Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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Deus é o sintoma da intolerância!

Atualizado: 14 de Jan de 2019

- Arnaldo Domínguez de Oliveira - 


Arnaldo Domínguez de Oliveira

A sexualidade está no centro do inconsciente, mas está como uma falta. Ela é uma operação fundante da alteridade e da diversidade (do público e do privado), em consequência, se contrapõe à vontade de um deus único que impere por sobre todos os falantes, tal como pretendem os que professam o fanatismo da fé, tanto hoje quanto na Idade Média. Para impor a vontade de dominação deste deus onipotente seria preciso anular a variedade do desejo atribuída ao demónio (sexualidade) cuja oficina fica no vazio da mente, causa de tentação, instrumento de sedução, tudo isso que não pode haver numa “família cristã”, logo, a frequente fuga pela perversão, a traição, a pedofilia, etc. Desde uma abordagem política, comprovamos que o déspota totalitário é deus e não o diabo porta-voz do desejo, porém este tormento crónico e maniqueísta é o causador de muito sofrimento na humanidade.

A psicanálise, que trata dos sofrimentos provocados por estas tensões constitutivas do sujeito, tendo como instrumento a palavra que o representa, baseava sua intervenção num imperativo epistemológico e ético denominado: a interpretação.[1] Atualmente vamos mais além, situando no ato do analista a resposta ao clamor por simbolização contido nos atos do analisante. “Se quiseres interpretar tens que tomar o desejo ao pé da letra” era a orientação lacaniana pois o fim de uma análise consistia no reconhecimento do desejo pela palavra. Posteriormente constatou-se a incompatibilidade entre o desejo e a palavra tendo que se abdicar, em parte, daquela perspectiva totalizante [2] e, avançando rumo à destituição subjetiva, quando o analisante cai de sua fantasia mediante um golpe teatral inesperado, transformou-se a psicanálise numa realização do sujeito enquanto dividido confrontado ao des-ser. A destituição subjetiva é o que espera a qualquer sujeito analisante no final do seu percurso, o reencontro com a falta que estrutura sua subjetividade, quando na aventura do sintoma, que era uma estratégia utilizada para lidar com a castração, operação fundante da sexualidade, finalmente o disjunto se junta: o gozo e o desejo. Assim, o outro não mais encarnará o objeto que nos falta e a perspectiva do amor poderá constituir-se como “hetero”, porque será por outro de qualquer outro sexo.

Quiçá por isso mesmo é que, também o Kratos (domínio), ameaçado repetitivamente a duros golpes, seja sempre o do Demos, que é o diabo amoroso. Só pode ser!

Itaquaciara, 24/11/18

[1] Jacques Lacan, “O desejo e sua interpretação”, Livro 6. Minha versão “Pirata” da UBA, com orgulho!

[2] Tornar o inconsciente consciente

Arnaldo Domínguez de Oliveira é Psicanalista, fundador do "PROJETO ETCÉTERA E TAL... Psicanálise e Sociedade" e conselheiro da Biblioteca Popular de Itaquaciara, D. Nélida, Itapecerica da Serra.

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