O MITO MATA

-José Augusto Garcia de Sousa-


“Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo. Todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. A morte de qualquer homem diminui a mim porque estou envolvido na humanidade. Por isso não mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti!”

John Donne (poeta e reverendo anglicano que viveu no século XVII)


Tem afirmado o presidente Messias que todos vamos morrer um dia. Para variar um pouco, a mais pura verdade. Mas certamente não seria preciso acelerar tanto, entre nós, essa fatalidade biológico-existencial.


Charge - Laerte

Na semana passada, perdemos a enfermeira P., de 35 anos. Fanática pelo presidente, recusou-se a tomar a vacina CoronaVac e foi demitida do hospital em que trabalhava. Reinfectada pelo coronavírus, não resistiu. Perdeu o emprego e logo depois a vida, deixando um filho de 2 anos.



Caso similar foi o da cantora R., 39 anos. Fidelíssima ao discurso presidencial, criticava o isolamento social e o uso de máscara, além de dizer que “quem é de Jesus nem gripado fica”.


Também foram vencidos pela Covid o jovem pastor T. (36 anos), defensor fervoroso da cloroquina, e o apresentador S., 49 anos, que usava o seu popular programa televisivo para difundir vigorosamente ideias negacionistas, ao mesmo tempo em que combatia, com igual veemência, os adeptos das medidas de isolamento.


Relatos tais acham-se copiosamente. Não é necessário identificar plenamente as vítimas. Nem cabe, a essa altura, recriminá-las. Toda morte significa uma grande tragédia espiritual. Os casos citados representam tragédias, sob certo aspecto, ainda mais cortantes. Trata-se de pessoas que se entregaram a uma paixão, e por ela pereceram. Acreditaram piamente no canto de sereia da “gripezinha” — trombeteado a toda semana pela maior máquina de propaganda que já existiu no país — , e por isso são pranteadas, agora, por familiares e amigos.


Façamos, a propósito, algumas contas simples. O país já passou de 255 mil mortes pela Covid, e avança célere para marcas mais calamitosas. Por outro lado, mais de 30% da população brasileira considera o governo Bolsonaro bom ou ótimo, e segue religiosamente as palavras canônicas e os exemplos nobilíssimos do seu camarada supremo. Pois bem, supondo-se que apenas 20% das mortes — um índice extremamente subdimensionado — tenha como causa relevante a adoção dos comportamentos negacionistas compulsivamente preconizados pelo presidente, chega-se a pelo menos 50 mil mortes, que tendem a crescer muito mais. Cifra digna, sem dúvida, de um autêntico mito.


Ainda que esse massacre inaudito não venha a ser imputado penalmente a Messias em um tribunal interno ou internacional, seu governo não pode deixar de ser responsabilizado, ética e politicamente, por tanta dor. Em função não só das políticas desastrosas de enfrentamento à pandemia — como a política da “vacina zero” (ou quase isso) —, mas em virtude também das palavras atiradas, a todo momento, pelo seu líder. Conforme mostra fartamente a história, palavras podem ferir e matar mais até do que armas de fogo, não por acaso outro instrumento de destruição adorado pelo Messias e seus seguidores.


Faltou falar de uma responsabilidade ainda mais crucial. Há vários séculos, o reverendo John Donne, cujas palavras inspiraram o título de um famoso romance de Ernest Hemingway, já dizia que a morte de um ser humano, qualquer que seja, não pode ser ignorada pelos seus semelhantes. Caso a sociedade brasileira — notadamente as suas instituições mais influentes — continue frouxa e omissa perante esse escancarado aparato antivida que se instalou no país, é sobretudo em nome dela que dobrarão, com merecida fúria, os sinos da vergonha e da desonra.


José Augusto Garcia de Sousa é Defensor público e professor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


103 visualizações1 comentário