O ataque das aves // Happiness is a warm gun // AUTO ISCOLA AIMORÉ (aiai)

Atualizado: 27 de mar.

- Guilherme Purvin -



Cap. 18 - O Ataque das Aves

Ao deixar o expediente, fui à Travessa Monsaraz apresentar a minha proposta à Dona Sara. Continuaria tentando convencer Joaninha a casar-se comigo. Como plano B, casaria com alguma outra mulher (Andréa ou Doralice) e, juntando nossos salários, pagaríamos os aluguéis pelo valor de mercado. Enquanto permanecesse solteiro, moraria na casa na condição de zelador, cuidando de sua manutenção e limpeza, podendo levar para lá todas as minhas estantes de livros, meus discos e fitas cassete, vitrola, minha mesa para a máquina de escrever e nada mais. Durante esse período, eu me obrigaria a atender com cortesia qualquer interessado no sobrado, cuja locação estava sendo anunciada pelo corretor da Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias. A generosa senhora aceitou a proposta, reservando-se o direito de alterar, suprimir ou acrescentar cláusulas caso mudasse de ideia.


Biriba ajudou a transportar as minhas coisas naquela noite mesmo. Meu pai ainda não havia retornado do carreto do fim da tarde de domingo e minha mãe parecia preocupada.


— Ele foi apanhar uns barris de produtos químicos lá nos cafundós de Chumbinho, a pedido do dono de uma fábrica de fundo de quintal em Carbônia.


— O caminho mais seguro é muito longo — palpitou Biriba. —Ozimândia, Nova Breslávia, Flumenilitópolis e depois ainda mais uns 200 quilômetros até o destino. Se fosse por mim, eu descia a serra para Chaluá e iria até o Vale da Morte. De lá, subia um pedacinho de serra e pegaria a estrada que margeia o Rio Tijuco Verde até sua foz em Chumbinho.


Achei que minha mãe ia se entristecer com minha mudança. Muito pelo contrário, ela só faltou soltar rojões. Disse que já estava mais do que na hora, que meu pai havia saído da casa de meus avós aos 23 anos para casar-se com ela.


— Devia ter tomado seu rumo há seis anos, filho — disse ela, ajudando-nos a levar os livros e discos para o F-100 do Biriba. No fim, entregou-me um pão de forma, uma lata de sardinhas, uma caixa de ovos e um litro de leite. Dispensei os dois últimos, pois não teria geladeira por uns tempos. Bolacha, só tinha aquela do tipo champanhe, que se usa em cima do flan de baunilha. Peguei ela mesma. Mudei-me às nove e meia daquela segunda-feira, não me esquecendo das latinhas com as mudas de feijão, do saco com os livros derelitos, da escova, travesseiro e violão.


O que me lembro daqueles primeiros dias na nova casa é que chegava sempre às sete e quinze da noite da SDSE e passava o tempo rascunhando o projeto da ópera-rock. Do Sr. Geraldo, não consegui mais nenhuma informação a respeito do Oséias, de forma que posso assegurar que a autoria da ideia era inteiramente minha. A maior dificuldade era transformar o enredo em letra de canção. Quanto à parte instrumental, confiava no Eric. As ideias gerais para primeira faixa estavam concluídas. Para a segunda, no entanto, ainda não havia conseguido justificar o título da faixa: “O ataque das aves”.


Todo dia, ao chegar à SDSE, encontrava Almir e o Sr. Geraldo compenetrados, datilografando em suas mesas. Éramos apenas quatro na SDSE, pois Andréa havia solicitado o gozo de 90 dias de licença-prêmio por assiduidade nos últimos cinco anos. Estava ocupada com seu novo curso de Computação e Informática. Dr. Décio Linhares, na mesa central, costumava comparar folhas de papel.


— Sr. Januário, venha aqui, por favor.


Seus olhos não se desviavam dos papéis. Eu me erguia calmamente e ia à mesa do chefe.


— Pois não, Dr. Linhares.


— Parece que o senhor está cansado. É a segunda vez em apenas uma semana que o senhor comete erro do mesmo jaez — ele enfatizava a palavra jaez. — Refiro-me à codificação de procedência dos ofícios para a Procuradoria de Execuções Fiscais


— Mas será que eu errei de novo, Dr. Linhares?


Dr. Linhares colocava os papéis sobre a mesa e ajeitava os óculos.


— O senhor acaso insinua que eu minto? Pessoas de tal jaez não ascendem os degraus da carreira. Que número está escrito aqui?


— 0.1.7.1. Esse não é o código da Procuradoria?


— Esse é o código da procuradoria, sim.


— Então!


— Só que esse é o código da Procuradoria do Serviço de Vigilância Sanitária, senhor dromedário! Não existe só uma procuradoria neste município!


— Desculpe! E qual é o número da Procuradoria de Execuções Fiscais?


— Não interessa qual é o número. Interessa que o senhor não escreveu corretamente o código. Por conta de erros desse jaez até hoje estamos em busca de um documento importante que nos foi requisitado pela Caixa Econômica Federal, referente ao recolhimento do PASEP de um ex-funcionário, o Pastor Oséias, numa época em que o senhor sequer sonhava em ingressar no serviço público. Como é que poderíamos encontrar o protocolo de recebimento de um determinado ofício em meio a mais de duas mil codificações diferentes? Mas um ofício da Caixa Econômica Federal não é nada se comparado com a importância de um ofício à Procuradoria de Execuções Fiscais, que é a última guardiã da moralidade parafiscal de nosso município. Espero que o senhor nunca mais cometa equívocos de tal jaez, caso contrário terei que propor a sua relotação para o Setor de Inspeção de Manilhas e Tubulações, entendeu?


— Sim, Dr. Linhares. É que são tantos os códigos, eu faço mais de 50 por dia e ainda não cheguei nem a esvaziar 10% da caixa que o Almir me entregou. É muita sobrecarga para mim. Desculpa!


— Não é a mim que o senhor deve pedir desculpas. É à Administração Pública, Sr. Januário. É ao Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata, diretor-geral do Serviço Municipal de Esgoto. Eu sou apenas o seu chefe, uma engrenagem de uma máquina imensa. Caso isso chegue aos ouvidos do Dr. Basílio, certamente o Serviço de Inspeção de Manilhas e Tubulações será pouco. Erros deste jaez significam exoneração sumária. E exoneração significa ficar sem dinheiro para o aluguel do sobradinho onde você está morando agora, entendeu?


— Certamente que sim, Dr. Linhares. Pode deixar que não ocorrerão novamente fatos como este.


— Se acontecerem, não serei eu quem irá sofrer.


Este tipo de conversa era diário e ocorria logo após as incertas de dona Glaisy, a esposa do chefe. Às vezes, quando não tinha aula, Andréa me chamava para tomar uma cerveja no Calendas Bar.


— Não fique triste, Januário. O Linhares estava apenas querendo mostrar que havia aprendido uma palavra nova do Caldas Aulete. Nessas situações, tudo o que você tem que fazer é perguntar o significado da palavra “jaez”.


— Mas eu sei o que significa “jaez”, Andréa.


— Faça de conta que não sabe. Ele ficará radiante e mudará completamente de assunto. Pensando na forma como a Glaisy o agride, até que ele desconta de forma suave em cima de seus subordinados.


Andréa era quem sempre pagava a cerveja. E eu aceitava. Sentia falta de ter com quem conversar na SDSE e ficava feliz com seus convites. Caminhávamos na direção de minha ex-faculdade e entrávamos no boteco da Rua Dona Chiquinha, o Calendas Bar. Aquele lugar tinha um significado importante para mim, foi diante daquele bar que apanhei no ar o caderno com as aulas de datilografia que havia voado de um caminhão. Ele foi essencial para a minha aprovação no concurso público.


Um dia, sentado no balcão do bar, eu mostrei a Andréa uma daquelas cartas de cobrança sem resultado.


— Tenho um plano. Algo que poderá reverter proveitosamente para a SDSE. Você sabe, todo dia a gente recebe um monte de carta de cobrança que é devolvida pelo correio porque não encontraram o inadimplente. Esse serviço é pouco produtivo. Desde que entrei na SDSE, nunca vi ninguém ir pra lá saldar a dívida.


— É isso mesmo, Januário. A média histórica de cobranças bem sucedidas é de uma para mil. Mas não se preocupe, as cobranças judiciais pela Procuradoria de Execução Fiscal também não conseguem muito mais do que isso. O Serviço de Esgoto é inteiramente deficitário, mas eu não acho isso mau. Serviço de esgoto tinha que ser de graça.


Expus à Andréa os argumentos que já havia apresentado meses atrás ao meu irmão César. O meu projeto, se bem sucedido, constituiria a minha modesta contribuição acadêmica para aquele órgão de tão grande relevância estratégica no campo da guerra bacteriológica.


— Em resumo, estou decidido a ir pessoalmente às casas dos devedores. Vou tentar explicar com todo didatismo que a dívida, sob o enfoque contábil, é irrisória e de forma alguma compensa, por conta de alguns trocados, ter seu nome incluído no SPC e no SERASA, ficar sujo na praça e ainda ser executado pela procuradoria.


Andréa olhou bem nos meus olhos e perguntou:


— Januário, estou com um pé pra fora da SDSE. Só estou queimando as licenças que acumulei. Depois vou tirar férias e não volto nunca mais para aquele lugar horroroso. Meu sonho é ser jornalista de verdade, jornalista internacional, falar com gente de todo mundo pela rede mundial de computadores. É sério isso que você está dizendo?


— Claro, Andréa. Se a gente fizer um cálculo na ponta do lápis, vai ver que o dinheiro de meia dúzia de gatos pingados que vão lá ao balcão ao longo de um ano inteiro não cobre nem as despesas com o correio. Qual é a imagem que tem o Setor de Dívida do Serviço de Esgoto aos olhos da sociedade que paga nossos salários?


— Januário, eu preferia ter notícia dos seus avanços na elaboração da ópera-rock.


Sem solução de continuidade, no mesmo tom de euforia, eu contava a ela que havia descoberto um jeito para justificar o nome da faixa 2. Passados quinze anos na história, Janus e Bengt precisam erguer a Igreja do Gigante Azul no local onde caiu o asteroide, bem no centro de Tijuco Verde, que agora é uma grande metrópole. Acolhi um palpite do Melquíades e imaginei a Rua Guimarães Rosa como sendo mais moderna do que a Avenida Paulista (que só conheço pela televisão). Como erguer uma igreja num lugar tão valorizado, com bancos, lojas, uma federação das indústrias e até um museu de arte? São gigantescos os obstáculos que Janus e Bengt encontram para a realização de sua missão cósmica. Janus, então, conclui que é imprescindível que eles se aliem incondicionalmente ao poder econômico que domina a cidade de modo irrefreável e propõe a Bengt que os dois ingressem no sistema, aliem-se a deputados e banqueiros, obtenham patrocínio das administradoras de cartões de crédito, para convencê-los a adquirir a igreja católica na esquina da Rua Sousândrade (a do casamento do juiz e da professora), derrubá-la e erguer em seu lugar o templo sagrado do Gigante Azul. Bengt, porém, rejeita essa ideia e dispõe-se a enveredar pelo mundo do narcotráfico onde, acredita ele, encontrará aliados mais confiáveis para a empreitada. O projeto levado a cabo por Janus é apenas parcialmente bem sucedido, pois os deputados e banqueiros não querem briga com a torcida do Vaticano F.C., clube da igreja católica na cidade, e optam por um terreno da companhia de força e luz, lá onde é o depósito de lixo tóxico e hospitalar, na boca da Favela do Curto Circuito. Como Janus não pode revelar as razões que justificam a escolha da esquina da Guimarães Rosa com a Sousândrade, acaba cedendo às exigências da mão invisível do mercado. Afinal, pensa ele, é melhor uma igreja a poucos quilômetros das coordenadas geográficas que marcam a queda do asteroide do que, digamos, um templo em Chumbinho. Assim, começa a construção do templo, erguido sobre o lixo tóxico acumulado durante anos. Suas formas simulam uma grande caverna de pedra – imitação da cavidade que teria se formado aquando da fusão das rochas incandescentes vindas do espaço sideral com o solo tijucoverdense. Bengt alerta o amigo que essa mudança espacial acarretará muitas desgraças no Planeta Terra, mas Janus argumenta que isso é impossível, pois o Gigante Azul é o próprio Planeta Terra. E então, na véspera da inauguração da igreja, ocorre o ataque das aves – urubus que rondam os dois lixões de Tijuco Verde impedem o ingresso dos fiéis.


— O que você achou, Andréa?


Ela toma mais um gole de cerveja, medita e responde:


— Mais interessante do que o plano de cobrança.

 

N. do A.: Em breve, diversas cidades deste romance passarão a ter nomes de árvores brasileiras. Chaluá, por exemplo, passará a ser Orelha de Macaco. Carbônia será Angico Preto. E Flumenilitópolis, Farinha Seca.

 

Cap. 19 - Happiness is a warm gun


- Guilherme Purvin -

"Nos erguemos, ela começou a me beijar..."

Desde o sumiço do meu pai naquele domingo do MSX, minha mãe passou a agir de um jeito estranho. Perdeu o interesse por televisão e jogo de tranca com as amigas da Rua da Lama. Saía da cama às cinco da madrugada e ia passear por lugares distantes. No começo, vinha me visitar no sobrado da Travessa Monsaraz e dizer tudo o que havia visto durante o dia.


— Hoje fui pra Chaluá. Ainda está passando A hora da estrela no cinema. A estação da Estrada de Ferro do Litoral vai da divisa de nosso estado com o Pará ao norte e, ao sul, até a divisa com Santa Catarina. Mas também tem outros ramais. Um deles vai para Chumbinho via Carbônia. O outro vai também para Chumbinho via Vale da Morte. Seria bom se tivéssemos um ramal ligando Chaluá a Tijuco Verde e Flumenilitópolis. Quem sabe os estudantes da faculdade de Engenharia Ferroviária não fazem um projeto desse tipo e o apresentam ao Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata? Amanhã quero conhecer Carbônia, vou ver se tem algum ônibus pra lá.


Ela não perguntava nada sobre minha vida e nem falava do César. A princípio, achei que ela estivesse ficando com Alzheimer, mas o Dr. Rui descartou minha preocupação. Ela tinha senso de direção, sabia ir para longe e voltar para casa. Estava com 50 anos de idade e tinha muita coisa ainda para fazer na vida.


Aos domingos eu ia me divertir no Descampado da Mula Manca. Numa das vezes, reencontrei a caixa da Padaria Santa Cecília. Eu já tinha bebido uns copos de gin e ela estava quieta, sentada num banco patrocinado pela Indústria de Cimento Vale da Morte S/A, lendo um livro.


— Oi! Tudo bem?


Eu não me lembrava do nome dela. Nunca mais a tinha visto, desde que saí da casa dos meus pais.


— Tudo!


— O que tá lendo?


— Castro Alves. Peguei emprestado na biblioteca municipal.


— Legal. Lê um trecho pra mim?


— Claro! Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa — este sopro do alto: do coração — este pélago da alma. E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do látego da desgraça.


— O que é látego, você sabe?


— É chicote de corda. Procurei no dicionário, também não sabia.


— E pélago?


— É alto-mar.


— Quer andar um pouco?


— Sim — disse ela, alegremente, guardando o livro em sua bolsa a tiracolo.


Descemos a rampinha de grama e fomos até a margem do Córrego da Ratazana. Paramos diante de uma árvore colada ao muro da ponte da Avenida Coimbra. Doralice era uns dez centímetros mais alta do que eu. Como estava muito tarado e já meio bêbado, não resisti e dei um beijo nos seus lábios erguendo a ponta dos pés, o que me fez quase perder o equilíbrio e cair em cima dela. Mas ela não se incomodou com a minha falta de jeito. Disse apenas:


— Não é assim que se beija. Não basta encostar os lábios. Você tem que abrir a boca e lamber a língua da namorada. Assim, sente.


Eu, que havia tentado tantas vezes aprender a beijar naquele mesmo lugar, quando saía com o grupo de amigos do César, sempre malsucedido, pela primeira vez na vida beijava de verdade uma mulher.


— Que dia é hoje? — eu perguntei.


— Domingo, 2 de novembro. Você viu os noticiários sobre o que está acontecendo na Suíça? Ontem começou um incêndio numa fábrica, a Sandoz, se não me engano. Disseram que os tambores de inseticidas explodiram como se fossem bombas. As substâncias contaminaram o rio Reno e disseram que há um risco de morrerem todos os peixes de lá, já pensou? O Reno vai ficar pior do que o Rio Tijuco Verde.


Eu havia perguntado o dia só pra saber quando é que comemoraria a data de nosso namoro. No entanto, a impressão que dava era que ela não havia se excitado com o beijo. Não parava de falar besteira de espumas flutuantes tóxicas no Reno e o que eu queria era apertar seu corpo contra o meu, rolar no chão com ela. Então me lembrei das velhas lições do César: não basta beijar a menina, tem que cheirar o pescoço, os cabelos, as orelhas. Depois, começar a deslizar suavemente as mãos pelo corpo dela, à espera do início do segundo tempo do jogo.


Tentei cheirar o pescoço dela, mas era meio complicado, difícil não cair no chão. Ela me afastou delicadamente.


— Você não gosta de mim? — perguntei.


— Gosto, senão, não teria te beijado.


— Então o que estou fazendo de errado?


— É que você está bêbado, com um bafo de pinga que me deu náusea. Melhor a gente se beijar quando passar o porre. Mas a gente pode ficar de mãos dadas e conversar. Por que você perguntou que dia é hoje?


— Por nada, curiosidade.


— Hoje é dia de finados. Deu azar de cair no domingo. Se bem que a padaria não fecha nem domingo nem em feriado. Minha folga é às quartas. Será que vão morrer todos os peixes lá no Reno?


Perguntei onde é que ela morava, ainda tentando me lembrar de seu nome. Berenice? Ela me disse que era naquela passagem em L da Avenida Elias da Mata para da Rua Omega — um corredor com diversas casas geminadas. Combinei de ir visitá-la na noite de quarta-feira, quando saísse da SDSE.


Contei a história do domingo à Andréa no dia seguinte, durante o intervalo de suas aulas de Informática e Computação.


— Não sei se me encontro de novo com ela. Ela é mais alta do que eu e eu nunca decoro seu nome (Doralice). Será que mora com a família?


— Que bom, Januário! Finalmente você arranjou uma namorada! Tem mais que ir! Mas desta vez não beba. Ela já reclamou de seu bafo de onça.


— Eu nunca soube que tinha bafo de onça.


— A gente não fala pra não ser deselegante. Mas, num caso como este, é meu dever de amiga avisar. Escove bem os dentes e vá visitar a Doralice. Semana que vem quero saber se vocês deram certo.


Fiz o que Andréa mandou. No fim do expediente de quarta-feira, nem me despedi do Dr. Linhares, do Sr. Geraldo e do Almir. Escovei os dentes no banheiro do SDSE e tomei um ônibus para a Avenida Coimbra. Desponguei sem pagar a passagem, no meio da confusão do pessoal que subia no ponto de ônibus, com minha calça americana comprada de contrabando e minha camisa aberta no peito, rindo e cantarolando uma velha canção que o Gilberto Gil gravou para o LP Realce. Atravessei a avenida, entrei na rua Omega e fui procurar a minha futura namorada na Passagem da Urtiga. O corredor era meio obscuro, não tinha poste de luz. A casa de Doralice era uma das melhores, tinha até um jardinzinho com rosas na frente. Nem precisei procurar o número, pois ela já estava no portão me esperando. Mas ela não me convidou para entrar. Ficamos sentados num degrau de cimento, no escuro da entrada para a casa. Doralice me contou que tinha estudado num colégio particular da Vila Portuguesa, mas que teve que parar para trabalhar. Eu só queria só deslizar minhas mãos pela sua camiseta, subir pelo umbigo, alcançar seu peito e esperar pelo apito do início do segundo tempo. Mas como começar o jogo, assim, sóbrio?


— Eu quero ver se consigo conciliar trabalho e estudos, mas só tenho as quartas-feiras para estudar História, Biologia... Quando vou à Biblioteca Municipal, acabo me distraindo com a poesia do Vinícius de Moraes e aí o dia já acabou.


Eu tremia de nervoso e então ela colocou a mão esquerda sobre minha coxa.


— É americana? A calça?


Não sei se foi sem querer, mas a mão dela estava bem em cima de meu pinto. Aí ela deu um salto para trás e me perguntou se eu estava com um revólver. Não entendi a pergunta.


— Revólver? Que revólver?


Que diabo de conversa era aquela, num momento tão romântico. Então ela caiu na gargalhada.


— Ah, besteira minha! Será que tenho tamanhos poderes sobre o filho do caminhoneiro da casa dos duendes?


Minha vontade era de erguer-me, injuriado, mandá-la à merda e nunca mais voltar. Era assim que ela me via? O filho do caminhoneiro? E por que falar assim da casa de meus pais, ainda mais agora que eu havia me mudado para a Travessa Monsaraz? No entanto, sua mão ainda estava lá onde ela pensara haver encontrado uma arma. Lembrei-me das lições de utilitarismo contábil de Bentham e concluí que valia a pena aguardar mais alguns minutos antes de me indignar.


— Mostra ele pra mim? — ela pediu.


— Aqui? E seus pais?


— Meus pais já morreram. Eu moro aqui com mais umas seis pessoas.


— Tenho medo, Doralice.


— Então fica de pé.


Nos erguemos, ela começou a me beijar e enfiou a mão direita para dentro de minha nova calça americana. No entanto, ao primeiro toque de sua mão, acabei gozando e fiquei extremamente constrangido. Dei uma desculpa de que precisava pagar o aluguel atrasado à Dona Sara Queneau, antes que ela me multasse, e saí correndo dali com a intenção de nunca mais revê-la, pois já podia irresignar-me sem qualquer prejuízo atuarial.


Numa manhã de sábado de dezembro, fui com a minha mãe à igreja da Sousândrade com a Guimarães Rosa, pois ela queria acender uma vela para achar papai. Na volta, ela me disse com um sorriso malandro:


— A sua namorada telefonou perguntando de você.


— Minha namorada? Que namorada? A Joaninha? A Andréa?


— A Doralice.


— Doralice, minha namorada? Ela deve estar doida. Como foi que ela descobriu o seu telefone, mãe?


— Pela lista telefônica de endereços, ora essa.


Naquela época recebíamos anualmente catálogos com listas de telefone por nome de assinante e por residência. Desde o dia em que a conheci, Doralice já tinha a minha ficha completa. Aquela moça era mesmo uma fofoqueira. Que ideia era aquela de se apresentar como minha namorada, depois de haver me chamado de filho de caminhoneiro, morador de casa de duendes e pistoleiro?


Se eu ainda morasse na Rua da Lama, estaria sempre próximo dela, durante o dia na padaria, à noite à distância de uma pinguela na linha da pobreza. Fiquei imaginando como ela vigiaria meus passos. Seria pior do que a dona Glaisy, mulher do imbecil do Linhares. Mudei de assunto:


— Tem visto o César?


— Anda metido com drogas. Não vem mais me ver.


 

Cap. 20 - Auto Iscola Aimoré (AIAI)


- Guilherme Purvin -



Mamãe passou no sobrado da Monsaraz, 43, onde eu jogava dominó com o Biriba. Levou rolo à marinheiro e pudim de pão para o jantar. Biriba foi à sua casa e trouxe uma garrafa de vinho Kosher que roubou da adega de sua mãe, a Dona Sara Queneau.


Eu mesmo servi as fatias de rolo à marinheiro – uma espécie de rocambole de forno com massa de torta e recheio de sardinhas em lata e picadinho de tomate, cebola e salsinha. Biriba abriu o vinho e serviu nos copos de requeijão e de geleia que eu tinha.

Disse que era homenagem aos peixes mortos no desastre da Sandoz no começo de novembro

— O César foi te visitar, mãe?


— Deve estar ainda lá em casa. Estava totalmente chapado quando chegou, deve ser LSD. Queria ouvir um disco do Pink Floyd, o da orelha e da sirene.


— Não é sirene, mãe. São os ecos das gaivotas quando a maré está baixa.


— Ele não se lembrava que você levou embora todos os discos e a vitrolinha. Aí pegou uma flauta, sabe aquela flauta fininha que seu pai ganhou de um cliente irlandês, faz uns dez anos? Pois ele começou a tocar aquela música estridente, Bonaparte cruzando o Reno. Disse que era homenagem aos peixes mortos no desastre da Sandoz no começo de novembro. Não aguentava aqueles apitos e vim para cá jantar com vocês.


— É bom que ele toque flauta, é uma terapia.


— Ele só toca quando está drogado, filho.


— Mesmo assim. É melhor do que ele e aquela imbecil da Amélia saírem armados e atacarem escolas infantis, como fez o casal de caipiras nos Estados Unidos.


— Até aí — ponderou mamãe —, é melhor tocar flauta irlandesa em homenagem aos peixes do que em homenagem ao Sarney por esse novo plano Cruzado, que vai congelar todos os salários. Foi só acabarem as eleições e veio essa traição. Mas não foi só pra fugir daquela flauta do César que vim aqui. A verdade é que estou farta desses deslocamentos de ônibus e trem para todas as cidades da região, à procura de seu pai desaparecido. Perco horas preciosas em conexões de um lugar para o outro.


Biriba, que havia se tornado amigo constante de mamãe desde o dia em que os apresentei, mesmo depois que aprendeu a jogar tranca com ela e as vizinhas, comentou:


— De trem não é melhor?


E ela:


— Chego em Orelha de Macaco às oito da manhã de ônibus, mas o trem para o Vale da Morte só sai às onze. Fico três horas na estação sem ter o que fazer.

Biriba sugeriu:

— A senhora precisa é de um carro!

— Seria ótimo. Só me faltam duas coisas: dinheiro para comprar um e aprender a dirigir.


Então ele propôs, todo orgulhoso:


— Não seja por isso! Concluí a minha obra prima, uma Belina II 78 multicolor. O Januário já viu como ficou, não viu?


— Vi. A amarela de bolinha preta.


— É a lateral dela, coloquei no lugar da imitação de jacarandá. Mas ela tem outras cores também. Januário, diga para sua mãe como ela estava quando trouxe lá do lixão para o meu laboratório de mecânica e funilaria.


— Estava franzida e enferrujada. Perda total.


— É isso aí. Aí então eu coloquei aquele traste no meu F-100 e trouxe para casa. Foram três meses de trabalho, dia e noite. Vou mostrar à senhora!


Biriba fez questão de nos levar para os fundos do quintal da casa dele.


— Mas não façam barulho! Minha mãe não deixa ninguém entrar em casa.


Descemos até a oficina secreta dele e ele mostrou à mamãe aquela espécie de carro, cheio de orgulho:


—Se vocês vissem como estava quando trouxe de lá do lixão, não iriam imaginar. Foi reconstituída inteirinha aqui. Estão vendo este capô? Dá para acreditar que, há alguns meses, eram chapas de aço de prateleiras que o Januário deu para mim e que eram, por direito, suas, pois ele que achou elas na rua com seus livros? Apertem um pouco com a mão. Estão sentindo a dureza? Não cede, né? É que está tudo mais reforçado, pode-se dizer que é quase um carro blindado. E estas laterais amarelas com bolinhas pretas, o que acham? São as cores da bandeira do Tijuco Verde Bilhar & Dancing Club. É uma homenagem à instituição que já trouxe tantos títulos à nossa cidade, inclusive o de heptacampeão intermunicipal de bilhar neste ano. Fiquei vários dias retocando essa pintura.


Biriba acariciava aquela espécie de carro como se fosse um bichinho de estimação. De dentro da casa, ouviu-se uma voz de mulher:


— Quem está aí na garagem?


— Sou eu, mãe! Só vim pegar uns pregos que o Januário pediu!


— Diga a ele que prego se compra em loja de ferragens! Não vai ficar dando coisas de graça para aquele safado que deixou a filha da Lia Rosenberg na rua da amargura, rompendo o noivado.


Biriba gesticulou para sairmos depressa, antes que a mãe os flagrasse ali. Voltamos para o sobrado para terminar de comer.

—Vou precisar pegar muita estrada, algumas sem pavimentação! O carro aguenta, Nathan? — perguntou mamãe. Eu achava sempre estranho que ela tratasse o Biriba pelo nome de verdade.

— Se aguenta? Não reparou no visual da perua, todo anguloso, desenvolvido a partir das leis da aerodinâmica? Posso até acompanhar a senhora de copiloto, se não se incomodar. Por ora, estou sem nenhum projeto novo e tenho tempo disponível.

— Não se preocupe, Nathan — disse ela. — Essa busca é só minha. Eu é que me casei com o pai deste seu amigo.

...sempre que alguém se metia a besta comigo, eu dizia: “Há juízes em Tijuco Verde”

Respirei fundo, reconfortado. Estava provado que eu não era filho do Melquíades coisa nenhuma. E então interferi, preocupado com sua segurança:


— Sempre é bom estar acompanhada do criador do projeto, mãe. E seria uma indelicadeza recusar a oferta, ele está com o tempo livre.


— Indelicadeza não seria — replicou o Biriba. — Mas que eu ia gostar, isso eu ia. Imagine só a quantidade de peças de carro que eu iria encontrar no caminho!


No final do pudim de pão e do vinho Kosher, já estava tudo acertado. Só faltava ela conseguir aulas de autoescola a preços módicos.


Mamãe procurou Melquíades, que por sua vez consultou o pessoal do Sindicato dos Similares (que reunia trabalhadores de bares, restaurantes, hotéis e dancing-clubs da cidade). Seus companheiros de sindicato sugeriram que ele consultasse a Dra. Andréa, não a minha amiga jornalista, mas uma outra, de quem eu havia ouvido falar naquele fatídico churrasco de sábado em novembro e que, por coincidência, trabalhava também no Serviço de Esgoto, mas num outro andar, junto à Procuradoria de Vigilância Sanitária, setor especializado da Procuradoria Geral de Serviço de Esgoto. Era a temível Dra. Andréa Catapreta, conhecida pela alcunha de “tranca-portas”, porque sua especialidade era interditar estabelecimentos. Naquela semana, último dia de trabalho antes do Natal, mamãe apareceu no SDSE acompanhada do Melquíades, do Biriba e de um dirigente do Sindicato dos Similares. Vieram me chamar para engrossar a comitiva que iria conversar com a “tranca-portas”.


Ao contrário do que pensávamos, a mulher foi bastante cordial, especialmente depois que mostrei a ela um bilhete que tinha recebido do Dr. Giorgio Pererec, o Juiz de Direito da Comarca. Não o recebi diretamente, mas pelo seu assistente, o Sr. Heládio, na mesma noite do dia em que entreguei a ele meus sapatos número 39 para que o magistrado subisse ao altar e se casasse com dignidade. Foi quando ele apareceu na Rua da Lama (onde eu ainda morava na época) para me devolver os sapatos limpinhos e engraxados por ele mesmo. Junto com os sapatos, ele trouxe uma calçadeira de osso e aquela carta do magistrado que eu carregava sempre comigo caso necessitasse. A carta dizia isto:


“Caro jurisdicionado, quando meu segundo casamento corria risco de não acontecer, o senhor veio em meu auxílio, oferecendo-me seus sapatos velhos e já franzidos. Sei que são bem baratinhos, não são de cromo alemão e o número provavelmente é menor do que o do seu pé. Daí porque a parte de trás deles parece uma sanfona. Por isso, ofereço-lhe esta calçadeira que herdei de meu avô, para que não fique destruindo sapatos. Que são vagabundos, mas são seus.

No mais, desejo a você que sempre evite a autotutela. Em caso de pretensão resistida, traga-me os fatos e eu dar-lhe-ei o direito. Mas venha com advogado. Ele saberá peticionar.

Atenciosamente,

G.P.”


Aquela sigla, GP, poderia ser qualquer coisa, Grande Prêmio, Glautúrnio Polenta, mas a procuradora de vigilância sanitária sabia bem que era do Dr. Giorgio Pererec. Se soubessem como aquela carta, sempre dobrada em minha carteira, me trazia calma e paz de espírito! Desde que a recebi, sempre que alguém se metia a besta comigo, eu dizia: “Há juízes em Tijuco Verde” e tirava a carta do bolso. A pessoa se encolhia toda.


Dra. Andréa Catapreta ouviu o nosso pedido e respondeu:


— Já sei onde conseguirão aulas de direção a preços módicos. Na Auto Iscola Aimoré.


Disfarcei uma careta ao ouvi-la falar “iscola”. O importante era mamãe aprender a dirigir

— e sem gastar muito dinheiro. Saímos do encontro felizes e esperançosos. Biriba foi com mamãe e o líder sindical diretamente para a autoescola do amigo da procuradora. À noite, lá estavam Biriba e mamãe novamente no sobrado da Monsaraz, 43. Chegaram justamente na hora em que eu retocava a letra da faixa três, a última do Lado A:

Portas da Percepção (5m15s)

(Letra: Januário Ladeira; Música: David Gilmour:


Apenas um lapso poderá nos unir / Algo de novo, intensa energia a fluir

Que, veloz, atravesse o universo / E chegue a este canto e este verso

Para redimir nossas vidas de miséria / Asteroide superbactéria

No hipocampo um novo som / Saturno, Alnitak, Zeta Orion.

Não um telefone que não cessa de tocar / Com notícias horrores para dar

Que venha do tempo a novidade / E transforme esta cidade

Basta de falsos discursos políticos / Basta de sangrentos generais paleolíticos

A trancar as portas da percepção / A interromper vidas com uma torção

A atirar em crianças perdidas / A nos colocar em rodas vivas

Venha de além do Cruzeiro do Sul / Nos braços de um Gigante Azul.


Agora só precisava do endereço do David Gilmour para mandar a carta com os versos. Mamãe e Biriba abriram a porta da sala com animação.


"...se um dia alguém bater à sua porta e levar uma mensagem em meu nome, eu vou contar com sua discrição e fidelidade canina"

— As aulas de direção começam no dia 25 de dezembro! — disse mamãe


— A autoescola fica na Vila Aimoré — disse o Biriba.


— A gente foi recebido pelo próprio diretor-presidente — disse mamãe.


— Ele é médico, tem até diploma na parede do escritório — disse o Biriba.


— Formado pela Universidade José Velhaco, de Alfinetes — disse mamãe.


— Inclusive no andar de cima ele tem um consultório — disse o Biriba.


— Ele trabalha no Instituto Médico-Legal de Tijuco Verde — disse mamãe.


— Não é de funcionário público, é particular — disse o Biriba.


— Ele recebeu a gente muito bem — disse mamãe.


— Ofereceu água, café e biscoito de água e sal — disse Biriba.


— Comentou que era uma honra receber alguém indicada pela Dra. Andréa Catapreta — disse mamãe.


— E que foi aquela procuradora que conseguiu junto ao pessoal da polícia seu trabalho como informante — disse o Biriba.


— Também foi ela que incentivou ele a cursar Medicina — disse mamãe.


Perdi a paciência e interferi naquele pingue-pongue:


— Vocês podem escolher quem vai contar, em vez de se revezarem como um jogral? E, por favor, dispenso a biografia desse sujeito. O principal: quanto vai ser a facada?


— Fale você tudo, Biriba — pediu mamãe.


— Aí vem a boa notícia. O homem explicou que aquilo não era uma bolsa de estudos, mas um empréstimo pessoal. Um empréstimo que talvez sequer necessitasse ser ressarcido no futuro, mas se o for, será com algum serviço de sua mãe. Ele disse mesmo assim: “Pode não ser amanhã nem daqui a um ano. Pode até ser que nunca venha a procurá-la. Mas se um dia alguém bater à sua porta e levar uma mensagem em meu nome, eu vou contar com sua discrição e fidelidade canina”.


— Vocês estão falando sério? Qual é o nome mesmo dessa autoescola?


— Auto Iscola Aimoré — respondeu mamãe.


— É escola, mãe. Com a letra E! Não é Iscola!


— Não, filho, o nome da empresa é esse mesmo: Auto Iscola Aimoré.


— Tá, e você se lembra do nome do dono?


— O diretor-presidente? É o Dr. Benedito. Benedito Montana. Aliás, na hora fiquei encafifada. Você não tinha um amigo com esse nome?


Engoli a seco. Seria o traumatizante Benedito Montana? Benedito Montana, o anti-sistema que se recusava a tomar banho? Benedito Montana, responsável pela inflamação perpétua de meu hipocampo devido aos seus medonhos supositórios veterinários? Benedito Montana gaitista e tocador de bongô da Banda Lá Bemol?


— E ele garante a aprovação nos exames. Nem precisarei dar caixinha ao fiscal do Detran.


— Mãe, se essa pessoa for quem estou pensando, acho que você acaba de se meter na maior fria de sua vida.


 

Os três episódios da série A Igreja do Gigante Azul são de autoria de Guilherme Purvin, editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, Gulherme escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

36 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo