Januário ingressa no Serviço Público

- Guilherme Purvin -


Tanto sob a perspectiva acadêmica como sob a profissional posso dizer que fui um abnegado cientista. Nos tempos de faculdade, era apaixonado pelas sagas dos primeiros guarda-livros da história do Brasil. Folheando o “Manual do Escriptorio”, de Idelfonso de Souza Cunha, eu me imaginava realizando a escrituração comercial dos estabelecimentos do Rio de Janeiro à época do Imperador Dom Pedro II.

Sei que para muitos a Contabilidade soa como algo estéril, mortalmente enfadonho, e que é tão somente essa característica que assegura trabalho a quem se dispõe a abraçar tal profissão. No entanto, poucos sabem que é através das Ciências Atuariais que podemos nos certificar se, por exemplo, o número de momentos felizes num determinado ano de nossa vida superou ou foi superado pelas tristezas e preocupações. Sigo a doutrina de Jeremy Bentham: meço sempre os prós e os contras. Não digo que o sistema seja infalível, mas ao menos me poupa do vexame de cometer impropriedades lógicas por conta da inflamação no hipocampo.


É preciso que nos acostumemos com a rotina, porém. Por meio de um trabalho constante de contabilização, que deve ser realizado diariamente, acabamos nos convencendo de que, por exemplo, o bem-estar que estamos sentindo neste momento por conta do clima ameno, do brilho do sol, do canto dos pássaros, está longe de superar os (ia dizer, equivocadamente, “inumeráveis”) dias de solidão e desesperança. Assim também o ingresso de um valor qualquer no caixa pode nos dar a ilusão de que o negócio vai bem, mas na verdade não passa de queima de estoque com prejuízo evidente. Guardar coisas inúteis tem um custo.


Espaços têm um custo. Tijuco Verde é finito. O Planeta Terra é finito. Não temos muitos lugares para depositar o lixo produzido diariamente, lixo que alimenta bactérias, vírus, bacilos, micróbios das mais variadas cepas, hospedados em ratos que transitam pelas ruas ocupadas por prédios públicos com marquises utilizadas para abrigar mendigos nos dias de chuva. Tudo isso deve ser contabilizado. Na equação do mercado imobiliário, qual é a depreciação no valor de uma residência se, nas imediações, à noite, os ratos saem das tampas de esgoto, os sem-teto se alojam pelos cantos dos muros e um barzinho fuleiro toca forró, funk e sertanejo até quatro da madrugada?


Essa pode ser uma das tarefas delegadas ao cientista atuarial que, obviamente, não poderá se restringir às regras das partidas dobradas. Não. Será preciso adquirir conhecimentos de microbiologia, de higiene social, será preciso sobretudo ter uma boa dose de sorte para estar no local certo, no momento correto, para receber os cumprimentos do Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata – diretor-geral do Serviço Municipal de Esgoto à época em que ingressei no setor público.


Mas não coloquemos os carros na frente dos bois. Por ora, basta dizer que meu gosto pela Contabilidade foi, por muito tempo, o meu patrimônio. E foi essa paixão que me levou a prestar, há tantas décadas, ainda na juventude, um concurso público. Trabalhei por muito tempo para a Administração Pública Municipal. Dez? Não, mais do que isso, acho que quase vinte anos. Para ser mais preciso, trabalhei no Setor de Dívidas do Serviço de Esgoto.


Cabe aqui uma brevíssima digressão de natureza administrativa. O Serviço de Esgoto, órgão da administração direta integrante da estrutura da Secretaria Municipal de Segurança Pública, Lazer e Habitação, é, talvez, o mais importante órgão governamental do Município de Tijuco Verde, responsável pelo controle de bactérias, vírus e helmintos. Poucas são as pessoas que conhecem a diferença entre bactérias, vírus e helmintos. Há mesmo quem os confunda com protozoários. Por ora, adianto tão somente que esse caldo é extremamente perigoso. Diria que, nas mãos de munícipes mal-intencionados, poderiam ser utilizados como verdadeiras armas biológicas. Alguém se lembra da sopa primordial? Do caldo que, submetido a radiação ultravioleta e a descargas elétricas, deu origem a coacervados? Pois bem, cesse tudo o que os compêndios escolares de biologia cantam: o caldo que escorre pelos canos de esgoto não gera meros coacervados. Eles têm potencial suficiente para atingir toda a população de Tijuco Verde, provocando doenças e mortes em massa.


Helmintos no tubo intestinal de um ser humano.

É aqui que entra o Serviço de Esgoto. Por tratar-se de um trabalho realizado nos subterrâneos, poucas são as pessoas que têm consciência da real dimensão do poder de fogo deste órgão para o qual por anos prestei minha modesta contribuição acadêmica. Não exatamente na linha de frente, exterminando os agentes patológicos, mas nos bastidores, se é que me entendem.


Minha aprovação no concurso público foi a realização de um sonho, pois até então, a serviço da Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias, meu dinheiro não dava nem para o ônibus. O novo emprego estável, agora, me permitiria afastar-me da influência nefasta de Benedito Montana, amigo de adolescência, da época da banda Lá Bemol. Estabilidade, prestígio e remuneração garantida, porém, não fizeram de minha vida profissional um mar de rosas. Meu superior hierárquico, o Dr. Décio Linhares, contribuía em muito para tornar o ambiente de trabalho irrespirável.


Quando me lembro de meu primeiro dia de trabalho no SDSE, vem à mente um funcionário que dormia reclinado em sua mesa, o rosto amassado sobre a máquina de escrever. À frente dele, outro sujeito, muito magro, afugentava insetos voadores inexistentes dando tapas no ar. Numa mesa atravessada que fazia um ângulo de 45 graus com as paredes, o chefe, Dr. Décio Linhares, com os cabelos loiros penteados de lado, palitava cuidadosamente seus dentes, sentado sobre uma lista telefônica que colocava em sua cadeira para tornar-se mais visível aos subordinados, já que a genética não o contemplara com uma estatura superior a um metro e meio.


Eu entrei em cena e apresentei-me como o novo funcionário da repartição. O chefe olhou muito rapidamente para o meu rosto e logo desviou o olhar para alguns papéis sobre sua mesa. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer. Ele então disse para mim, com toda seriedade:


— Acho que tem um dente cariado aqui —. Abriu a boca e fez um sinal para que eu me aproximasse. — Dá uma olhadinha aqui pra mim. Está vendo? É bem no fundo. Não tem alguma coisa diferente?


Fiquei meio constrangido, sem saber se aquilo era algum trote de calouro, mas ele insistiu, agora num tom autoritário. Com muito esforço, balbuciei:


— Não vejo nada.


— O senhor quer dizer que estou fazendo fita?


— De forma alguma, doutor. É que sou jejuno em odontologia.


— Jejuno? Que é isso? Seu Geraldo, veja aí em seu dicionário o que é que significa jejuno.


Seu Geraldo parou de dar tapas nas moscas invisíveis e correu para consultar seu dicionário Caldas Aulete. Dr. Linhares insistiu:


— Olhe bem, deve haver algum dente com buraquinho.


— Que dente é? – perguntei.


— Como posso saber o nome? Sei lá, canino, molar...


—Sinceramente, doutor...


Dr. Linhares ergueu-se, irritado.


— Deixe-me apresentá-lo aos seus novos colegas de trabalho. Adriana, este é o Januário. Começa hoje. Tem curso superior. Ciências Autuariais.


— Atuariais – corrigi baixinho.


Adriana olhou com uma expressão sonolenta para mim:


— Tome cuidado com os carpetes, estão rasgados e às vezes a gente tropeça.


Olhei para o chão. De fato, o carpete cinza estava todo puído, com rombos provocados por bitucas de cigarro. Fiquei imaginando quantos ácaros deveria ter por centímetro quadrado. Quantas bactérias. Mas talvez a hulha, a nicotina, o alcatrão dos cigarros fumados ao longo de tantos anos tivessem transformado aquela superfície irregular num extenso deserto inóspito para qualquer micro-organismo.


Carpetes rasgados repletos de ácaros e nicotina.

— Este é o Seu Geraldo, o meu substituto na grade de chefia – prosseguiu o meu novo chefe.


Seu Geraldo interrompeu a pesquisa lexicográfica e, como um militar, ergueu-se prontamente e estendeu a mão, cumprimentando-me:


— Seja muito bem-vindo ao Setor de Dívida do Serviço de Esgoto – disse, olhando para mim com muita seriedade. Mal tive tempo de estender a mão, já fui arrastado para a mesa seguinte.


— E este é o Almir.


Dr. Linhares chacoalhou os ombros do funcionário que, assustado, empertigou-se:


— Está na hora do café? Preciso de mais café porque hoje o trabalho está sobrecarregando minha mente!


Por fim, o chefe apontou para uma mesa vazia, defronte a uma janela espelhada.


— Esta é a sua mesa de trabalho, Januário – e, num riso espasmódico: — Ou devo chamá-lo de Dromedário? Ahah!


Januário / Dromedário. Tentei rir do trocadilho estúpido, mas apenas consegui esboçar um sorriso constrangido. Repeti mentalmente os nomes dos novos colegas. Mais tarde eu desenharia numa folha de papel a disposição das mesas e os nomes de cada novo colega de repartição para memorizar. Não se deve nunca confiar na memória imediata, sobretudo se nosso hipocampo sofreu forte ataque na juventude por conta da inalação de supositórios veterinários. O Sr. Geraldo chegou então à frente da mesa do Dr. Linhares e, ora dirigindo o olhar para ele, ora para mim, disse em alto e bom tom, como se estivesse dando início a um pregão:


— Jejuno. 1. Que está em jejum. 2. Em sentido figurado: que é leigo, ignorante em alguma coisa: Político jejuno em psicologia das massas. Substantivo masculino. 3. Anatomia. Porção do intestino delgado que se segue ao duodeno e antecede o íleo.

E o meu chefe:


— Você está sem café da manhã, Januário? Foi isso o que você quis dizer? Está com fome?


Na verdade, estava mesmo, mas isso não importa. De repente, chego à conclusão de que não deveria ter iniciado a minha história desta forma.

Januário ingressa no serviço público é o Capítulo 1 do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.




92 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

La Bemol