imposto sobre o orgulho”, que visava convencer os franceses abastados a, em nome da salvação social, abdicarem do luxo e do supérfluo. Os contribuintes seriam identificados pelos adereços nobiliárquicos e da burguesia fidalga, como brasões, excesso de cavalos nos cabriolés, rococó nos trajes, e outros símbolos exteriores de conduta socialmente criticável, e convidados a contribuir para os caixas do Estado.


Também se lançou na defesa dos negros, tendo escrito a peça “A Escravidão dos Negros ou o Feliz Naufrágio”, que estreou no Teatro Francês em 28 de dezembro de 1789 e que, apesar do sucesso inicial, ou por conta dele, foi interrompida a pedido dos donos dos camarotes, na sua maioria colonialistas escravagistas.


Mas Olympe se tornou conhecida pela intransigente defesa de outra “minoria”, ou uma minoria que em geral representa a metade ou um pouco mais da população mundial, o seu próprio sexo.


Identificou a falácia do lema “igualdade, fraternidade e liberdade”.


Mesmo no auge do movimento revolucionário, após a extinção do calendário gregoriano, a transformação das igrejas em templos da “Deusa Razão” e a abolição da escravidão na colônias, as mulheres não eram iguais aos homens (sequer votavam ou poderiam ser votadas para a composição das assembleias revolucionárias), não caminhavam ao lado dos homens, como irmãos, na forja da nova sociedade e não eram livres para desfazer uniões conjugais desfavoráveis nem para traçar seu próprio destino e atingir a autorrealização, salvo pela maternidade ou pelos caminho dos esponsais.

Lançou a peça “O Convento, ou os Votos Forçados”, que revelava a falta de livre arbítrio feminino, ao narrar a estória de Julie, forçada pela família a se aproximar perpetuamente de Deus na clausura de um convento...


A defesa da igualdade se fez mais contundente, na “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, que lançou de forma panfletária, em vão.


Artigo 1º da Declaração: “A mulher nasce livre e é igual ao homem perante a lei. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum”.


O trecho mais conhecido é este: “... a mulher tem o direito de subir no cadafalso; deve ter igualmente o de subir à Tribuna...”.


E assim Olympe se lançava, sem notar, ao cruel destino. Uniu-se aos girondinos, a “Planície”, mais afáveis que os severos jacobinos, ou a “Montanha”, quando ainda ditavam as regras na Convenção.


Chegou a se voluntariar a defender Luís XVI, no processo que gerou a sua final execução, porque acreditava na monarquia constitucional.


E, de passo em passo, foi tragada pelo Terror.


Escreveu o panfleto “Três Urnas”, que defendia eleições gerais para definição do modelo político a ser adotado pelos franceses, e o fez quando a “Montanha” já dominava a “Planície” e guilhotinara a maioria e seus integrantes. Defendeu a escolha pelo voto entre a República Una e Indivisível, a República Federalista ou a Monarquia Constitucional.


Foi julgada, condenada à morte e executada pela guilhotina, logo no dia seguinte, sem nem ao menos ter tempo para alguma reflexão ou um argumento espontâneo para tentar, outra vez, salvar a própria cabeça.


Embora polêmica, no seu próprio País, é inegável sua contribuição para a causa da igualdade, da fraternidade e da liberdade, em sua acepção efetiva.


Outras mulheres do período contribuíram, com seu talento e sabedoria, mas segundo as regras do jogo social e político, como a Madame de Stael (filha do famoso financista Necker), Sophie de Condorcet (esposa do famoso Condorcet), Manon Roland (esposa do famoso Roland) e Marie Lavoisier (esposa do famoso químico Lavoisier), que, apesar dos talentos superiores aos de “seus homens”, viveram à sombra deles, e os usaram como máscaras ou personas de seus próprios eus.


Olympe se desgarrou e perdeu a própria cabeça, que é homenageada nesta pequena lembrança de sua existência.

Celso Augusto Coccaro Filho escreve todo dia 30 de cada mês na Revista Pub - Diálogos Interdisciplinares. É escritos e procurador do município de São Paulo, além de sócio fundador do IBAP.


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