La Bemol

- GUILHERME PURVIN -


Links para os capítulos anteriores: Capítulo 1 - Capítulo 2


Eis-me aqui no capítulo três e ainda às voltas com o início do meu romance. Por que descartar o primeiro dia de um novo emprego se ele foi tão marcante para mim? Afinal, eu me libertava da férula da Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias S/C Ltda., onde eu era um tosco títere do murruga.


Reconheço, a SDSE foi um mergulho profundo em águas servidas de Tijuco Verde, mas tive a mão amiga de Adriana. Ela me contou que o cara que ocupou a minha mesa antes foi um certo Oséias, era estudante de Teologia.


— Ué, mas o meu cargo não é exclusivo para pessoas formadas em Contabilidade?


— Até o ano passado não era assim, Januário. Tinha prova de Contabilidade Prática no concurso, mas bastava estar no 2º ano de algum curso superior. Podia até ser de Música.


— Mas o tal de Oséias era estudante de Teologia.

— Era. Podia ser estudante de Teologia, Direito, Música, Engenharia, Medicina, Veterinária. Aliás, estou me lembrando que ele também era músico. Tinha uma banda de gospel, acho. Era meio parecido com você.


Parecido como? Simpático? Esbelto? Jovial? Otimista? Sensual? Adriana não sabia ainda que eu tinha a banda Lá Bemol. Não tive coragem de perguntar. Adriana fumava demais, tinha os dentes amarelos e o cabelo tinham cheiro de cinzeiro. Tirava o filtro e jogava no cinzeiro. Dizia que filtro é pra quem não gosta de fumaça e que, se não gostasse, não fumava. Lamentava que não comercializavam mais Continental sem filtro.


Do jeito que a estou descrevendo, podem pensar que ela fosse horrível. Não chegava a ser. Posso enumerar suas qualidades: olhos azuis, atenciosa comigo, me chamava para tomar café a cada 75 minutos. Por um momento eu tive a impressão equivocada de que ela estava interessada em mim. Não estava por um motivo muito simples: preferia mulheres. Adriana era kardecista. Acreditava firmemente na contabilidade celeste: na vida terrena, você tem um cartão de crédito sem teto, pode gastar quanto quiser. Se tiver saldo positivo depois da morte, beleza. Caso contrário, volta para cá para pagar o que ficou devendo.


Fiquei conhecendo a doutrina espírita logo nos primeiros dias de trabalho. Batíamos papo nos momentos do cafezinho. Contestei a contabilidade kardecista de Adriana pela falta de transparência. Quando você usa o cartão de crédito, a compra aparece discriminada: dia 14 de novembro, 180 reais - Sushi. Leio, reconheço a compra, não tenho como negar. Se não a reconhecesse, contestaria, pediria estorno, cancelaria meu cartão. Na contabilidade kardecista, no entanto, a conta chega sem discriminação, para pagamento na vida seguinte. Aí eles parcelam o débito, digamos, em 60 anos. Nos vinte primeiros, vão quebrar sua perna esquerda, seu pai vai morrer num acidente na descida da serra, você não vai perder a virgindade (ou vai perder com um cara escroto e nem vai gozar) e, como sobremesa, vai tomar muitos socos no nariz em briga de rua, sem conseguir revidar nenhum deles. Aí você pensa que o débito da outra encarnação está quitado e a vida boa vai começar. Só que não. O resto da vida correrá ladeira abaixo até chegar numa barraca de camping na calçada da avenida, você com uma camiseta rasgada da seleção brasileira em troca um prato de arroz com feijão frio no almoço e outro de lasanha azeda no jantar - cortesia da Federação das Indústrias de Tijuco Verde. E então você quer contestar essa conta. Afinal, o que foi que aconteceu de tão grave na vida anterior? Deus, terei eu matado meu irmão, eu que não sou seu guardião? Mas não lhe oferecem a fatura com a discriminação dos seus pecados da vida passada. Tremenda falta de transparência. No espiritismo não existe isso de direito do consumidor.


Talvez a mesa da repartição fosse mesmo reservada para os grandes músicos. Oséias com sua banda gospel, Januário com sua banda de rock. Lá no cantinho mais recôndito de meu coração, eu preservava o sonho de adolescência: aperfeiçoar meus conhecimentos musicais e me capacitar para a elaboração e o lançamento de meu próprio LP - da Banda Lá Bemol.


Quando meus pais e meu irmão não estavam em casa, eu aproveitava para chamar o Benedito Montana, um cara que conheci na rua. Ele era um radical. Nunca tomava banho, não porque fosse porco, ele simplesmente se recusava a compactuar com o sistema. Acreditava que, com o poder da mente, poderia permanecer por horas com a mão no fogo sem se queimar. Boa parte de sua fé advinha dos supositórios veterinários – nossa técnica mais em conta para inflamar o hipocampo.


(Alerta: a passagem que segue contém complexas referências de Teoria Musical. Infelizmente não posso eliminá-las, pois isso reduziria o brilho de minha narrativa, com grave prejuízo à continuidade do romance. Todavia, para que o texto não se torne hermético, vocês poderão enviar uma mensagem de WhatsApp ou Orkut para mim e a gente tenta agendar umas aulas introdutórias de violão e teclado.)


Voltando, Benedito Montana me disse que tinha uma gaita e que sabia tocar como o Neil Young e o Bob Dylan. Eu estava aprendendo violão, já sabia a sequência G / Em / Am / D7 e agora estava aprendendo a sequência E / A / B, a partir da qual as portas do mundo do rock, do blues e do baião estariam definitivamente abertas. O grande desafio, naturalmente, era a pestana: o indicador da mão direita pressionando seis cordas sem abafá-las não era moleza. Eu não tinha ainda aquela musculatura que só viria a adquirir com os exercícios continuados de datilografia necessários para ingressar no Setor de Dívida do Serviço de Esgoto de Tijuco Verde.


Ele com a gaita, eu com o violão – e a vida inteira à nossa frente. Nesses fins de semana, ficávamos gravando longas jam sessions, a lendária Banda Lá Bemol.


Uma confissão: não é verdade que tivéssemos grande apreço pelos acordes de lá bemol, fossem eles maiores ou menores, com ou sem sétima, como eu disse para a Adriana no dia em que estávamos falando sobre Carlos Drummond de Andrade no Calendas Bar e apareceu aquela loira com bandeira do Brasil que literalmente deixou a minha amiga fora de órbita. O nome da banda era apenas um jogo de palavras – Lá de Ladeira, Be de Benedito, Mo de Montana. O L final era de Liberdade. Ou LSD, não sei mais.


Aqueles encontros renderam umas dez fitas cassete de 90 minutos da Scotch, que eram as mais baratas. Ao final das gravações, ouvíamos as fitas e cheirávamos no lenço uns supositórios veterinários que o Benedito Montana sempre trazia com ele. O barato da droga era algo parecido com o que Anna Karênina deve ter sentido na última cena da estação de trem. Era como se uma resina houvesse bloqueado a respiração e, numa queda livre do alto das Cataratas do Iguaçu, submetidos a uma temperatura de trinta graus Celsius negativos nós recebêssemos ainda contínuas descargas elétricas de alta tensão na cabeça. Ao cessar o efeito, depois de cinco minutos que pareciam um século, o alívio era indescritível. As inalações veterinárias foram a causa da inflamação crônica de meu hipocampo, sequela que me incapacitou para o aprendizado do violão e para a criação de minhas próprias canções. Esta incapacidade, porém, jamais me impediu de projetar meus potenciais discos, com a escalação dos músicos participantes, o rol de canções, autores e o tempo de cada gravação - e era nisso que eu pensava ao experimentar o assento de minha cadeira na mesa que um dia foi do Oséias. Se um dia me curar dessa inflamação, quero gravar exatamente o que deixei esboçado num caderno dos tempos de estudante – o álbum “A Igreja do Gigante Azul”:


Lado 1

01 – As bactérias de Orion (J.Ladeira & B.Montana) – Duração: 12:15

02 – O ataque das aves (J.Ladeira & E.Clapton) – Duração: 6:30

03 – Porões da percepção (D.Gilmour & J.Ladeira) – Duração: 5:15


Lado 2

01 – Rock do besouro (J.Ladeira & G.Harrison) – Duração: 4:03

02 – Bebida estranha (J.Ladeira & D.Gilmour) – Duração: 10:19

03 –Os adoráveis sermões do Gigante Azul (J.Ladeira) – Duração: 3:58

04 – Revolta cósmica (J.Ladeira, B.Montana & R.Fripp) – Duração: 5:02


Banda La Bemol:

Januário Ladeira: Guitarra-base e vocais;

Benedito Montana: Gaita e vocais;

Edgar Scandurra: Guitarra-solo;

Arnaldo Dias Baptista: Órgão Hammond e piano;

Liminha: Contrabaixo;

Dinho: Bateria.


Participação especial de George Harrison, David Gilmour, Nat King Cole, Robert Fripp, Keith Emerson e Vangelis Papathanassiou. Eu sei, o George Harrison morreu de câncer em 2001 e parece que o Keith Emerson também já bateu as botas, mas por ora, porém, não tenho substitutos à altura. Quanto à faixa “Ataque das Aves”, estou na dúvida se concedo uma parceria ao Eric Clapton, principalmente depois do que ele andou falando aí sobre vacinas. Prefiro o Roger Waters, muito embora o Eric toque bem melhor. Terei que contornar ainda a saia justa com o David Gilmour, por conta da briga dos dois.


Infelizmente, não poderei resgatar as velhas composições. É que, depois de muitos remendos e regravações, tudo acabou indo pro lixo. E terei também que realizar algumas adaptações. Por exemplo, não será mais um disco de vinil com duas faces, muito menos uma fita cassete. A esta altura dos acontecimentos, não será nem mesmo um CD. Quem sabe um registro digital colocado no Spitfire ou Espatifei – não sei direito o nome.


Mas cada coisa a seu tempo. Primeiro preciso decidir como vou iniciar esta história. Admito que seria mais fácil voltar ao antigo capítulo um, falar do SDSE, da Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias, da madrugada de ventania, do Caco em meio aos outros mendigos dormindo lá na marquise, do Presidente da República. Isto se o sol ainda estiver sustenido sobre meu coco (nota de erudição musical: bemol ladeira abaixo enquanto o astro-rei sustenta-se no no céu).


PS: Não se esqueçam, leitoras, se quiserem compreender melhor o que significa G / Em / Am / D7, vocês sabem onde me procurar. Não é possível que essa fatura kardecista continue tão alta. Quero o estorno ainda nesta vida.


La Bemol é o Capítulo 3 do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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