Porta da Esperança

- Guilherme Purvin -



Abri os olhos, tentando entender onde estava. A princípio achei que havia sido vítima do golpe da “Boa noite, Cinderela”, que haviam me narcotizado e retirado um rim para venda em outra cidade. Apalpei o abdome. Como não notei nenhum corte, voltei a dormir. Depois comecei a sentir uma sede intensa, mas não tinha forças para me erguer e então desistia. Isso se repetiu várias vezes, até que um cara veio em minha direção. Era o Biriba. Comecei então a me recordar daquela madrugada, da briga em casa, do churrasco no Melquíades, da moça que não sabia quem era o Eric Clapton, do para-choques e da bebida. Achei que ele viesse ao menos me trazer um café, ovos com bacon, suco de laranja, um pote de salada de frutas, torradas com geleia de morango. Não trazia nada disso. Nem mesmo uma garrafa d’água. Sem jeito, ele começou a gaguejar que não conseguiu esconder da mãe a minha pernoite no sobrado. Tentou assumir a culpa, ele que havia me trazido, eu o ajudara a achar uma peça de automóvel, o sobrado estava mesmo vazio. Enfim, era o mínimo que ele podia fazer por mim. Não adiantou nada, dona Sara Queneau não tinha um mínimo de noção de hospitalidade. Estava mesmo era muito brava e disse que ele tinha que me fazer ir embora imediatamente.


— Porra, mal dormi e estou sendo expulso como um cachorro vadio? Eu vou ser locatário da Dona Sara e tenho direito de conhecer a casa onde vou morar! Quero ao menos tomar um café para acordar. Que horas são? — reclamei, irritado, com dor na cabeça, na palma da mão e no joelho, me sentindo imundo.


— Seis horas — respondeu ele, sem jeito.


— Podia ter esperado pelo menos até umas nove, né? Além disso, o que sua mãe acha que ia fazer na casa, roubar lâmpada? Nem isso tem aqui! Só poeira e mofo!


Levantei-me, zonzo, e olhei ao meu redor. Havia dormido num canto da sala de jantar, próximo à porta da cozinha.


— Diga a ela que pode fazer o contrato de locação com a data de hoje. Afinal, entramos aqui lá pelas três da madrugada. Tem alguma padaria por perto? Sem um pão com queijo frescal na chapa e uns dois copos de café, meu dia não começa.


— Ter, tem, Januário. Mas tem dois problemas. Primeiro, eu acho que nem vão deixar você entrar na padaria, vestido do jeito que você está, de calça rasgada, sujo de barro. Aqui, apesar do pãozinho ser muito pior, o padrão é diferente do da padaria do Melquíades. Só se pode entrar de roupa limpa e os preços são muito mais altos do que você deve estar acostumado a pagar.


Nessa hora me lembrei que estava sem nenhum dinheiro nem documento.


— Hum. E qual é o segundo problema, posso saber?


— É que minha mãe conversou ontem à noite com a Lia Rosenberg e ficou sabendo que você não é noivo da filha dela. Ela ficou tão irritada que disse: aquele safado, se quiser vir morar aqui, vai ter que pagar o conserto e a pintura da casa inteira e não vai ter nenhuma pechincha, vai ser preço de mercado.


— Eu já sabia! Isso é preconceito racial! Fico muito surpreso que, em pleno Século XX, sua mãe se recuse a negociar aluguel com católicos.


— Isso eu não sei, Januário. Mas, se você quiser, posso te levar para sua casa.


— Aceito, só por causa da dor na perna, mas depois quero explicar a questão da Joaninha. Não sou nenhum vigarista. Acontece que ela foi muito antipática comigo, na hora em que eu ia pedir sua mão em casamento, ela disse que só ia guardar um livro da Simone de Beauvoir no quarto e já voltava. Não voltou mais. Mas sua mãe não precisa se preocupar com isso, tenho uma outra pessoa em vista que é ainda mais bacana do que a Joaninha.


Deixei a minha garrafa de gin, que já estava quase no fim, debaixo da pia da cozinha do sobrado. Entrei no F-100 do Biriba e seguimos para a Rua da Lama. O céu estava escuro.


— Acho que aí vem temporal, Biriba.


— Será? Acho que não.


— Olha só a escuridão.


— É que já são quase sete.


— Da noite?!


Só então entendi que havia dormido o dia inteiro. Naquele momento, jurei a mim mesmo que nunca mais beberia para o resto de minha vida. Biriba pegou a Rua Sousândrade até a Avenida do Progresso e, depois da Elias da Mata, entrou na Rua Barata Ribeiro, cruzou a Rua da Pomada e a Paulo Borges, virando à direita na Rua da Lama. Mostrei a ele onde a minha família morava. O caminhão de meu pai não estava na frente, ele devia ter ido fazer alguma entrega.


— Quer entrar, Biriba?


— Se não for incomodar! Sempre tive curiosidade para saber como são essas casinhas típicas do seu bairro.


Baixamos nossas cabeças e entramos. Minha mãe estava sentada diante da televisão, vendo o programa Namoro na TV.


— Pensei que não ia mais voltar pra casa. Isto aqui não é pensão, viu? Fiquei a madrugada toda com o coração na mão. Só me acalmei quando a moça do caixa da padaria me disse que você tinha ido dormir na casa de um conhecido lá da Vila Aimoré. E como foi que você rasgou a sua melhor calça? Vai tomar um banho que você está com catinga de gambá.


— Mãe, este aqui é o Biriba, meu novo amigo. E ele não mora na Vila Aimoré, mora na Vila Portuguesa. Como foi que a Doralice descobriu onde é que eu dormi?


— Deve ter ouvido falar, ora.


— E você tem que ficar assistindo essa merda, mãe?


— A esta hora só tem Trapalhões — justificou-se ela. — E eu só estou esperando dar sete horas.


— Tem Viola Minha Viola na RTC — argumentei.


Minha mãe olhou feio para mim:


— Não me enche o saco, filho.


Namoro na TV é muito melhor — comentou Biriba! — Eu não aguento mais ficar ouvindo Lampião de Gás.


— Eu só estou esperando começar a Porta da Esperança. Uma vizinha foi sorteada e vai participar. Ela quer ganhar um jogo de chá de prata com seis peças, para servir às amigas nos dias em que a gente joga tranca. A gente se reúne todas as quartas e sábados à noitinha pra jogar.


— Ah, esse jogo eu não sei. Só sei truco — disse Biriba. — Queria muito aprender.


— Se quiser, a gente te ensina. Mas não sei se você vai gostar. Só tem velha.


— Claro que vou! Me dou muito bem com os mais velhos, acho que eles têm muito para nos ensinar.


Os dois engataram uma conversa. Subi para tomar um banho rápido, trocar de roupa e pegar dinheiro e documentos. Ao descer, os dois estavam concentrados vendo a apresentação da vizinha na Porta da Esperança. Não quis interrompê-los e fui sozinho à Padaria Santa Cecília.


— Já sei de tudo — disse a caixa ao me ver.


— Sabe o quê? — perguntei, irritado com a fofoqueira. Não dei trela. Fui ao balcão e pedi ao chapeiro da noite um café coado e um pão com queijo na chapa. Não pedi um segundo copo de café. Não estava com nenhuma vontade de rever Joaninha. Levantei-me e fui pagar a conta.


— Me vê dois maços de Minister também.


Doralice não se deu por vencida.


— Sobre o Eric Clapton. Já sei de tudo. No começo de sua carreira, tocou na banda Yardbirds, depois montou o Cream. Ele é amigo dos Beatles. Ele que fez o solo de While my guitar gently weeps. E também tocou com o John Lennon. Eu conheço a música Layla, principalmente porque a segunda parte fica bem diferente da primeira. Mas não conheço bem a sua carreira solo.


— E como você soube que eu dormi na casa do Biriba?


— A mulher do Melquíades comentou. A mãe de seu amigo ligou para ela e contou que você bebeu gin e dormiu o domingo inteiro.


Saí da padaria pensando na súbita aquisição de conhecimentos musicais da moça. Até que essa Doralice era bem jeitosinha. Esta poderia ser a porta da minha esperança de um contrato de locação em melhores condições. Decerto ela ganhava mais no caixa do que aquela antipática do segundo sexo.

 

Porta da Esperança é 16º episódio da série A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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