Contumélia em família

Atualizado: 8 de jan.

- Guilherme Purvin -



O que é abstrato e o que é concreto em nossa vida? Aprendi no colégio que concreto é aquilo que tem existência própria, independente de outras coisas. Abstrato, por sua vez, é aquilo que é separado à força: não existiria independentemente daquilo de que se destacou.


Meus sentimentos enquanto eu ouvia, há quase quarente anos, o disco do Eric Clapton seriam algo abstrato ou concreto? Eu havia comprado o LP numa liquidação na hora do almoço. Quem me deu a dica foi o Dr. Décio Linhares, apaixonado por música “semi-clássica”:


— Veja só o que encontrei lá, Januário. Nada menos do que este LP do Waldo de los Ríos. Foi com ele que aprendi a gostar da Sinfonia 40 de Mozart com arranjo de bateria, guitarra e contrabaixo. Detalhe: por um quinto do preço de um LP comum!


Desci para a Avenida Pero Vaz de Caminha em direção da loja. Os alto-falantes tocavam uma espécie de guarânia que falava de um menino de dez anos que brincava de esconder com a sua Joaninha. Um dia o menino a esperava para brincar, mas então surgem vários adultos que colocam o corpo dela num caixão branco e lhe dizem que ela ia se esconder. Passam-se muitos anos de procura inútil, e só quando cresce é que ele entende que ela virou uma estrela no céu.


Eu era obrigado a abstrair, isto é, separar à força aquela música sertaneja de meus ouvidos e me concentrar na garimpagem de possíveis tesouros discográficos concretos. Foi quando encontrei aquele álbum, no qual Clapton aparece sentado numa cadeira, um cigarro na mão direita e a guitarra de pé, encostada na perna. Do lado esquerdo dele, uns tapetes vermelhos e alaranjados enrolados e duas maçãs que aparentemente estavam ali apenas para contrastar com o restante da foto preponderantemente branca. No entanto, eu me perguntava: e se as maçãs forem uma alusão ao George Harrison? Levei o disco, ainda mais barato do que o Waldo do Dr. Linhares. Para qualquer cientista atuarial aquela oferta tinha uma razão óbvia: ocupar o espaço que poderia ser do João Paulo & Daniel ou da Turma do Balão Mágico, não era nada lucrativo para os donos da loja.


Agora eu ouvia o disco com headphones e procurava extrair dos dados constantes na capa os seus segredos. Ele havia sido lançado nos Estados Unidos há muito tempo. Eu buscava a concretude, unindo novamente tudo o que havia sido separado à força. Um disco não é a música que ouço apenas. É produto de um momento histórico. Eu jamais teria comprado aquele LP no ano de seu lançamento. Nessa época eu estaria inebriado pelo tricampeonato, agitando a bandeira do Brasil na rua e colando orgulhoso o adesivo “Brasil: Ame-o ou deixe-o” na janela traseira do carro de meu pai, transportando Joaninha na jangada em troca de picles e suspiros da padaria que também estava totalmente inundada. E mesmo se não houvesse inundação na Rua Paulo Borges e o Brasil tivesse perdido para a Itália na decisão, eu não teria dinheiro para comprar um disco importado. Ele veio a mim porque jazia nas prateleiras de uma loja popular da Avenida Pero Vaz de Caminha, próxima ao prédio do Serviço de Esgoto, impregnado de poeira cinzenta.


* * *


A chegada de César com sua família arrancou-me de meu processo introspectivo. Entrou com aquela família barulhenta e cabisbaixa trazendo uma novidade totalmente inesperada: um computador MSX.


Preciso, porém, explicar por que aquela família prepotente estava cabisbaixa: Fazia um tempo que a prefeitura tinha elevado em mais de um metro o nível das ruas – o projeto “Veneza Nunca Mais”, criado pelos engenheiros civis da Faculdade de Engenharia Nova Breslávia, a mesma onde Joaninha estudava Engenharia Ferroviária. A ideia era bastante simples: com as ruas mais altas, a água não atingiria as casas e os carros poderiam circular livremente em dias de chuva. É certo que alguns detalhes foram esquecidos. Por exemplo, a lei dos vasos comunicantes. As casas, obviamente, não haviam sido elevadas juntamente com a rua e as calçadas. Para quem passava pela Rua da Pomada, da Lama e pela Paulo Borges, a impressão que dava é que elas haviam sido erguidas sobre areia movediça e agora afundavam. Como fazer com que a água dos canos de esgoto que correm nas ruas não revertessem para os ralos das casas? Nas primeiras semanas, a solução foi colocar uma escadinha de madeira para que as pessoas descessem para a sala, já que nenhuma casa tinha quintal na frente, todas as portas davam diretamente para a calçada. Mas, na primeira chuvarada de verão, entrou em vigor a implacável lei dos vasos comunicantes. As águas que antes cobriam a rua entraram nas casas e não foram embora pelos ralos. No dia seguinte, o sol brilhando, as calçadas sequinhas e todos os moradores num trabalho insano de jogar a água na rua com baldes. Chamados os engenheiros civis de Nova Breslávia, todos foram unânimes: bastava que nos adequássemos à nova realidade geofísica, elevando o chão das casas até o nível da rua. Isso explica a família cabisbaixa. Não era por timidez ou humildade. Aquela mulher com quem César havia se casado e os três filhos que ela trouxe a tiracolo eram muito altos e o pé direito de todos os imóveis agora não ultrapassava 1m70. Os moradores da margem esquerda do Córrego da Ratazana imediatamente passaram a chamar nossa região de Ilha dos Gnomos. Por um tempo tive raiva e vergonha de minha situação. Minha mãe, percebendo que eu estava atormentado, qual a Sra. Mary, sua amiga que vivia em Liverpool, veio a mim dizendo palavras sábias: “Deixa estar, meu filho. Nossas casas são baixinhas, mas agora a água das inundações vai para o outro lado da linha da miséria.

um simples comando e, magicamente, teríamos o livro Brigitte Omphalus e seus dois maridos

Eu não tinha muita noção do que era um computador, menos ainda do que significavam as letras MSX. Lembrava-me apenas de uma reportagem na TV, já não sei se era com o Jorge Amado ou com o Márcio Souza, em que o escritor mostrava as maravilhas do que chamavam de “editor de texto”: se Jorge Amado mudasse de ideia e resolvesse mudar o nome de uma personagem, bastava dar um simples comando e, magicamente, teríamos o livro Brigitte Omphalus e seus dois maridos. É apenas um exemplo, Brigitte nunca se casou para não ter o trabalho de justificar a poliandria, mas isto é uma outra história que mereceria outro romance. Até então, para mim, aquilo seria uma máquina de escrever elétrica mais sofisticada, com fita corretiva inteligente e um recurso de inserção de palavras no lugar apagado. Ledo Ivo engano, era algo muito mais divertido. Imediatamente pressenti que agora as atenções se voltariam para aquela maldita novidade. Ninguém daria a mínima para a narrativa que eu planejara para aquele sábado, contar com riqueza de detalhes a minha primeira semana no novo emprego e descrever o Sr. Geraldo, a Adriana, o Almir, o Dr. Linhares.


Em meio àquela agitação patológica, Huguinho, Zezinho e Luizinho correram para acordar minha mãe e falar do tal computador. Os idiotas chamavam indevidamente a minha mãe de “vovó”, mas ela parecia não se incomodar. Até meu pai parou de picar a salsa, a cebola e o tomate do molho-vinagrete para conhecer aquela engenhoca de ficção científica.


Talvez a Faculdade de Engenharia de Nova Breslávia introduzisse um curso de Engenharia Genética.

Não conseguia mais ouvir o disco de Eric Clapton. Aborrecido, fui ao quintal inspecionar os feijões que havia plantado numas latinhas sobre a lixeira. Eu me perguntava por que motivo alguns cresciam vigorosos enquanto outros definhavam. Jesus afirmava que não é boa a árvore que não dá bons frutos, mas feijões não nasciam em árvore. Na verdade, feijões sequer são frutos, desconfio que os frutos sejam as vagens. Ficaria por horas diante daquelas latinhas refletindo sobre a relação entre o ensinamento antiecológico de Jesus e as doutrinas ultradireitistas de eugenia. Pensei nas experiências de Mendel com cruzamento de ervilhas e no filme Blade Runner, de Ridley Scott. Talvez, em breve, a Faculdade de Engenharia de Nova Breslávia introduzisse um novo curso, de Engenharia Genética. Logo corrigi o rumo de meus pensamentos: aquilo era inflamação no hipocampo.


Temo que um interlúdio para falar desse meu hobby hortifrutigranjeiro acabará deslocando as atenções para a narrativa principal. Ademais, na Igreja do Gigante Azul, Jesus não apita nada.


Quando voltei para a sala, Eric Clapton já não tocava mais. César havia desligado a vitrola e instalava a parafernália. O computador não tinha uma tela e precisava ser ligado a um cabo que se conectava com a parte de trás da televisão de tubo. Um outro fio ia para um gravador de fita cassete e serviria para o registro dos dados dos programas.


— Dá até para jogar xadrez com o computador! — dizia meu irmão com entusiasmo, enquanto os patinhos gritavam para que ele ligasse um joguinho sobre um pinguim patinador que precisava desviar-se dos buracos no gelo e que adquiria superpoderes transitórios ao comer um peixe.


Depois de uma hora desse joguinho, o grupo infantil começou a se dispersar. Só César continuava concentrado no MSX. Minha cunhada foi ler uma revista de fofocas e mamãe resolveu montar o autorama no tapete da sala. Perguntei ao César se ele podia me dar uma carona para retirar os livros na casa do caminhoneiro, mas ele não arredou o pé dali até carregar um programa que transformava o teclado num sintetizador de som.

Sozinho, eu poderia gravar do jeito que sempre havia sonhado a ópera-rock A Igreja do Gigante Azul

— Veja só isso, Januário. Você vai gostar — e começou a apertar as teclas do computador. Para o meu espanto e fascínio, de repente, do alto-falante da televisão começou a sair um som que lembrava a passagem viajante de Close to the Edge, do Yes. Eu não acreditava no que podia um simples computador: aquele era o futuro da extinta Banda Lá Bemol, seríamos sucessores do Kraftwerk e do Pink Floyd! Aliás, para que ressuscitar aquela banda medíocre? Sozinho, em meu quarto, eu poderia gravar do jeito que sempre havia sonhado, integralmente, a ópera-rock A Igreja do Gigante Azul, sem ter que procurar o inútil Benedito Montana que, nessa época, já estava fora do meu círculo, envolvido num plano extra-sistema de obtenção instantânea de dinheiro de transeuntes distraídos. Eu podia modificar os timbres, aquilo era quase Keith Emerson, quase Rick Wakeman, quase Vangelis. Tudo o que eu precisava era aprender a apertar as teclas certas. E eu era bom em datilografia, teclava as letras a, q e z corretamente, com o mindinho esquerdo.


Papai me chamou para ajudar a picar a couve do almoço, mas eu não teria conseguido largar o computador naquele dia se um dos sobrinhos não tivesse esbarrado na tomada e apagado o programa do computador que havia levado uma hora para carregar. Aborrecido, gritei:


— Tinha que ser o Huguinho!


A mãe do menino protestou:


— Diga-me uma coisa, Januário, o que há de errado no nome Hélio? É tão difícil pronunciá-lo? E Zélio? E Lélio?


— O erro não está nos nomes isolados, está no conjunto da obra — eu explicava didaticamente à cunhada, que mentalmente eu chamava de Margarida, a namorada do Pato Donald. Era ela, Célia ou Ofélia, a responsável por essa aliteração cacofônica. Talvez Amélia.


— Meus filhos não são patinhos e já pedi mil vezes para não colocar esses apelidos neles. Todos eles têm nomes mais bonitos do que o seu, Januário.


— Não liga pra isso, Amélia. Meu irmão sempre teve um humor muito peculiar, eu já lhe expliquei — disse César, tentando apaziguar os ânimos, mas de uma forma meio dúbia. O que ele queria dizer com “humor muito peculiar”? Ou com “eu já lhe expliquei”? Aquelas eram frases típicas de quem costuma falar mal da gente pelas costas. Entendem agora por que não gosto de meu irmão?


Minha técnica mnemônica, porém, era perfeita. Reservei o H de Huguinho para o Hélio, o Z de Zezinho para o Zélio e o L de Luizinho para o Lélio. Se um deles se chamasse Adélio ou Nélio, a coisa não daria certo.


N.do A.: Tem alguém lendo os capítulos deste romance desde o começo, além do Rui? Imagino que sim, porque o número de acessos, embora pequeno, é maior do que meu número de amigos. Se sim, escreva para gpurvin@gmail.com ou deixe comentários ao final deste nono capítulo! Os leitores ganharão de presente personagens honrados, com seus próprios nomes, em situações relativamente heróicas e dignificantes!

Contumélia em família é o Capítulo 9 do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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