RELATOS SOBRE UMA JÓIA BRASILEIRA

-PATRÍCIA BIANCHI-


Era só mais uma viagem. Eu e Alexandre partimos felizes para Fernando de Noronha. Só pela fama que o lugar tem, muito em razão das belezas naturais, já saímos de casa animados. O arquipélago brasileiro é distrito de Pernambuco, e é gerido por um administrador-geral designado pelo governo do estado. Situa-se no Oceano Atlântico, a nordeste do Brasil continental.

Foi uma das primeiras terras localizadas pelos exploradores do Novo Mundo. Sua descoberta, em 1503, é atribuída ao navegador italiano Américo Vespúcio, participante de expedição exploratória às costas brasileiras, financiada por Fernão de Loronha. “O paraíso é aqui”, teria dito Vespúcio quando avistou aquela ilha deserta.


Chegamos ao arquipélago, e o dia seguinte começou cedo: visita a belos lugares e paisagens, histórias contadas por Abel, o guia local, que descrevia em detalhes os monumentos e lugares da ilha. Pausas para as fotos, afinal, como não registrar aqueles cenários de cartão postal, como se esquivar dos pontos específicos já pensados para que tivéssemos uma lembrança gloriosa daquela experiência. Claro que houve exageros, alguns colegas estavam alheios às histórias, e focados apenas no registro.


O grupo era interessante, Abel o coordenava com voz firme, demonstrando uma preocupação genuína com a segurança das pessoas. Estávamos sob a sua responsabilidade. Assim, as limitações eram normalmente impostas, e as advertências sempre postas. Lá se fomenta a sensibilização da sociedade para a necessidade de conservação da natureza. Ficamos encantados com tanta beleza, inserta num ambiente visivelmente organizado e preservado.


O trabalho dos noronhenses parece ter uma via de mão dupla: há uma administração governamental, mas também há uma formação, um belo trabalho de educação ambiental da comunidade local. Isso mantém o balé entre comunidade e órgãos locais, e reflete-se também na condução dos turistas. Faltam alguns ajustes na política de sustentabilidade do arquipélago - para que ele possa, quem sabe num futuro próximo, formar pessoas, cientistas, lideranças locais de outro lugares - como agentes multiplicadores do modelo de política sustentável aplicado nas ilhas. Mas o caminho ainda está sendo trilhado.


Voltando à visão peculiar que tive na Praia do Sancho, em meio à tanta beleza, não imaginava a experiência sensorial que estava por vir. Entramos na trilha suspensa rumo à Baía do Sancho em direção à famosa praia. Já a havia visto em fotos e na televisão. Sinceramente, não tinha me impressionado muito. O Sancho é uma praia localizada a oeste do Morro Dois Irmãos e a leste da Baía dos Golfinhos. Na porção central da baía há rochas que abrigam uma diversificada fauna e flora marinha. De janeiro a junho, é época da desova das tartarugas, por isso entre as 18h e 6h a visita é proibida.


Fonte: http://especiais.ne10.uol.com.br/fernandodenoronha/2015/04/27

À primeira olhada, lá de cima, parecia normal, como as muitas outras praias que já conheci. Descemos uma escada de dois lances encravada na rocha, extremamente íngreme, e mais um lance de areia. O lugar é apertado, quase não dá pra se mexer, e precisa-se ter cuidado e atenção com as pedras e pessoas que vêm e vão. A propósito, o acesso à praia pode se dar por barcos, no dia que estivemos lá havia apenas um; ou pela descida do penhasco, via aquela escadaria.


Já na praia, quando pisei a areia, fiquei por um minuto contemplando o lugar. A paisagem é única, de arrepiar. Não havia burburinhos, conversas, carrinhos de picolés ou quiosques. Havia pouquíssima gente, a praia é isolada, coroada por uma falésia gigante, onde pássaros constroem seus ninhos. Os sons eram quase exclusivos da Natureza: o barulho das águas chocando-se com as rochas, os pássaros, o vento sutil balançando as folhas das árvores. A areia cor de pérola termina numa espuma branca, que se segue de um mar com águas mornas e coloração verde-esmeralda. Uma jóia brasileira!


De repente, senti uma sensação estranha. A contemplação daquela beleza vinha acompanhada de certo medo! Mas, medo? Então tentei descobrir a causa daquela sensação. Olhei aquela parede gigante de rochas vulcânicas, adornada com pássaros e vegetação nativa, ouvi com uma atenção maior a força das ondas batendo nas pedras, e disse ao Alexandre: esse local me remete a filmes como King Kong, Jurrassic Park, Avatar. Sim, Noronha é um arquipélago vulcânico de incrível beleza cênica. O conjunto de ilhas formou-se há cerca de 12 milhões de anos, e registra uma história vulcânica que se associa com a formação do Oceano Atlântico há cerca de 140 milhões de anos.


Estar na Praia do Sancho era como se pudéssemos voltar no tempo, vivenciar os primórdios, uma realidade paralela. Nela, a natureza se impõe, ela é forte, bela e soberana. E, diante desse cenário colossal, entendi um pouco o meu medo. Senti que ali não domino, não maltrato, não destruo, mas estou inserida no contexto natural, o máximo possível seria interagir de maneira respeitosa. Ali, entendi que sou um ínfimo detalhe, talvez tenha me sentido pequena em vários sentidos. De outro vértice, por uma fração de segundo me senti grande por estar ali, pelo simples fato de poder desfrutar daquele momento mágico, porém real. Fiquei, sinceramente, emocionada com tantos sentimentos despertados por aquela aparição.


Parte do grupo ficou andando ao longo da areia, outros se sentaram apenas para contemplar aquele lugar. Caminhei em direção da água, das ondas. Em razão de um fenômeno natural chamado swell, o mar estava com belas e fortíssimas ondas, ele estava, como dizem por lá, revolto. Particularmente, somei o swell, com o céu azul e a água verde-esmeralda, e não visualizei um mar revolto. Vi beleza naquela força toda, e naturalidade também. Falei pro Alexandre: se existe o deus dos mares e oceanos, é certo que ele mora aqui!


Dei alguns passos mais adiante, com o intuito de chegar mais longe, de interagir e me misturar ao mar, queria chegar onde as ondas estavam se formando, ou mesmo além delas. Nesse momento, um morador da ilha veio até mim e perguntou sorrindo: você foi criada em praia? Tem intimidade com o mar? Imediatamente, Alexandre avançou com a resposta: sim, ela conhece. Ouvindo isso, o provável guia deu meia volta, nadando rumo à terra firme.


Com relação aos poucos conhecimentos que trago sobre o mar, sei que enquanto o verde da água não escurecesse adiante, eu provavelmente poderia avançar mais um pouco. Além disso, sei que as ondas devem ser atravessadas abaixo da linha das quebras, isso diminui o impacto ou a resistência das águas com o corpo. Contudo, resolvi voltar. Fiquei alguns minutos por ali, e retornei a um ponto mais raso, e depois para uma caminhada ao longo da areia.


Além dessa sensação única e inusitada, Fernando de Noronha tem uma história pra lá de interessante, cheia de detalhes surpreendentes. Da instalação de um Presídio Político na década de 40, quando era um Território Federal Militar, até a reintegração em 1988 ao Estado de Pernambuco, o lugar ainda foi declarado pela Unesco Patrimônio Natural da Humanidade em 2001. Até mesmo Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução das Espécies, lhe prestou uma visita no século XIX!


O arquipélago é uma região geoeconômica, social e cultural do estado de Pernambuco, que se encontra inteiramente protegido pelas Unidades de Conservação (UC) federais. Sim, falta um considerável caminho a percorrer para que o lugar seja um modelo de sustentabilidade para o resto do país, e quem sabe para o mundo. Mas eles estão no caminho certo. Ainda precisam investir em auto-suficiência energética, em energia solar ou eólica, a ilha apresenta excelentes condições para a implementação das duas. Nesse ponto, talvez falte vontade política. Hoje o arquipélago é abastecido por termoelétrica a diesel, e as tentativas de alteração desse quadro ainda são muito tímidas na prática.


Outro ponto crítico é a questão do acesso. O preço das passagens aéreas, e de quase todos os produtos e serviços da ilha são exorbitantes, se comparados ao restante do território nacional. E isso promove uma automática segregação, um turismo de elite. Nesses termos, não há justiça ambiental e, por conseguinte, não pode haver sustentabilidade em seu sentido mais amplo. Por isso, deve-se pensar numa forma de democratizar o acesso, e possibilitar que pessoas não ricas também possam usufruir, claro que de forma ordenada como hoje, esse patrimônio nacional.


Outra questão é que, em Noronha, como em qualquer outro lugar, a intervenção humana pode ter efeitos negativos e alterar o equilíbrio da natureza e dos ecossistemas. Lá, a introdução dos lagartos teiús, na década de 50, com o fim destes se alimentarem dos roedores (ratos) trazidos pelos europeus é um exemplo disso. Só não sabiam, outrora, que os ratos têm hábitos de vida noturnos, e os teiús diurnos. Hoje esses lagartos já são considerados hóspedes indesejados por lá. Eles, além de serem predadores de espécies consideradas em extinção nas ilhas, também são portadores de patógenos que ameaçam a saúde das pessoas e o turismo da região. Atualmente, sua reprodução se dá sem nenhum controle. E dizem que o bicho ainda sabe nadar, o danado, frustrando os planos de isolamento por terra.

Por fim, com relação à ideia das jóias, sempre preferi bijuterias emoldurando os dedos, e as verdadeiras jóias junto ao meu entorno. Se dependesse de mim, minas de ouro, diamantes e carvão estariam fechadas, ou seriam operantes apenas quando o seu fim justificasse, de fato, os prejuízos ao meio em que vivemos. Talvez essa simples equação pudesse redefinir uma relação mais sustentável com a natureza, algo mais próximo de uma simbiose, e menos como uma dominação quase que exclusivamente econômica. Talvez assim conseguíssemos evitar que paraísos espalhados pelo Brasil fossem extintos, assim como ocorreu com os dinossauros, aqueles jurássicos que ainda assombram a quase mística Praia do Sancho.

 

Patrícia Bianchi é Doutora pela UFSC. Pós-doutora pela USP e pesquisadora na área ambiental.


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