PANDEMIA

- Paulo Velten -


Imagem: 1202707966/Getty Images (Superinteressante).

Os nazistas talvez tenham sido os primeiros da modernidade a desenvolver a obsessão pelos limites do corpo. As barbaridades cometidas nos campos de concentração não foram apenas fruto de perversidade, havia também propósitos, digamos, “científicos”. Existiu um conluio entre a ciência médica e o nazismo, isso está devidamente documentado pela história, mas o leitor pode conhecer um pouco na obra Homo sacer de Giorgio Agamben.

Em que pese a condenação do Nazismo pela história, algumas de suas técnicas desenvolvidas em campos de concentração para controle absoluto e minucioso dos corpos de vítimas foram incorporadas pelo sistema ocidental de produção.

O domínio do corpo talvez seja o que há de mais característico da condição humana. Sobre o corpo é imposta uma rígida disciplina, em cada propaganda, em cada programa televisivo, em cada programa de governo.

O título do filme “A pele que habito”, de Pedro Almodóvar, simboliza todo o sentido buscado aqui, ou seja, há tempos o corpo cindiu-se de seu habitante, o que se faz do corpo não é mais de âmbito pessoal, antes, é objeto da política, Agamben chama isso de “vida nua”.

Foucault e muitos depois dele denominam isso de Biopolítica, mas essa política do corpo avançou também sobre os espíritos. Os nossos espíritos, tal qual nossos corpos, agora também são manipulados, o destino não comanda nem nosso amor nem nosso ódio, ambos são virtuais, nossa alma foi acorrentada pelos smartphones às redes sociais. Hegel estava errado, afinal, o espírito não é apenas um osso.

Pois bem, com esta pandemia parece que a Biopolítica avançará para outro nível de complexidade, o auto isolamento social é uma experiência que está se tornando cotidiana, é uma exceção que está virando regra. Em breve recuperação histórica podemos observar que são experiências já testadas; por exemplo, aqui no Espírito Santo já vivenciamos isso quando da greve na PM de 2017, obviamente que por motivações de segurança pública. No Rio de Janeiro, é comum o isolamento de comunidades inteiras por força de cercos policiais. Outras experiências não menos traumáticas têm exigido um disciplinamento coletivo digno de quartéis, como por exemplo, nos recentes surtos de H1N1, febre amarela, SARS e outras.

Se ampliarmos um pouco mais a lente de observador, veremos que não são poucos os grupos sociais vivendo em estado de sítio ou em estado de emergência, não são poucas as pessoas que estão vivendo como cães amarrados.

Uma expressão utilizada por Foucault representa bem a crise provocada pela escassez de leitos de UTI nos hospitais, ele referia que o mecanismo funcionava a partir da lógica de “fazer viver e deixar morrer”. Eis a encruzilhada!

Entretanto, se antes pudéssemos interpretar a expressão como um poder pretendido pelo Estado, agora não mais. O “cuidado de si e do outro” (outra expressão foucaultiana) é que mediará o limite entre a vida e a morte.

Mas isso não é completamente novo, o mesmo Foucault ensinou que desde Sêneca tais técnicas já existiam, e que consistiam em: exame de consciência, a escrita de si, a correspondência, a meditação e os procedimentos de aprovação e interpretação de sonhos. Me parece importante recordar estes pontos como estratégia de enfrentamento do isolamento social e postergação de surtos psicóticos.

Este texto surge a partir da terceira fase da técnica de cuidado de si, ou seja, a necessidade de correspondência que, na verdade, é um convite à reflexão sobre os seguintes problemas: Considerando que todos os atos de combate à pandemia são excepcionalíssimos, pode-se deduzir que o mecanismo de controle biopolítico esteja sendo ampliado para outro nível de complexidade? Diante disso, é razoável ou ilusório pensar que este é um evento passageiro e momentâneo e que tudo voltará à normalidade?

Paulo Velten é Pós Doutor, Professor na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e associado à APRODAB e ao IBAP.


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