Construção de uma narrativa

- Guilherme Purvin -


N. do A.: Atendendo a dezenas de pedidos dos seguidores da série "A Igreja do Gigante Azul", em breve o nome da Adriana vai mudar para Andréa. No entanto, a personagem continuará sendo a mesma.



É natural que, eu não me lembre de tudo o que se passou na primeira semana de trabalho sob o jugo do Dr. Linhares. Vou ordenando cenas e reflexões envolvendo helmintos e bactérias, Dionélio Machado e Lygia Fagundes Telles, colar de clips e café na garrafa térmica, jangadas e picles, computadores e feijões, tapetes vermelhos e carpetes rasgados, buscando dar a esse emaranhado caleidoscópico um mínimo de coerência, se não lógica, ao menos literária. Não saberia escrever um diário com quarenta anos de atraso e não sei se um livro de memórias comportaria estas reflexões metalinguísticas.


Vou perguntar à Adriana se não seria melhor abandonar o título provisório, A Igreja do Gigante Azul, e passar a chamá-lo de Livro do Desassossego. Mas posso dizer que esta agitação cerebral tão agradável seja um simples desassossego? Pode um desassossego pessoal ser considerado algo agradável, quase extasiante? Porque pela primeira vez consigo fugir da cidade abstrata em que sempre vivi e sentir o concreto de Tijuco Verde em meu rosto. A totalidade real, a unidade, os aluminatos hidratados, etringitas em forma de agulhas formando elos entre as partículas do que vivi, cascalho e areia, a areia entre fragmentos de embalagens plásticas e camisinhas usadas, bactérias e insetos, baratas e formigas lambendo os resíduos orgânicos da cidadania exercida com denodo, moscas metálicas, azuis e verdes, paradas como beija-flores da putrefação, enquanto um riacho de excrescências corre do meio-fio da calçada rumo às tubulações de esgoto, artérias e veias que quis proteger a partir de minha perspectiva científica. Atuarial. Na aspereza deste concreto, sou o meu próprio deus. E sendo eu o juiz de minha própria existência, posso ceder parte dela à reflexão sobre outro deus – The God – Eric Clapton, condenando às profundezas infernais Adélia, Amélia ou Clélia e seus três filhos que esbarraram no fio da tomada e destruíram o meu sonho de gravação de minha ópera-rock?

Posso jurar que, na primeira vez em que falei de Adriana para meu irmão, eu a tenha depreciado

Se existisse uma versão definitiva do passado, eu não poderia assegurar que foi naquela manhã de sábado que eu ouvia o álbum-solo de estreia do guitarrista, nem mesmo garantir que o MSX tenha aparecido naquele mesmo dia em que meditava sobre a hibridez e a pureza, a sinfonia e o cantochão, a elite dominante e a população recessiva, com a certeza de que o Gigante Azul odiava uniformes militares e tinha uma evidente preferência pelos ecossistemas. A sua cor azul, contudo, haveria de ter muito mais do que cinquenta tons, pois se os olhos do Dr. Linhares eram ordinariamente arianos, mais belos eram os da vira-lata Adriana. Tupi and not Tupi. Certeza mesmo só tenho de que meus pais, por um certo tempo (o tempo em que a cabeça do César parecia estar no lugar), reuniam a família aos sábados. E mais, que nesses sábados, os enteados de meu irmão faziam tamanha algazarra que eu fiquei impossibilitado de monopolizar a conversa. É plausível a hipótese de que, após o apagamento do programa do sintetizador de som, eu tenha convencido César a me levar de carro para ir buscar os meus livros derrelitos na casa do Biriba. A caminho da Travessa Monsaraz, uma ruela quase invisível lá no final da Rua Viana do Castelo, devo ter contado ao meu irmão tudo o que se passou depois que o Dr. Linhares relevou meu atraso. Posso jurar que, na primeira vez em que falei de Adriana para ele, eu a tenha depreciado, realçando a feiura de seus dentes amarelos de nicotina e de sua pele maltratada, ridicularizando-a por seus conselhos para não tropeçar nos carpetes rasgados, criticando-a por matar o tempo de trabalho tomando um café azedo da garrafa térmica que ficava ao lado do relógio de ponto. É possível, enfim, que, em contrapartida, eu tenha pintado o Dr. Linhares com tintas de um grande sujeito, um chefe equilibrado e cordato, disposto a me mostrar o caminho para uma rápida ascensão funcional no setor. Eu acabara de conhecê-los e nunca pensei que a Adriana viria a ser minha amiga um dia. No concreto deste instante, a visão que tenho daqueles tempos é duplamente distorcida: pela memória de fatos distantes e pelo que hoje sinto por eles. Digamos que eu tenha dito a César que o Dr. Linhares estava satisfeito com a minha pontualidade (o que seria uma rematada mentira) e que me incumbiu das tarefas antes delegadas para o Sr. Almir por ver em mim alguém altamente gabaritado. Digamos mais algumas coisas, mas já não com o verbo no modo condicional. Não tão indecentes como a infame desculpa da casa em ruínas. Mas, no limite, ainda indecentes. Seria assim a minha narrativa para meu irmão:


O Sr. Almir, esbaforido, correu para a mesa do chefe e, tentando justificar-se, disse que só havia recebido o serviço na semana anterior, que ainda não tinha tido tempo de terminar, que eram mais de cinquenta cartas. Nesse momento, ele ouviu um sermão do Dr. Linhares, porque não é carta que se diz, é ofício. Um diretor, um superintendente, um secretário de estado não assina cartas, assina ofícios. Aí o Dr. Linhares perguntou quantos ofícios faltavam e o Sr. Almir começou a tergiversar, disse que ainda estava planejando o melhor esquema para poder depois datilografar tudo de uma vez só, que até a próxima semana terminaria a tarefa e que o Dr. Linhares podia ficar tranquilo.


— Eu estou tranquilo, Sr. Almir. Mas quero que o senhor repasse o material para o Januário, nosso novo funcionário. Ensine a ele como se faz. Estão dispensados. Podem voltar às suas mesas.


— Obrigado, Dr. Linhares.


— E o senhor, Sr. Januário, veja lá, cuidado com esses atrasos. Da próxima vez, não vai haver casa em ruínas que me faça relevar e o senhor vai levar falta injustificada, vai sofrer desconto salarial.


Ao voltar para minha mesa, já me deparei com 54 cópias de cartas de cobrança que até então estavam sob a responsabilidade do Sr. Almir. Coloquei diante da máquina de escrever um colar com 54 clips e comecei a datilografar os 54 ofícios, adotando um determinado procedimento para não me aborrecer: a cada ofício datilografado, retirava um clipe do colar. Como o número 54 é múltiplo de nove, beberia seis copos de água, um copo a cada nove ofícios concluídos. A hidratação ajudaria a desinflamar o hipocampo. De tempos em tempos, poderia também me distrair com a imagem distorcida dos colegas de trabalho no reflexo da janela espelhada.


E assim, César, cheguei ao último clipe no momento em que todos se despediam. A repartição ficou vazia. Deixei todo o trabalho sobre a mesa do chefe e olhei para a lista telefônica afundada no assento da poltrona. O suor da bunda do Dr. Linhares amarelecera as páginas, mas não quis tirar nenhuma conclusão acerca dessa imagem. Limitei-me a bater o cartão de ponto e corri para o elevador. Já na rua, respirei fundo e contemplei um vendedor que atirava tarântulas de borracha pegajosa na parede de mármore polido de uma agência do Banco do Brasil que fica em frente do prédio da SDSE.

era fácil concluir que aquilo tudo não trazia nenhuma vantagem econômica para a municipalidade

Foi nesse momento que tive a ideia de revolucionar o sistema de cobrança dos serviços de esgoto. Preste bem atenção. As 54 cartas de cobrança haviam sido enviadas há mais de dois anos aos usuários inadimplentes dos serviços de esgoto, mas não tiveram qualquer resultado prático. Adriana havia dito em algum momento que esse procedimento só era eficaz em um por cento dos casos. Por isso, agora eu redigia ofícios, propondo a inscrição na dívida ativa. Contabilmente, computadas apenas as despesas com o correio, era fácil concluir que aquilo tudo não trazia nenhuma vantagem econômica para a municipalidade. Os valores cobrados eram sempre irrisórios e o mais provável era que as cartas tivessem sido extraviadas. Eu não concebia que alguém deixasse seu nome ser inscrito na dívida ativa por conta de um valor tão baixo.


A solução, César? A solução será visitar os devedores nos finais de semana, expor a situação e os riscos decorrentes da inadimplência. Se eu contar isso tudo à mamãe, ela certamente olhará para mim com admiração e soltará elogios imoderados. No entanto, o papai dirá: “Mas, filho, como você pretende abordar esses devedores desconhecidos? O que você ganharia trabalhando fora do horário de expediente e colocando sua vida em risco?”. Por isso, conto só a você.


César me levava em seu carro para eu apanhar os meus livros na casa do tal Biriba. Acho que ele apontou algum erro estratégico em meus planos e eu, aborrecido, em resposta às suas objeções, possivelmente comecei a discorrer sobre a germinação de meus feijões nas latinhas de molho de tomate. Desta vez, mamãe não poderia reclamar de eu haver plantado em seu vaso de antúrios. Isso foi tudo o que consegui dizer, num dia em que o assunto era o MSX. Um baita anticlímax.

N.do A.: Você, que chegou ao final do Capítulo 10 deste romance, gostaria que algum personagem ganhasse sozinho/a na loteria? Ou que caísse na boca de um vulcão em atividade e morresse dissolvido na lava incandescente? Ou então teria interesse em ingressar nesta história durante todo um capítulo, com seu nome completo? Diga o que gostaria de ler num próximo episódio. Escreva para gpurvin@gmail.com ou deixe comentários ao final do capítulo!

A Construção de uma Narrativa é o Capítulo 10 o romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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