Esqueçam o que escrevi até agora

Atualizado: Nov 15

- GUILHERME PURVIN -

Link para o Capítulo 1


Iniciei meu romance "A Igreja do Gigante Azul" falando de minha paixão incontida pela Contabilidade e pela Filosofia Utilitarista de Jeremy Bentham. Para mim, tudo é uma questão de pesar os prós e os contras. Também assim pensava o famoso tenente-coronel Oliver North que, em 1985, usou o lucro obtido com a venda de armas para o Irã em troca da libertação de reféns e investiu nos contras, em detrimento dos sandinistas.


Tudo não passa de simples contabilidade. Adriana, a nova colega de repartição, me alertou sobre o risco de tropeçar num carpete rasgado: valerá a pena arrebentar o rosto durante o expediente em troca de uma semana de licença-médica? Pese os prós e os contras.


Ou, para ser ainda mais claro, valerá investir seu tempo na limpeza da poeira acumulada nos mecanismos de um relógio-cuco que você sequer dá corda, contrair uma rinite alérgica e passar as próximas 24 horas ouvindo a cada meia hora o som do cuco, justamente na semana em que você vai receber parentes seus distantes vindos de Riga? Coloque tudo no papel, não esqueça nenhum detalhe e você saberá se tomou ou não a decisão correta: pode ser que a rinite e o canto do pássaro sejam muito mais vantajosos do que você ser constrangido a estudar intensamente a gramática do Letão para se comunicar com esses primos de terceiro grau.


Se você parar para refletir, vai ver que tudo o que estou falando é perfeitamente racional e permite contornar os percalços impostos pela inflamação no hipocampo, por mais intensa que ela seja. Não foi por outro motivo, portanto, que interrompi bruscamente o Capítulo 1.


Minhas anotações no livro-diário permitiram-me chegar a esta decisão insofismável.


Fato: estava faminto, maluco por devorar um saco tamanho família de Doritos que lambuzariam minhas mãos e meu rosto de óleo, sal e corante vermelho.


Ponderação: não se deve jamais fazer compras no supermercado ou iniciar um romance de estômago vazio.


Motivo? Fatalmente se não tiver Doritos, você acabará comprando Chitos, Baconzitos, Gorduritos, Fandangos e outros petiscos à base de corante e cheiro de ranço que suprirão 100% de suas necessidades anuais de sódio mas que não contribuirão em nada para conferir um caráter de dignidade à abertura de seu romance.


Risco possível? Nonada. Sei de gente que por um bom tempo hesitou se devia abrir suas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o seu nascimento ou a sua morte. E até mesmo esses vacilões acabaram ficando conhecidos no meio literário.

Contabilizando tudo, cheguei à conclusão de que seria uma estupidez conferir as honras da abertura de meu livro a alguma figura desprezível à qual associo sempre alguma sensação de desconforto ou ânsia de vômito. Caso do Dr. Décio Linhares. Ou da calçada em frente ao Bariloche. Muito diferente, por exemplo, de começar com um erudito diálogo com Adriana no Calendas Bar, quando ela já havia pedido exoneração do Serviço de Esgoto.

É claro que hipocampos inflamados sempre hão de encontrar justificativas racionais.


Por exemplo, você sustentará que estava simplesmente respeitando a ordem cronológica dos fatos e facilitando a compreensão da trama para seu seleto grupo de leitoras.


A justificação é frágil: quem foi que disse que a minha vida começou no primeiro dia de trabalho no Setor de Dívidas do Serviço de Esgoto e não, digamos, quando iniciei a minha vida profissional como contador na Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias? Ou antes mesmo, no dia em que os veteranos vieram dar o trote nos calouros da Faculdade de Administração de Empresas, Ciências Atuariais e Secretariado de Tijuco Verde, colocando coleiras em nossos pescoços e nos obrigando a pedir esmolas na rua? Ou naquela noite friorenta em que o filhote de bicho-preguiça veio me pedir proteção (havia escapado dos incêndios criminosos no pantanal) e que eu acolhi de braços abertos, mais para me aquecer do que por compaixão, já que o frio era tanto que minhas bolas haviam se recolhido para a altura dos rins.


Com toda sinceridade, se fosse por gosto, começaria meu romance no dia em que decidimos criar a banda Lá Bemol. Bongô, piano, violão, gaita e um gravador de fita cassete. Começar pelo primeiro dia de trabalho? Me lembrar de como tudo começou, das razões que me levaram a sair em busca do Mestre Amaro e do motivo pelo qual estou agora com a cara no chão? Não, isso é que não!


Por esse motivo, faço bem em destruir todo o primeiro capítulo do livro e tentar um recomeço, evitando o constrangimento de revelar publicamente que meu chefe me chamava de dromedário, que o Sr. Geraldo afugentava moscas invisíveis. apresentando a imagem crítica de um escritório de serviço público personalizado, decadente e desmotivado, como sagazmente destacou uma leitora atenta de minha obra.


Apagando aquela abertura, evito que as leitoras sejam induzidas em erro, levando-as a acreditar que estão diante de um romance sobre os meandros da burocracia, alguma coisa entre O Processo de Franz Kafka, O Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos, A Trégua de Mário Benedetti e as Recordações do Escrivão Isaías Caminha de Lima Barreto.


Sejamos realistas: ninguém está interessado em saber de velhas repartições públicas decadentes do Século XX, por mais relevante que seja preservar a saúde contábil do Serviço de Esgoto Municipal de Tijuco Verde, evitando que alguns malandros se locupletem, gozando das mordomias inerentes ao afastamento das águas servidas sem a contrapartida do pagamento das taxas pelos serviços prestados. Na verdade, isto aqui é um romance de amor – a história de minha paixão que, como todos já devem ter notado, não é pelas filhas de Labão, mas pelo saneamento de contas públicas.


E, assim, posso começar minha história muitos anos antes daquele primeiro dia de trabalho na SDSE. Na minha infância. No dia em que o Benedito Montana me convenceu que nada havia de errado em arrancar brucutus dos carros parados na rua para confeccionar anéis iguais àqueles utilizados pelo Erasmo Carlos nos programas da Jovem Guarda. Naturalmente, jamais usei esse tipo de anel nos meus dedos. A experiência serviu apenas como vestibular para o mundo do crime.


Nesses tempos de pequenos furtos e depredações, eu colecionava figurinhas do álbum Coisas Nossas com meu irmão César. Quando não tínhamos dinheiro para comprar figurinhas, colecionávamos santinhos, que eram muito mais baratos e estavam à venda na sacristia da Igreja do Gigante Azul. Ou então carteiras de cigarro que catava em pontos de ônibus e calçadas de botecos sempre que rumava até a próxima aldeia para me encontrar com o Mário, o Airton, a Teresa e o Ignácio.


Como podem ver, milhões de coisas aconteceram antes de minha aprovação naquele concurso público.


Mas qual seria a vantagem que obteria em expor ao público cada dia de minha vida? O que me levaria a erguer meu rosto deste chão imundo e iniciar um livro de memórias? Não que eu ache que minha vida tenha sido desinteressante ou por demais comum. Não foi. Não poderia ser.


Na verdade, nem faz sentido qualificar qualquer vida de “comum”. Cada pessoa segue sua própria trajetória e até mesmo quem nunca saiu de sua cidade natal pode contar muitas histórias sobre a sua infância, juventude, maturidade e velhice.


Li certa vez que o filósofo Emanuel Kant nunca deixou a cidade onde nasceu, Koenigsberg – hoje Kalingrado, um enclave russo em território polonês-lituano. Aposto que ele deve ter tido uma vida muito mais interessante do que a de 99% da humanidade, embora provavelmente asséptica, sem fungos nem vermes. Vale o mesmo para algumas pessoas que nunca saíram de Nova Zelândia, Sudão do Sul e Belize, cujos nomes exonero-me de revelar.


No que diz respeito especificamente ao meu livro, eu era fanático por Érico Veríssimo e queria escrever uma espécie de Olhai os lírios do campo com um toque de Sallinger, alguma coisa como Olhai os campos de centeio. Por muitas eras acalentei essa ideia, mas um dia, depois de terminar de ler A Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, concluí que as histórias absurdas que deitava no papel eram pura verborragia gestada por um hipocampo inflamado.


Claro que tudo tem seu lado positivo. O exercício da escrita pelo menos me deu desenvoltura na datilografia. Cheguei ao requinte de usar o mindinho esquerdo para as letras a, q e z, sem pensar nos movimentos dos dedos. A S D F G H J K L Ç A Q S W D E F R G T H Y J U K I LO Ç P A Z S X D C F V G B H N J M K , L. Ç ;


Ao substituir a máquina de escrever pelo computador, porém, já não pensava nem nos meus dedos nem nas frases que eram derramadas na tela. Quando ia ler o que havia escrito, aborrecia-me com as feias manifestações desta inflamação no hipocampo e me recusava a publicá-las. Passei a comer muito Doritos, a dormir só no alvorecer e acordar poucos momentos mais tarde, ficando exausto durante o dia.


Por um tempo aliviei essa ansiedade passeando pelo centro da cidade. Saía em busca de discos raros de vinil. Jamais irei me esquecer do Pierrô Lunar, de Arnold Schoemberg. Ou então d’O Primeiro Amor, trilha sonora da novela da Rede Globo. Mas também caçava livros. Num deles adquiri Drei Männer im Schnee, de Erik Kästner. Milionários estão na moda. Não sosseguei até encontrar um exemplar de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, à venda numa toalha estendida no chão de um estacionamento em Varsóvia.


Colecionar livros e LPs passou a ser a forma que eu encontrei para fazer meus dedos cessarem de digitar histórias idiotas produzidas por aquela inflamação. As compras resultavam em algo concreto: chegava em casa com um novo LP, podia molhá-lo na torneira e colocá-lo na vitrola. Já os meus escritos eram tagarelice mental sem objetivo. Fossem bons, não teria feito aquilo com o Caco, naquela madrugada de ventania em que o encontrei dormindo na rua.


Mas ninguém modifica seus hábitos. Aqui estou eu novamente querendo transformar em livro as lembranças das histórias que jamais concluí. Uma vozinha interior me empurra para a frente: “Depressa, Januário! A sua vida está no fim e você vai acabar não escrevendo seu livro e não gravando seu LP”.


Tenho certeza de que, se mantiver Décio Linhares e aquele pessoal da SDSE aparecendo logo no Capítulo 1 de meu romance, ficarei incomodado para sempre. Por outro lado, também sei que, se enveredar pela busca de uma abertura ideal, continuarei a errar sempre nas primeiras linhas de um eterno capítulo um, não terminando nunca meu projeto. Uma hora acabarei me cansando de reescrever a abertura de meu romance. A vida tem seu termo e meus projetos literários e musicais vêm sendo postergados desde a adolescência.


Farei assim: fica valendo mesmo aquela porcaria de capítulo um, mas manterei aquele final brusco, aquele tom equivocado e aquela ausência de suspense que motive as leitoras a aguardarem ansiosamente pelo próximo capítulo. No entanto, o romance começará por este capítulo 2. Quando for revisar os arquivos para remessa aos editores, preciso me lembrar disso: a página 1 é a 7. E o antigo capítulo 1 fica apenas como um obscuro registro paleográfico do processo de elaboração do romance. Meu conselho é que esqueçam o que escrevi até agora. Só fiz isso para fortalecer meus dedos com a datilografia. O romance começa a pegar mesmo agora, no capítulo três. Em Tijuco Verde.

Esqueçam o que escrevi até agora é o Capítulo 2 do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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