Conexões

- Guilherme Purvin -


N. do A.: Como avisado em episódios anteriores, a nossa velha datilógrafa e jornalista Adriana mudou de nome. Agora chama-se Andréa. No entanto, seus cabelos continuarão rigorosamente os mesmos.

 

Fecho os olhos e a sensação que tenho é que não se passaram nem quinze minutos do momento em que me deitei. Acordo com as luzes frias dos tubos de vapor de mercúrio tremeluzindo no teto da repartição pública, com aquela calça larga de helanca marrom que havia aposentado desde que ganhei no último Natal a de veludo azul. Caminho com timidez por um infindável corredor, com a sensação de que todos olham para o meu vestuário. À esquerda, uma parede cinzenta. À direita, sucessivamente, relógio de ponto, mesinha da garrafa térmica, um arquivo de aço verde-exército, outro arquivo de aço cinza-chumbo. Bom dia, Andréa. Máquina de escrever, um rasgo no carpete, o tapete novamente íntegro. Bom dia, Sr. Geraldo. Máquina de escrever. Bom dia, Almir. Máquina de escrever, três arquivos de aço, dois deles amassados, com as gavetas desconjuntadas. Bom dia, Dr. Décio Linhares. Máquina de escrever elétrica com fita corretiva, um arquivo de aço multicor, uma janela de vidro espelhado, minha máquina de escrever, mesa coberta com um tampo de vidro, rachadura com um curativo de fita crepe de uma ponta à outra. Minha caixinha de clips.


Em seu posto, o Sr. Geraldo, com uma expressão de angústia, está mais desesperado do que nunca com seus insetos invisíveis, brandindo uma pasta de usuário inadimplente do serviço de esgoto. O Sr. Almir vem esbaforido à minha mesa com um exemplar do Processo de Kafka na mão e começa a discorrer sobre a corrupção nas prefeituras das redondezas, não na de Tijuco Verde. Conclui seu discurso com a frase:


—É um absurdo! É por isso que sou de esquerda! Estou torcendo para que a Assembleia Constituinte implante uma ditadura do proletariado no Brasil.


Dr. Linhares, irritado com a dispersão no trabalho, salta do alto da lista telefônica e começa a marchar pelo corredor, batendo palmas e incentivando os subordinados:


—Serviço! Serviço!


Ele empunha um volume do Direito Administrativo Brasileiro de Hely Lopes Meirelles que encapou cuidadosamente com plástico transparente. Diante de minha mesa, vocifera ao estilo Mussolini, com seu irritante poema:


— Funcionário Januário, parabéns! Hoje atentou para o horário! Coloque os números corretos nas fichas aí e depois as coloque no armário, pra não ter desconto no salário!


Fico aflito e pergunto:


— Mas que fichas, Dr. Linhares?


— As que vierem à sua mesa.


— E que números?


— Os correspondentes ao assunto tratado.


— Eu não entendi direito, doutor.


— Não tem o que não entender. É só colocar os números. E também nos papéis quadriculados, pra se garantir. Quando terminar, coloque tudo na ordem de chegada e codifique a procedência no arquivo. Seu trabalho nos próximos vinte e cinco anos vai ser só esse. Com o tempo você pega o jeito.


Passo a manhã toda aguardando as fichas, mas nenhuma vem à minha mesa, o que me deixa intranquilo. Procuro Andréa para me orientar, mas ela não está nem um pouco preocupada com minha angústia e prefere contar as suas novidades:


— Januário, veja que curso interessante — e estende um folheto cor-de-rosa. — Uma garota me deu no ponto de ônibus.


É uma publicidade da faculdade onde me formei. Anuncia um novo curso superior de Computação e Informática. Ela ergue-se animada e me puxa para um copinho de café.


— A primeira turma começa em setembro e quem tem curso superior está dispensado do vestibular. É o nosso caso. Eu tenho diploma de jornalista e você de contador.


— De cientista atuarial — corrijo.


— Vamos fazer juntos?


Não resta dúvida, ela está dando em cima de mim.


— No sábado eu vi um computador de verdade. MSX.


— Sério?


— Sim, o meu irmão comprou um e levou para a gente ver. Ele faz uns sons incríveis de sintetizador, tipo Yes, sabe? Soon oh soon the light pass within and soothe the endless night...


— Pois então, Januário. Um computador tem mil possibilidades! O que eu achei mais interessante foi a história da World Wide Web, a tal WWW, que permite trocar mensagens em tempo real com pessoas do mundo todo. Basta você ter uma língua comum com a outra pessoa. Você pode falar com gente da Alemanha, Austrália, Japão ou Estados Unidos. Já pensou?


Olho ternamente para Andréa e tento compará-la com Joaninha e Doralice. Andréa e eu temos muitas coisas em comum. Trabalhamos na SDSE. Fizemos faculdade. Moramos em Tijuco Verde. Termino meu copinho de café, mas ela continua falando pelos cotovelos:


— A gente aprende Linguagem Binária, Programação Basic e Cobol, Sistemas Operacionais, Circuitos Integrados e Editor de Textos. Não tenho nada a perder. A Joana me deu um pé na bunda no sábado à noite. O meu diploma de Jornalismo eu deixei na parede da casa de meu pai no dia da formatura. Jornalista nesta cidade? O único jornal, O Comércio, só publica efemérides, sonetos vagabundos de moradores da cidade, propaganda de restaurantes, farmácias e lojas de material de construção, informações sobre turfe, editais da prefeitura e fotos de festas e casamentos do povo da Vila Portuguesa.


— Joana?


— Que tem ela?


— Você disse que conhece a Joana?


—Tem mais Joana do que Andréa nesta cidade.


— Vocês são amigas?


— Depende da Joana que você está falando. De qualquer forma, não sou mais amiga de nenhuma Joana e nem quero falar desse assunto. Se há algo mais deprimente do que o Serviço de Esgoto, certamente é trabalhar n’O Comércio. O que eu tinha na cabeça quando decidi fazer aquela faculdade em Roseiral de Luxemburgo e conheci aquela lá? Sou de humanas, ela é de exatas não daria nunca certo. Se tivesse estudado Informática, estaria conhecendo pessoas do mundo todo. Quando me apaixono, sempre me fodo, não tenho paz nenhuma enquanto estou com a pessoa e, depois que rompo, vem a tristeza.


Um tropeção do Almir no carpete rasgado interrompe a nossa conversa.


— E aí, estão animados com as eleições de novembro? A gente tem que votar em alguém que combata essa corrupção nas prefeituras. Estou lendo um livro de processo que conta uma história absurda. O sujeito é detido pelos fiscais em seu próprio quarto. Tem que acabar com essa bandalheira.


— As eleições não são municipais, Almir — explica Andréa. Ela acende um cigarro e continua a falar sobre o novo curso: — Só preciso ver o preço das mensalidades. Finalmente o meu diploma de Jornalismo vai servir pra alguma coisa.


Décio Linhares vem juntar-se a nós com um risinho sarcástico.


— O que temos aqui? Reunião do Setor de Dívida? Não fui avisado!


Almir volta depressa para sua mesa. Andréa permanece impassível, encarando o chefe e fumando.


— Estou esperando chegarem as fichas, Dr. Décio — explico.


— Esperando chegarem, Januário?


— Sim, doutor. Como o senhor disse.


— E você acha que as fichas têm perninhas, Januário? Ou que elas vão chegar voando e vão pousar na sua mesa?


— Desculpe.


Dou meia volta e paro diante do Sr. Geraldo.


— O senhor sabe onde eu pego as fichas e como eu fico sabendo quais são os números referentes aos assuntos?


— Desculpe, Sr. Januário, mas não estou autorizado a passar essas informações.


— É que o Dr. Décio disse para eu pegar as fichas que chegarem e ir colocando os números nelas.


— Pois então não precisa pegar, o verbo “chegar” não traz implícita a ideia de apanhar algo e trazer consigo.


— É o que eu pensava também. Mudando de assunto, muito bom o churrasco no sábado. O senhor está de parabéns, é um ótimo churrasqueiro. A gente vê que o senhor ama o que faz.


— Obrigado, mas eu detesto ficar cuidando de churrasco. Aquela fumaça me sufoca. Só faço isso porque a dona Gertrudes manda. Ela é amiga da dona Lia Rosenberg e diz que, diante da churrasqueira, pelo menos as pessoas não estranham meu costume de espantar essa mosca que vive me rodeando.


— Dona Gertrudes é sua esposa?


— É. Mas nos casamos só no religioso. Na igreja do Oséias.


— Quem é o Oséias?


— É o funcionário que trabalhava em sua mesa. Ele deixou o Serviço de Esgoto para fundar sua própria igreja.


— Ah, sim! A Andréa me disse. O cara que estuda Teologia.


Isso deve ser outra maluquice do Sr. Geraldo, que chamava a esposa de “dona”. Conheço Tijuco Verde como a palma de minha mão e sei que não há nenhuma igreja nova por aqui. Se houvesse, eu saberia.


— É uma igreja belíssima. Foi erguida sobre o local onde, há muitos milênios, caiu um asteroide que deu origem a esta região.


Arregalo os meus olhos. Aquilo é parte do enredo de minha ópera-rock. Só que, no meu projeto, quem funda a igreja não é nenhum Oséias, somos nós, Benedito Montana e eu. Ou melhor, Bengt e Janus.

— Qual é o nome dessa igreja, Sr. Geraldo?


— Ah, mil desculpas, Sr. Januário, mas não estou autorizado a pronunciar o sagrado nome da igreja em vão.


— É a Igreja do Gigante Azul?


Sr. Geraldo volta o rosto para mim com um olhar extremamente austero e diz apenas estas duas sílabas.


Tais toi.


Retorno à minha mesa, tentando digerir aquela informação. De duas, uma: ou os supositórios veterinários haviam desencadeado um processo de esquizofrenia em mim ou de fato eu profetizei algo muito importante. Se essa merda for problema psiquiátrico, todas as memórias que escrevi até agora não passariam de delírio. E eu não tenho a menor intenção de perder o meu tempo escrevendo um romance estilo Lamartine Babo e, ao final, concluir com a frase “mas foi tudo um sonho, acordei”. Descartem essa possibilidade e pensem noutra que, embora remota, não pode ser desprezada: haviam implantado memórias alheias em meu cérebro, como no filme Blade Runner. No caso, as memórias do cérebro carunchado do Sr. Geraldo. Mas também aqui recaio naquela baboseira da mistura de realidade com imaginação. Isso sem falar que estamos em 1986 e o filme do Ridley Scott, embora rodado em 1982, fala de coisas que acontecerão em novembro de 2019.


Na verdade, nenhuma dessas hipóteses me agrada. E ainda tenho que pensar no comentário da Andréa sobre a Joaninha. Tá certo que Tijuco Verde é uma cidade pequena, mas aí já era exagero. Sr. Geraldo era casado com uma amiga da mãe da Joaninha, o pai da Joaninha conhecia a esposa do Dr. Linhares e agora essa? Ficava faltando quem, o Almir somente? Bom, nem sei por que me surpreendo. Afinal, como já expliquei antes, sete elos bastam para conectar pessoas do mundo inteiro. WWW. É disso que a Andréa está falando.


— Já que Maomé não vai à montanha... — diz Almir, bufando e colocando uma caixa enorme com milhares de fichas para preencher com números.

 

Conexões é 17º episódio da série A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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