O Encontro Marcado

- Guilherme Purvin -



Dia 24 de dezembro não havia expediente na SDSE. E era uma quarta-feira, dia de folga da Fernanda. Passei bem cedinho em sua casa e convidei-a para ir comigo à Auto Iscola Aimoré. Com os olhos inchados de sono, ela pediu um tempinho para se arrumar. Passou um batom vermelho e calçou saltos altos.


— Não precisava vir tão emperiquitada, Fernanda. Muito menos usar saltos altos, porque você já é bem maior do que eu.


— Fiz isso só pra ficar mais bonita — disse ela, dando um sorriso com aqueles dentes tão lindos de caixa de padaria, não obstante poluídos do corante do batom vermelho. — Afinal, esperava por este dia há tantos anos!


Tomamos um ônibus que nos levou para a Vila Aimoré, uma região de Tijuco Verde que conheço muito pouco. Logo encontramos a imponente Auto Iscola Aimoré com sua heráldica característica: um desenho tosco de uma Ferrari dentro de um escudo, ladeado pelas letras amarelas A I A I nos quatro cantos, inseridas em estrelas azuis. Abaixo do escudo, uma faixa estendida com a frase “Sempre Montana Acima”. Toquei a campainha e daí a instantes apareceu um senhor de terno e gravata. Não podia ser o Benedito Montana que eu conhecia. Tá certo que não o via desde a época de meus estudos para o vestibular na faculdade, mas ele não poderia ter mudado tanto. Fernanda trocou olhares comigo, dando a entender que conhecia de algum lugar o sujeito à nossa frente.


— Vocês se lembraram, meus amigos! — gritou o sujeito, abrindo os braços e vindo em nossa direção.


— Desculpe — disse eu, sem conseguir evitar o abraço. — Deve estar enganado, sou filho de uma nova aluna de sua autoescola e só vim tirar umas dúvidas.


— Não estou enganado coisa nenhuma! Você é meu inseparável amigo Januário Ladeira, cofundador da Banda Lá Bemol! E você é a Fernanda, que estava com a gente no dia 24 de dezembro de 1971, quando celebramos nosso pacto de reencontro quinze anos mais tarde!


Eu não me lembrava de absolutamente nada e tampouco conseguia associar aquele sujeito todo empertigado com o meu “amigo” de infância e adolescência. Fernanda, porém, batia palmas e fazia festinha, comemorando aquele encontro agendado supostamente há tanto tempo.


— Conheci a Fernanda há algumas semanas. Trabalha de caixa na Padaria Santa Cecília. Não sei do que você está falando.


O homem de terno voltou-se para Fernanda:


— O que há com o Januário, Fernanda?


A moça encolheu os ombros e comentou:


— É que foi há muitos anos! A gente se confunde mesmo, esquece coisas da infância e da adolescência. Eu mesma não me lembrava quem era o Eric Clapton.


— Não acredito que você tenha se esquecido dela, Januário! A Fernanda era de outra turma, mas vocês não se desgrudavam!


— Na verdade, eu me lembro um pouquinho... A gente colecionava piche, tampinhas de garrafa e maços vazios de cigarro — disse ela, pisando em ovos para não me magoar insinuando que eu era um desmemoriado.


— Quando eu conheci vocês, os dois estavam agachados na calçada próximos ao ponto de ônibus da Avenida Coimbra, abrindo um envelope amarelo de cigarros Beverly.


— É verdade isso, Fernanda?


— Olha, Januário, eu me lembro que estava com um amigo do bairro no ponto de ônibus, onde sempre tinha muita coisa atirada ao chão pelos passageiros. Principalmente maços vazios e pontas de cigarro. Eu desamassava os maços com bastante cuidado para não rasgar sem querer. Quanto ao Dr. Benedito, acho que era o cara meio atarracado e cheio de espinhas no rosto que apareceu lá de repente vestindo uma camiseta velha esburacada. A gente achou que o cara também vinha catar maços vazios.


— A camiseta tinha uns buraquinhos, mas cada um deles contava uma história. Uma enganchada numa cerca de arame farpado, a brasa de um cigarro... Aquele era eu! Agora consegue se lembrar, Januário? Eu perguntei se vocês não tinham uma ponta, porque o que eu queria era dar um pega numa bituca. Não acreditei na babaquice de vocês, colecionando embalagem usada.


— Eu nem sabia o que era “uma ponta” — disse Fernanda. — Você foi o cara que ensinou a gente a fumar aos dez anos!


— Eu me lembro do primeiro cigarro que fumei. Foi um dia antes da viagem que fiz com meus pais de caminhão e com o César até Chumbinho. Fiquei com tontura.


— E eu me lembro do show do Bobbio Dylan — disse Fernanda.


— Sim, o cover do Robert Zimmerman! Foi no Festival de Rock de Tijuco Verde. Mas vocês não entendiam inglês! Foi um fiasco! O Bobbio tava super interessado em sua coleção de embalagens e vocês, com aquela cara de tontos, só pedindo pra ele tocar Blowing in the wind!


Os dois ficaram falando por mais de meia hora, de pé diante da porta de entrada da Auto Iscola Aimoré, sem que o empresário se dignasse a nos convidar para entrar. O que eu me lembrava era que Benedito morava com a avó numa rua ali mesmo pelas bandas da Vila Aimoré. Eu nunca ia procurá-lo, ele sempre é que aparecia em minha rua, sem avisar. Não tinha o hábito de telefonar (ou não tinha telefone). Simplesmente perambulava pela cidade e ia tocando a campainha das casas de seus conhecidos. Se não encontrasse um na Rua Alfa, por exemplo, seguia para a Rua Omega ou para a Rua George Harrison. Imagino que, para chegar à minha casa na Rua da Lama, devia ter tentado antes uns trinta amigos. É que as mães da cidade, ao verem o cara na porta de suas casas, diziam que os filhos não estavam, que estavam estudando ou dormindo, ou então que estavam com caxumba. Aí ele ia tocar outra campainha na redondeza. Meus pais não se preocupavam com a ficha corrida ou a árvore genealógica de meus amigos de rua, por isso era sempre fácil da gente se encontrar.


Em nossas primeiras andanças, Benedito Montana me ensinou a enfiar morteiros de São João nas caixas de correio para destruir correspondência alheia. Ou então a esvaziar pneus dos carros estacionados na rua, enfiando palitos de fósforo na válvula. Mas o que mais gostávamos era de furtar brucutus, que era o nome que dávamos à peça que esguicha água no pára-brisa. Mas absolutamente não me recordava da presença de Fernanda ao nosso lado. Lembrava-me, sim, da Joaninha, filha do Melquíades.


Mas essa fase dos furtos e vandalismos durou poucas semanas. Acabamos parando no Juizado de Menores, numa manhã de domingo em que fomos apanhados em flagrante arrancando brucutus dos carros do promotor público de Tijuco Verde e de sua esposa, uma modelo fotográfico muito requisitada para posar em anúncios das lojas da cidade. Os carros estavam estacionados na garagem do Edifício Realidade e achávamos que ninguém estava nos vendo.


— Você se lembra, Benedito, do dia em que fomos algemados pelo promotor e levados às barras dos tribunais?


— Pedi para chamarem o seu pai por telefone. Ele se comprometeu a pagar pelo conserto e fomos liberados. Muita burrice, essa de roubar brucutu no fim de semana, quando os donos dos carros estão em casa — ponderou o agora médico-legista e diretor-presidente da autoescola.


Um dia Benedito Montana chegou em minha casa com uma gaita e um compacto simples. O lado A era “Heart of Gold”, mas o que acabei gostando foi do lado B, “Sugar Mountain”. A gaita, ele tocava muito mal, mas a imitação que fazia da voz do Neil Young era perfeita. Foi por essa época que começamos a ensaiar nosso repertório. O César tinha ganho há muito tempo um violão, mas nunca se interessara pelo instrumento a não ser para tocar, diante de uma partitura, músicas enfadonhas do Aguado, Sor e Tárrega. Quando ele não estava em casa, eu pegava seu violão e, incentivado pelo meu parceiro de rua, ia aprendendo as posições básicas que não exigiam pestana: E, Em, A, Am, A7, C, D, Dm, D7 e G. Isso foi, por pelo menos um ano, suficiente para muitas horas de improviso, dando origem ao grupo Lá Bemol. Quando meus pais saíam nos finais de semana, nossos ensaios se estendiam por toda madrugada. Bebíamos bules de café e um licor chamado Fogo Paulista, que intercalávamos com pinga. Fumávamos cigarros reciclados de pontas achadas na rua. Quando não havia tabaco, fumávamos chá mate – e por mais ou menos uns cinco anos seguidos continuamos a compor e gravar em fitas cassete detonadas. Sonhávamos em trazer para a banda alguma contrabaixista loira e sexy, fã do Pink Floyd, que também cantasse pra fazer dueto com o Benedito Montana. Uma garota tipo Suzi Quatro cantando 48 Crash e Can the Can, mas que também entendesse de Física como Marie Curie e de Revolução como Rosa Luxemburgo. Nossa preocupação maior nesses tempos era com o perigo de nos entregarmos ao Sistema. O Sistema tinha seus tentáculos em todos os lugares, não apenas junto ao mundo dos mais velhos, aos bancos e aos governos. Estava também na própria música, em músicas de apenas três minutos, supostamente rock and roll, mas na verdade compostas para tocarem nas estações comerciais de rádio. O Benedito Montana me dizia: “Januário, a gente precisa ficar atento. Temos que descobrir um esquema de ganhar dinheiro para sobreviver, mas sem aceitar as regras do Sistema”. Eu não via como alcançar aquele objetivo, até mesmo porque estava plenamente convencido de que o próprio dinheiro era uma criação do Sistema. Argumentava com ele que quem imprime as cédulas é o governo. Usar dinheiro é aceitar as regras do jogo, porque quando lavo o carro de um vizinho em troca daquele papel, estou convencido de que terei o direito de beber uma cerveja acompanhada de um prato de tremoço. Mas não é o dono do carro que vai me dar a cerveja e o tremoço. É o Sistema que vai me dizer que posso confiar naquele pedaço de papel que meu vizinho está me entregando como retribuição por eu ter ficado uma hora limpando seu carro. E que vai haver um crédulo, o dono do bar, que também vai acreditar que aquele papel dá o mesmo barato que uma garrafa de cerveja e um pratinho de tremoço que ele entrega ao freguês. Ou seja, a gente acaba formando uma corrente de trouxas que confiam no Sistema. Até que o Sistema diz para quem estava com o dinheiro na mão por último: “danou-se, idiota, você juntou por toda a vida um monte de papel que não serve nem para anotar nada, porque daqui pra frente só sobrevive quem souber onde tem água pra beber e fruta pra comer”. Com medo de que o Benedito Montana não conseguisse entender meus argumentos, eu me limitava a tentar traduzir minhas ideias obscuras em letras de música que, gradativamente, dariam origem à ópera-rock A Igreja do Gigante Azul.


Quando chegou a época de preparação para o vestibular, acabei me afastando do Benedito Montana. Nunca mais tive notícias suas, até a noite passada, quando o Biriba e minha mãe vieram falando de um médico dono de autoescola oferecendo curso grátis de habilitação em troca de fidelidade de mamãe à Máfia. Ora, eu me lembrava apenas de um sujeito sempre com a mesma jaqueta surrada de brim, justa demais até mesmo para seu corpo franzino. E também de seu mau cheiro, seu cabelo espesso e lustroso, sua cabeça sempre baixa, um ar de quem não quer que identifiquem seu rosto. O sujeito que estava ali usava terno da Armani, sapatos de couro preto impecavelmente engraxados, mais com pinta de colega do Dr. Giorgio Peres do que do meu parceiro de banda. Podia até ser geneticamente o Benedito Montana, mas não era mais o velho querido e intragável Benedito Montana dos supositórios veterinários que conheci outrora. Limitei-me a dizer:


— Quem te viu e quem te vê!


Autoconfiante, o cara olhou diretamente para os meus olhos, apertou meu ombro esquerdo e disse:


— Cara, não é o que você está pensando. Não me vendi. Entenda uma coisa: eu estou apenas fantasiado de Sistema. No entanto, continuo jogando meus morteiros acesos nas caixas de correio. Simbolicamente, claro. Nestes últimos anos, conheci muitos lugares. Fui até mesmo para São Paulo. Frequentei o Clube Harmonia, a Hebraica, o Pinheiros, o Sírio, sempre acompanhando o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata, como seu segurança. Não desgrudei dele quando ele foi para o Palácio da Alvorada conversar com o Presidente Sarney, para a Confederação Nacional das Indústrias prestar consultoria ao Dr. Pompeu. E, em todos os lugares onde ele ia, eu permanecia impassível, de terno preto e óculos escuros, parado como uma estátua, mas ouvindo tudo o que falavam. Até que o Dr. Basílio me designou para ser o segurança da Dra. Andréa Catapreta, que vinha sendo ameaçada de morte por alguns proprietários de bares lacrados por ela. Eu é que tive a ideia de levar a mulher ao Sindicato dos Similares, para que tudo fosse resolvido na cúpula. A mulher nunca mais foi ameaçada e hoje ela é respeitada por todo dono de padaria, bar ou hotel da região. Foi por isso que ela fez questão de pagar o meu curso de Medicina na Universidade José Velhaco de Alfinetes. Januário, nosso encontro estava marcado há quinze anos. Agora é hora de nós três destruirmos essa porra de sistema por dentro!


— E minha mãe?


— Que tem sua mãe?


— Ela é aluna sua e você fez um pacto mafioso com ela, em troca da bosta de uma carteira de habilitação.


— De quem você está falando?


— De minha mãe, Benedito Montana. Ela veio aqui ontem com o Biriba para conseguir um desconto e você a ameaçou!


— Aquela coroa gostosa é sua mãe?


— Benedito, respeita Januário! — protestou a Fernanda.


— Januário, em primeiro lugar, me desculpe, porque eu nem sabia quem era ela. Em segundo lugar, o trato foi bem equilibrado. Vamos que um dia eu precise que ela esconda um revólver ou uma faca. Não custa nada! Uma mão lava a outra. É assim que a gente vai conseguir foder o Sistema.

Fernanda fez uma careta de desgosto.


— Prefiro uma revolução proletária — disse ela.


— E eu prefiro uma revolução musical e literária — obtemperei.


— Então vão se foder. E diga pra sua mamãe que não vai ter mais aulinhas grátis aqui na AIAI.


Fomos embora sem chegarmos a um entendimento. Agora minha intenção era descobrir essa história de Fernanda dizer-se minha amiga de infância. E, se possível, propor a ela que revistasse novamente a minha roupa em busca de armas.

 

O Encontro Marcado é o 21º episódio da série A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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