A PETROBRAS E A QUEBRA DO PARADIGMA REPRESENTADO PELO PETRÓLEO NO PRÉ-SAL

-PAULO F. GARRETA HARKOT-


O petróleo era nosso… Com seríssimo agravante.

O óleo e gás descobertos abaixo dos evaporitos – camada de rochas sedimentares constituídas por minerais salinos –, ou Pré-Sal, como se tornou conhecido, arrebentou o paradigma da produção de petróleo em margens continentais do tipo Atlântico, ou passivas e, nesse caso específico, do Brasil .


À hipótese de geração de óleo nessas margens passivas evoluiu concomitantemente à formulação da teoria mobilista da tectônica de placas, pela escola americana e europeia, na qual os diferentes tipos de rochas sedimentares dispostos sobre a crosta continental, no limite com a crosta oceânica, decorrem dos diversos estágios evolutivos da bacia oceânica, sintetizado no Ciclo de Wilson que ilustra o processo de ruptura, migração dos continentes, origem e evolução dos oceanos ao longo dos últimos 200 milhões de anos, responsável pela divisão do supercontinente da Gondwana e formação da África, América do Sul, Índia, Austrália e Antártica como resultado da movimentação das placas tectônicas.


As fases evolutivas de uma bacia oceânica podem ser expressas pelo estágio, ou fase, em que se encontram: rift-valley ou embrionário (início da separação dos continentes, no leste da África), juvenil (Mar Vermelho), madura (na qual o Oceano Atlântico Sul se encontra), senil (Oceano Pacífico), terminal (Mar Mediterrâneo) e cicatriz residual ou sutura continental (Cordilheira do Himalaia), Figura 1.


Figura 1. Estágios do Ciclo de Wilson, com a localização de exemplos atuais. Fonte: adaptado de https://www.notasgeo.com.br/2018/08/a-terra-pulsante-parte-i-o-ciclo-de.html

A margem continental brasileira distingue-se pela grande largura, em alguns locais excedendo os 200 km, onde são identificadas províncias características como a plataforma, talude e sopé continental bem desenvolvidos. Apresenta rochas sedimentares originadas na fase embrionária de evolução do Oceano Atlântico, situada abaixo da camada de sal ou pré-sal, na fase juvenil (onde foram constituídos os grandes depósitos evaporíticos de sal) e na fase madura, situada sobre a camada de sal ou pós-sal, Figura 2.


Figura 2. Seção geológica esquemática da Bacia de Campos. Fonte: adaptado de https://pt.slideshare.net/ANPgovbr/bacia-de-campos-51511845.

A hipótese adotada para a geração de óleo na Bacia de Campos, até 2005, portanto acima da camada de sal, foi a biogênica ou orgânica. A causa, inquestionável até aquele momento, decorria da acumulação de matéria orgânica gerada por blooms de fitoplâncton em águas com alta produtividade, além de matéria orgânica introduzida pela drenagem continental, sedimentados em ambientes redutores – sem a presença de oxigênio - e cobertas por camadas de sedimento que isolaram aqueles depósitos e impediram a sua decomposição por processos biogeoquímicos.


A Bacia de Campos, a maior produtora de óleo e gás do Brasil até a descoberta do Pré-Sal, teve sua produção assegurada por campos situados acima da camada de sal a partir da década de 70, com notável aumento da capacidade de exploração em águas cada vez mais profundas, Figura 3 e 4, muito bem ajustada ao modelo de geração e produção de petróleo das margens continentais do tipo passiva como no caso do Brasil, margem leste dos EUA, Inglaterra, Noruega além dos demais países presentes nas margens leste e oeste do Oceano Atlântico, onde o petróleo gerado é armazenado em reservatórios associados a esse tipo de margem continental.


Figura 3. Aumento da profundidade da lâmina d'água como decorrência da evolução e aprimoramento tecnológico da Petrobras, até atingir águas ultraprofundas. Fonte:adaptado de https://pt.slideshare.net/ANPgovbr/bacia-de-campos-51511845

Figura 4. Número de poços exploratórios na Bacia de Campos até a descoberta do Pré-Sal, em águas ultraprofundas. Fonte: adaptado de https://pt.slideshare.net/ANPgovbr/bacia-de-campos-51511845.

Na Rússia e o leste da Eurásia, de outra forma, por contar com plataforma continental do tipo ativa como resultado da colisão de placas tectônicas e subducção da crosta oceânica sob a crosta continental, não ocorreram as condições para formação de bacias sedimentares marítimas e a exploração e produção de petróleo se deu em bacias sedimentares continentais. Como, nessas situações, não havia justificativa para a origem das feições sedimentares presentes na margem continental brasileira e, nem tampouco, para a acumulação de matéria orgânica em quantidade necessária para a formação dos hidrocarbonetos, os geocientistas daquela escola não concordavam com a teoria da deriva continental por meio da tectônica de placas e, nem tampouco, pela origem dos elementos químicos necessários para possibilitar a geração e acumulação de gás e óleo naquele continente, que não poderia decorrer da matéria orgânica.

Para que ocorra a geração de hidrocarbonetos é necessária elevada concentração de elementos químicos específicos como carbono (C) e hidrogênio (H), principalmente, além de enxofre (S), oxigênio (O), nitrogênio (N) além de diversos elementos traços como níquel e vanádio, entre outros.


Mas, Dimitri Mendeleiev (químico responsável pela elaboração da Tabela Periódica dos elementos químicos), no final do Sec. XIX, já informava que esses elementos químicos necessários seriam fornecidos pelas rochas presentes no manto, localizado abaixo da astenosfera subsidiando a propositura da hipótese inorgânica, ou abiogênica, para a geração de hidrocarbonetos.


Para a geração de petróleo, tanto por meio da hipótese biogênica como abiogênica, são necessários alguns requisitos adicionais à presença dos elementos químicos para sua produção como elevada pressão, alta temperatura e muito tempo (na casa dos milhões a dezenas de milhões de anos) para que esses três fatores atuem simultaneamente junto aos elementos químicos citados em alta concentração, nos moldes de uma gigantesca panela de pressão a “cozinhar, sob pressão” essa mistura química até transformá-los em querogênio e, posteriormente, gás e óleo.


Mas, apenas os pré-requisitos químicos e físicos satisfeitos não são suficientes para a produção de petróleo. Tornam-se necessário, também, alguns tipos de formações rochosas particulares associadas as diversas fases do processo de geração e acumulação de óleo e gás. Assim, há que se contar com as rochas geradoras, a fazer a vez da “panela de pressão”, em seguida estruturas geológicas que possibilitem a migração do óleo e gás até atingir as rochas reservatórios, com porosidade e permeabilidade adequada para a acumulação dos hidrocarbonetos gerados em regiões mais profundas e, sobre elas, as rochas capeadoras ou selantes, cuja função é impermeabilizar a parte superior das rochas reservatórios impedindo a sua migração para fora do depósito sedimentar e sua exsudação nas águas do mar ou na superfície da terra.


Esses tipos de estruturas rochosas são encontradas apenas em bacias sedimentares, tanto continentais como marítimas e, como resultado, justificam a concentração de gigantescos depósitos de hidrocarbonetos nessas regiões.


No caso da margem continental brasileira e da Bacia de Campos em particular, se a hipótese biogênica ou orgânica para a produção de óleo na primeira fase dessa bacia, acima da camada de sal, justificava a geração e produção de petróleo, já na segunda fase de produção abaixo da camada de sal, no Pré-Sal, deixou aderir às novas condições identificadas.


Para justificar essas gigantescas descobertas em 2006, tornou-se necessário buscar outro modelo para a geração desses hidrocarbonetos, quando foi evocada a hipótese abiogênica sugerida por Mendeleiev para as bacias sedimentares continentais da Rússia.


A descoberta de hidrocarbonetos, portanto, levantou diversas questões quanto aos mecanismos que asseguraram tão elevada concentração nessas margens continentais e apontam que as duas hipóteses – biogênica e abiogênica – podem ter atuado ao longo da evolução do Oceano Atlântico Sul e da margem continental brasileira.


Sem deixar de ressaltar que, se os hidrocarbonetos acumulados nas formações sedimentares localizadas no Pré-Sal foram originados por processos abiogênicos, pode ter sido transposta uma fronteira muito importante acerca a geração e acumulação de hidrocarbonetos em margens continentais do tipo passiva, apontando para cenários muito promissores quanto a existência de campos de petróleo com volumes e localizações sequer imaginados, em decorrência da dissociação entre processos biológicos muito produtivos determinados por condições ambientais e ecológicas específicas e a presença dos elementos químicos necessários para a sua produção.


Com a descoberta do Pré-Sal, graças ao altamente diferenciado nível tecnológico da Petrobras, escancarou-se uma nova fronteira para a produção de hidrocarbonetos e as estimativas a respeito do tamanho das reservas, que sequer havia se ousado estimar mesmo nas previsões mais otimistas, aumentaram exponencialmente. O Brasil passou a concentrar know-how único no mundo, de alto impacto estratégico e geopolítico.


A partir daquele momento, a Petrobras, empresa líder na área de exploração e produção de petróleo e gás, tornou-se abalizada e competitiva para explorar as reservas petrolíferas localizado no Pré-Sal das bacias sedimentares da costa africanas, cuja gênese e evolução são idênticas às da margem continental brasileira.


Como consequência das reservas descobertas no Pré-Sal, o Brasil foi guindado a destacada posição entre os países produtores de petróleo e passou a alimentar cenário dos mais otimistas para o desenvolvimento do País a partir dos recursos a serem auferidos com tamanha riqueza descoberta. Previu-se e planejou-se, a partir daquele momento, uma nova e promissora fase para o nosso País.


Para citar apenas um exemplo, o Plano Nacional de Educação – PNE, planejado para ser implantado a partir de 2010, previa valorizar os professores da rede pública de ensino fundamental mediante remuneração equivalente à de profissional com o mesmo tempo de experiência no mercado privado. Em termos práticos, corresponderia a multiplicar os ganhos dos referidos professores por mais de duas, e até mesmo três vezes e tinha por objetivo, além da valorização dessa classe profissional, tornar essa carreira mais atrativa e atrair bons e experientes profissionais para a rede de ensino público.


Mas, se essa foi uma grande e auspiciosa notícia para o Brasil, também serviu para despertar o apetite de grandes nações ávidas por esse tipo de recurso energético.


E, logo a seguir, nosso País viu-se exposto ao que Michel Ross denomina de “Maldição do Petróleo” como se constatou ao acompanhar os desdobramentos que sucederam tal descoberta, ao longo de diversos sobressaltos, até atingirmos a situação presente na qual significativa parcela de desinformados brasileiros passou a apoiar o desmonte da Política Energética Nacional e da Petrobras tendo por justificativa a eliminação da corrupção amplificada e divulgada à exaustão pelos meios de comunicação.


Como se a corrupção – prática corrente nesse País desde os idos de 1532 – fosse justificativa cabível, após 2016, para isentar as petroleiras estrangeiras de pagamento de impostos por 25 anos, eliminar a necessidade de conteúdo local – responsável por mais de 60.000 postos de trabalho apenas no estado do Rio de Janeiro – junto às empresas estrangeiras, entregar o sistema de dutovias para empresas alienígenas, desativar refinarias para a produção de combustível, desestruturar as empresas de engenharia pesada na área offshore e de construção naval e se tornar um grande importador de óleo dieses e combustível dos Estados Unidos, grande parceiro estratégico do atual governo.


Nesse quadro, esses desinformados brasileiros devem estar felizes com o destino a ser dado ao óleo de ótima qualidade produzido pelos campos do Pré-Sal, a beneficiar especialmente empresas situadas alhures mas não no território nacional.


Bem como devem estar tranquilizados por ter sido eliminada a possibilidade de corrupção mesmo considerando que o Brasil está jogando fora a mais rentável indústria do globo.


Em outras palavras, no lugar de trocar a água suja do banho do bebê, optou-se por jogar fora a bacia com o bebê e água. Afinal, a água suja é um grande problema e deve ter a causa eliminada.


Brilhante solução apoiada por uma legião de teledesinformados, teledeformados e teleludibriados: a morte da galinha que bota ovos de ouro.


Faz sentido. Afinal, esse é um País que vai para a frente!!!

Referências:

https://jornalggn.com.br/ciencia/trabalho-avalia-papel-da-petrobras-na-producao-cientifica/

https://www.notasgeo.com.br/2018/08/a-terra-pulsante-parte-i-o-ciclo-de.html

https://pt.slideshare.net/ANPgovbr/bacia-de-campos-51511845

Paulo F. Garreta Harkot – Oceanógrafo atuante na área de gestão da zona costeira e marinha brasileira, saúde pública / epidemiologia, unidades de conservação e impactos ambientais desde 1985. Desde sempre um realista esperançoso como definido por Ariano Suassuna.

23/05/18


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