Res Derelicta

- Guilherme Purvin


Cenas dos capítulos anteriores: [ Cap. 1 ] - [ Cap. 2 ] - [ Cap. 3 ]


Está decidido. Vou mesmo começar o romance pelo capítulo um. Afinal, nunca me voltaria a me sentir tão autoconfiante como naqueles primeiros dias, subordinado ao Dr. Décio Linhares das listas telefônicas, protegido pela Adriana dos carpetes rasgados, enriquecendo o vocabulário com o Sr. Geraldo afugentador de moscas, tomando lições jurídicas do sempre ocupado Almir e, acima de tudo, abençoado pelo Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata.


Essa seria doravante a minha nova família, o meu círculo de amizades, o meu time, o meu partido político, a minha facção, a minha ONG, o meu mundo, a minha igreja. O Setor de Dívida do Serviço de Esgoto me oferecia um salário 50% menos aviltante do que o do emprego anterior na Organização Duas Pátrias. Um emprego conquistado graças aos meus esforços pessoais, ao meu mérito. Havia sido aprovado num concurso público municipal ao qual se inscreveram mais de 40 pessoas para um único cargo de contador. Gabaritei em língua portuguesa (o que era de se esperar, já que trazia toda a experiência profissional adquirida com a clientela açoriana do escritório do Sr. Cabral), datilografia e contabilidade. Errei uma questão de matemática sobre conversão de número hexadecimal para a base 10. E, em Fundamentos de Biologia, não sabia o que era fauna sinantrópica (lacuna vergonhosa que corrigi integralmente: hoje podem me perguntar qualquer coisa sobre essa instigante faceta dos estudos de zoologia) e simplesmente deu um branco na questão sobre a fase da telófase na mitose. Enfim, acertei 27 de um total de 30 questões. Para se ter uma ideia, o 2º colocado acertou apenas 21...


Deixar o Sr. Cabral e passar a obedecer o Dr. Décio, para usar a linguagem da geração de dedos enfraquecidos por teclados de computador, constituiu, sem dúvida, um upgrade que me permitiria formar uma coleção de discos decente, não mais apenas pontas de estoque. Um dia, quem sabe, até teria condições de comprar um carro para passear com a filha mais velha de Labão pelas cidades próximas a Tijuco Verde: Chaluá, Roseiral de Luxemburgo, Ozimândia, Flumenilitópolis, Nova Breslávia.


No almoço do próximo sábado, quando toda família estivesse reunida — papai, mamãe, meu irmão César, a cunhada desquitada e os três sobrinhos gêmeos —, eu faria uma longa digressão sobre minha ascensão profissional.


Mas ainda era terça feira, segundo dia de trabalho. Acordei antes das seis da manhã, extremamente bem disposto. Após um banho rápido, coloquei o terno de trabalho e fui direto para a Padaria Santa Cecília, que ficava ao lado da casa dos meus pais, tomar um copo americano de café de coador. Eles ainda estavam dormindo quando saí. De pé diante do balcão da padaria, eu olhava para o relógio do bar e acendia um cigarro na bituca do outro, ansioso para que chegasse logo a hora de ir ao trabalho.


— Tá nervoso com o quê, Januário?


— Com nada, Melquíades. Só não quero chegar atrasado no meu novo emprego.


— Pega a que horas?


— Nove.


— Controla essa ansiedade. Ainda faltam mais de duas horas e meia.


Melquíades Belafonte era o balconista da Padaria Santa Cecília. Eu o conhecia desde nenê. Teve época em que meu pai ficou desconfiado de que ele tinha um caso com minha mãe e o esfaqueou no pescoço num dia em que chegou mais cedo em casa e o encontrou sozinho com minha mãe. Eu e o César estávamos ainda na escola. Melquíades ficou vários dias no vai-não-vai. Chegou a ser considerado morto, mas depois de alguns minutos ressuscitou. Depois ele e meu pai acabaram ficando amigos e ele se tornou quase um tio adotivo meu e do César.


Pedi mais um copo americano de café. Aí entrou na padaria Joaninha, a filha de Melquíades. Estava indo sozinha para a escola e vinha apanhar o sanduíche para o recreio. Era incrível ver como havia crescido, eu podia me lembrar do tempo em que ela ainda não havia largado a chupeta.


— Bom dia, Joaninha — eu disse. — Como está indo na escola?


A menina não me respondeu. Não deve ter ouvido. Acabei o café e decidi ir para o SDSE a pé. Não levaria nem uma hora de caminhada e seria uma forma de economizar o dinheiro do ônibus e reduzir a ansiedade.

No caminho, eu tinha inevitavelmente que passar diante da Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias, que ficava na esquina da Rua Viana do Castelo com a Avenida Coimbra, na área comercial da Vila Portuguesa.


Não eram nem sete horas da manhã e o trânsito já estava congestionado, tudo por conta de algumas chapas amassadas de metal e de pilhas de papel que haviam sido abandonados numa das pistas da Avenida Coimbra. Minha atenção logo se voltou para os papéis, na verdade um amontoado de livros. Agachei-me na calçada e comecei a analisar os volumes disponíveis. Seu estado de conservação era precário, páginas manchadas de umidade, ácaros na lombada encardida, perfurações de caruncho atravessando o miolo, da capa à contracapa. Mas havia ali Os Ratos de Dyonélio Machado, A Peste de Alberto Camus, Decameron de Bocaccio... No momento em que comecei a caçar meu tesouro, apareceu um rapaz atrás de mim.


— Tio, essas chapas de ferro velho são suas?


— Por que a pergunta? — respondi asperamente, irritado com a informalidade no tratamento. — São res derelicta.


— Você vai querer elas?


— Só quero os livros, mas não sei como levá-los para casa. Estou a pé e tenho que ir para o trabalho.


— Se você quiser, posso levar no meu caminhão e depois você pega eles comigo.


Ergui os olhos. O rapaz deveria ser uns cinco anos mais novo do que eu, de modo que, numa reavaliação, reconsiderei o grau de minha revolta com sua impertinência. Tratar-me por “tio”, nesse caso, era mais grave do que inicialmente supusera - dois pontos negativos na avaliação contábil. Por outro lado, ele estava inequivocamente tentando ser gentil. Seria estupidez discutir por conta do “tio” e de sua inabilidade no uso de pronomes oblíquos e perder a chance de ter os livros para mim. Dois pontos positivos e estávamos zerados.


— Quero sim, se não for incômodo. Não vou ter tempo de recolher isso tudo e levar para minha casa. O que você pretende fazer com essas chapas? São estantes de livros amassadas.


— São úteis para meu projeto —explicou o sujeito, sorrindo, erguendo a mão para que eu desse um tapa nela, num desses cumprimentos juvenis que sempre considerei constrangedores: — Prazer. Sou o Biriba. E você?


— Prazer, Januário Ladeira, cientista atuarial — repliquei, estendendo a mão formalmente, como devem fazer dois adultos ocidentais.


Começamos a colocar todo o material abandonado na caçamba de seu caminhão, um bem conservado Ford F-100 vermelho da década de 1960. Foi quando alguém gritou do outro lado da avenida.


— Ó Januário, é o senhor mesmo em meio ao entulho? Está tudo bem consigo?


Era o meu ex-patrão português. Como não atentei para isso? O encontro era previsível. Eu estava a menos de um quarteirão do escritório onde zelei por três anos pelos interesses contábeis da comunidade açoriana. A visão daquele homem trazia à tona lembranças desagradáveis. Quantas fraudes trabalhistas cometidas pelo bem da clientela do Sr. Cabral! A menor delas cobriria a reposição de todos os brucutus que Benedito Montana e eu colhemos dos para-brisas de carros estacionados nas ruas da Vila Portuguesa. Verdade. Acumulavam-se máculas ao longo de minha trajetória e eu, que carregara aquele fardo de culpa gigantesco até então, estava decidido a nunca mais enveredar pelo mundo do crime. O Setor de Dívidas do Serviço de Esgoto era o marco divisório de minha vida. Aquele homem era o guardião da fronteira que eu havia superado.


— Bom dia, Sr. Cabral. Tudo tranquilo — respondi laconicamente.


O português atravessou a rua e veio ao nosso encontro. Cumprimentou o Biriba com um tapinha no ombro e, puxando-me de lado, sussurrou:


— Por que estás a recolher lixo da rua? Isso não cai bem a pessoa tão diplomada!


— Não é lixo — expliquei, rindo da ignorância do ex-patrão. — São preciosidades. Quem os deitou fora não devia ter noção de sua qualidade literária. Veja só esta edição d’A Ratazana de Günter Grass. E este, Seminário dos Ratos, são contos da Lygia Fagundes Telles. Apesar de seu estado relativamente precário, são livros que sempre quis ter em minha estante!


O Sr. Cabral, com uma sincera expressão de desconsolo, dirigiu-se ao caminhoneiro:


— Biriba, não incentive esse tipo de coisas. Este jovem é um cientista com um futuro promissor. Com que então os dois se conheciam! Mas quem no bairro não conheceria o Sr. Cabral?


— Ah, seu Cabral, cada um sabe da sua vida.


— Vocês são amigos, convença esse sujeito — insistiu o português. Biriba explicou que estávamos nos conhecendo agora e que eu deveria saber do valor dos livros melhor do que eles. Gostei da resposta e resolvi interagir.


— Como é que vocês se conhecem?


— Quem não conhece o Sr. Cabral? — perguntou Biriba, risonho. — Ele está sempre pechinchando lá na oficina.


— A elite em nosso bairro é uma casquinha de noz! E dinheiro não dá em árvores. Para desamassar um para-lama, esse rapaz aí queria cobrar o preço de um novo — respondeu o Sr. Cabral.


Biriba não deve ter gostado muito do comentário do morruga, mordeu a ponta do cigarro no canto da boca, encolheu os ombros e continuou a colocar as chapas de metal em seu caminhão, fazendo que não tinha ouvido o comentário.


Voltando-se para mim, o Sr. Cabral perguntou:


— E os seus pais, doutor?


— Que têm eles?


— Eles vão deixar que esses livros imundos entrem em sua casa?


A pergunta teve o condão de alterar a minha bonomia. Com o rosto afogueado, baixei a voz em três semitons (de F para D - lembrem-se, contratando-me para suas aulas particulares de música, vocês aprenderão também a realizar transposições de tons e a entender o que acabei de falar):


— No dia em que meus pais opuserem algum obstáculo a que eu amplie a minha biblioteca, eu me mudo imediatamente. Não tenha dúvida.


— Mude-se não, doutor. Que bobagem... Trocar a família por entulho! Ademais, onde pensa que iria morar?


— Meu novo emprego, Sr. Cabral, garante o meu sustento — repliquei, dando uma indireta sobre o salário de fome que aquele português, que nunca acreditou em meu potencial, me pagava à época em que me encontrava sob o seu jugo. Jovem cientista com um futuro promissor... Pois sim!


Como era previsível, ele não vestiu a carapuça e prosseguiu desfiando conceitos rudes, incapaz de distinguir resíduo sólido de Literatura. A conversa foi se estendendo mais do que o esperado e, quando olhei para o relógio, já eram oito horas. Biriba anotou numa folha de papel o seu endereço e telefone:


— Passe lá quando tiver tempo. Os seus livros não ocupam muito espaço na minha oficina — disse ele, com um sorriso que me pareceu a um só tempo sincero e assustador.


Despedi-me dos dois e caminhei apressadamente para o SDSE, refletindo sobre as lembranças do dia anterior. Teria o Dr. Décio Linhares feito mesmo aquela piada ríspida e pueril sobre o dromedário ou eu havia imaginado aquilo? Perguntara de fato se eu via uma cárie em seu dente? Até a minha resposta parecia inverossímil (De forma alguma, Dr. Linhares. É que sou jejuno em odontologia).


Passados tantos anos, ainda que minha memória insista nessa versão, não acredito na fidelidade daquele diálogo, penso que se trata de mais uma peça pregada pelo hipocampo inflamado e, se descrevo a cena de meu primeiro dia no novo emprego daquela forma, é apenas pela incapacidade de imaginar como teria sido a realidade na REALIDADE. É isso que ainda me deixa inseguro sobre o capítulo um do meu romance.

Res Derelicta é o Capítulo 4 do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.


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