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Rachel de Queiroz e a Escrita Feminina na Literatura Brasileira



-SHEILA PITOMBEIRA-




Foto - Wikipedia - Domínio Público - Posse na Academia Brasileira de Letras

A “série de autoria feminina”, da Revista PUB Diálogos Interdisciplinares, uma iniciativa do Escritor e Professor Guilherme Purvin, sócio fundador da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil - APRODAB, e do Instituto Brasileiro da Advocacia Pública – IBAP, objetiva realçar a escrita feminina, nas diversas perspectivas de interesse das autoras participantes, como um gesto político de homenagear as Mulheres.


Assim, não poderia deixar de aceitar o convite e participar dessa homenagem, desse momento. Mas, agora, na hora de me desincumbir dessa instigante tarefa, inclusive falando sobre a escritora Rachel de Queiroz, que admiro e me deleita, nem sei por onde começar. Não é fácil escrever, falar sobre quem se reverencia.


Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910 (1), tendo vivido em Quixadá, Município localizado no sertão central cearense(2), onde testemunhou os desdobramentos das agruras sofridas pela população sertaneja na seca de 1915 (3) e para onde sempre retornava, passando temporadas na Fazenda Não me Deixes (4) após fixar morada na cidade do Rio de Janeiro. Faleceu em 4 de novembro de 2003 no Rio de Janeiro. Foi a primeira escritora a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 4 de agosto de 1977 (5), e a primeira escritora a receber o Prêmio Camões de Literatura, em 1993 (6), dentre outros títulos e homenagens recebidas.


Dois anos após concluir o Curso Normal, cuja diplomação ocorreu em 1925 no Colégio Imaculada Conceição, em Fortaleza, período retratado no livro “As Três Marias”, Rachel de Queiroz estreou como cronista no Jornal O Ceará, com o pseudônimo de Rita de Queiroz (1927).

 

Em 1930, com apenas 20 anos, publicou o romance “O Quinze” (7) onde retrata a realidade socioeconômica do sertão cearense afligido pela seca mais severa ocorrida no primeiro quartel do século XX (8). A narrativa do romance tem uma linguagem direta na abordagem do cenário da seca e suas consequências no sertão e na cidade (9).

 

A seca, com a consequente falta d´água, resulta na morte dos animais por sede e fome, na perda dos produtos cultivados (feijão, mandioca, milho, algodão etc.), no desemprego e desamparo das famílias, inclusive das que eram agregadas às grandes propriedades, cujos donos, a exemplo de Dona Maroca (O Quinze) (10), “abria as porteiras do curral” e os agregados que ganhassem o mundo porque não haveria mais serviço para ninguém.

 

No livro, essa estrutura social e a reprodução desse cenário são sensivelmente percebidos pela personagem Conceição, protagonista da obra. Uma jovem professora, filha e neta de grandes proprietários de terra em Quixadá, que toma consciência da perversa realidade de produção agrícola no sertão e do sistema patriarcal dominante. Não obstante essa realidade, busca um lugar, o seu lugar nesse circuito entre o sertão e a cidade, de modo a não ser subjugada pelo sistema nem constrangida a condicionar seus interesses, inclusive de trabalhar, estudar e participar da vida pública, aos interesses e vontades de um marido.


A estória é contada a partir dos diálogos entre os personagens, com uso de expressões regionais segundo o jeito local de falar e externar suas angústias, sentimentos e anseios. Pelo relato, na ocorrência da seca, o agregado, arrendatário, vaqueiro, trabalhador livre ou o pequeno proprietário eram todos retirados do seu lugar em face da nova realidade: falta de água, comida, trabalho e condições mínimas de permanecer na moradia. Tornavam-se, assim, retirantes da seca em busca de uma opção de sobrevivência na cidade, onde não eram bem vistos, não eram acolhidos, nem mereciam transitar.  Deveriam ficar concentrados (11)  nos arredores da cidade, onde eram vigiados e as saídas do local somente ocorriam quando chamados ou indicados para as frentes de trabalho (12).


No romance, a família do vaqueiro Chico Bento (Cordulina, a mulher, e os filhos Pedro, Josias e Manuel – Duquinha, afilhado de Conceição) conduz a narrativa das agruras sofridas, na condição de retirantes famintos, no périplo entre Quixadá e Fortaleza. Ao longo da jornada há a perda do filho Josias, que morre por envenenamento alimentar (raiz de mandioca crua), o sumiço do outro filho, Pedro, que se perde da família e segue com outro grupo de retirantes. Por fim, a chegada em Fortaleza, sendo o trio encaminhado para o campo de concentração, nas proximidades da Estação de trem, no lugar denominado Alagadiço (13), atual bairro de São Gerardo, em Fortaleza. Lá reencontram Conceição (14) que os ajuda a seguir para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Com ela, madrinha, deixam o terceiro filho, Duquinha.


Oportuno lembrar que essa personagem, Conceição, como as personagens Marias da obra da escritora: As três Marias, 1939 (Maria Augusta); Beata Maria do Egito (peça em três atos e quadros, 1958; Dôra, Doralina, 1975 (Maria das Dôres); e Memorial de Maria Moura, 1992, todas elas acreditam no direito de preservação de sua identidade feminina independente de uma tutela patriarcal. E todas buscam sua independência no contexto social e lutam por conduzir sua história segundo suas crenças e os valores que acreditam. Essa perspectiva feminina na obra de Rachel de Queiroz, segundo Oliveira (2012) (15), não só consolida a autoria feminina na literatura brasileira, mais que isso, evidencia o seu papel preponderante nessa consolidação.

 

Com efeito, o primeiro romance da escritora cearense, ainda tão jovem, evidencia um grande talento literário não só pela construção da estória. Também, por fazê-lo de modo a demonstrar, na verdade denunciar nesse enredo, questões tão relevantes e diversas como a seca, um evento climático, a desigualdade social e regional ignorada, o preconceito com os flagelados da seca e a desigualdade de gênero. A maestria nessa composição demonstra, ainda, que esse talento tem compromisso com a realidade nordestina-sertaneja, com sua terra, sua gente, como pode ser constatado, inclusive, na reprodução da paisagem do sertão, dos atavismos culturais da região (16), na abordagem da problemática da seca e o temor de sua ocorrência para o sertanejo, ante a incerteza que se instala para o futuro.




Selo em homenagem à autora, Sérvia - Wikipedia

Assim, se um clássico da literatura deve, a um só tempo, retratar os valores e circunstâncias de um período e evidenciar que esses valores e circunstâncias ainda se apresentam atuais, pode-se dizer que o romance O Quinze guarda esse status na literatura brasileira. Nesse contexto, sua autora, a escritora Rachel de Queiroz, não só consegue transportar o leitor para a magia de sua narrativa, instigando-o à análise crítica em torno desses valores intertemporais, como eleva a escrita feminina a um patamar de destaque nacional e internacional.


Notas


1 Academia Brasileira de Letras – ABL. Rachel de Queiroz, Biografia. Disponível em

2 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Biblioteca, Catálogo. Disponível emhttps://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=438583. Acesso em 29

fev 2024.

3 Livro virtual Coleção Mossoroense. Livro das Secas, Disponível em https://colecaomossoroense.org.br/site/wp-content/uploads/2018/07/11%C2%BA-LIVRO-DAS-SECAS.pdf. (p 3 – 133). Acesso em 21 abr 2015)

4 Ministério do Meio Ambiente. Instituto Brasileiro do Meio e dos Recursos Naturais Renováveis, PORTARIA N9 37-N, DE 16 DE ABRIL DE 1999, reconhece como Reserva Particular do Patrimônio Natural a Fazenda Não me Deixes. Disponível em: https://sistemas.icmbio.gov.br/site_media/portarias/2010/05/12/CE_RPPN_fAZENDA_%C3%91_ME_Deixes.pdf. Acesso em 5 maio de 2023.

5  ABL (citada).

6  Biblioteca Nacional. Prêmio Camões de Literatura. Disponível em https://antigo.bn.gov.br/explore/premios-literarios/premio-camoes-literatura. Acesso em 29 fev 2024.

7  QUEIROZ, Raquel. O Quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013.

8  Segundo registros históricos da Secretaria de Recursos Hídricos do Estado do Ceará – SRH (online), antes da seca de 1915 (século XX), ocorreu uma anterior em 1900Há, igualmente registros de secas no período colonial 1777/1779, e durante o Império, 1877/1879. Histórico. Disponível em: 

9  As cidades no interior do Estado nem a capital, Fortaleza, não tinham estrutura para receber expressivos contingentes de gente. De acordo com Neves (1995) Frederico de Castro o “curral do governo” chegou a receber mais de oito mil retirantes. NEVES, Frederico de Castro. Curral dos Bárbaros: Os campos de concentração no Ceará (1915 – 1932). Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 15, p. 93-122, 1995.

10 QUEIROZ, Rachel (op. cit.)

11 BIBLIOTECA NACIONAL - (BN-RJ). Hemeroteca Digital. BARROSO, Benjamim.

Relatórios dos presidentes dos estados brasileiros. Fortaleza, 1915, p. 7-9. Disponível em: https://memoria.bn.br/pdf/720372/per720372_1915_00001.pdf. Acesso em 10 maio 2023.

12 MELO, Leda Agnes Simões de et all. Os indesejados da seca: a imagem do sertanejo desde as narrativas da Revista do Instituto do Ceará ao Campo de Concentração do Alagadiço (1887-1915). Revista Maracanan, n. 26, p. 259 – 280, jan – abr, 2021. Disponível em: https://www.epublicacoes.uerj.br/maracanan/article/view/54435/36868. Acesso 01 mar 2024.

13MELO (op. cit.)

14 QUEIROZ, Raquel. (op. cit.).

15OLIVEIRA, Maria Eveuma et alli. Rachel de Queiroz: uma mulher à frente de seu tempo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural – Alagoinhas, v. 2, n. 1, jan./jun. p. 203 – 215, 2012.

16A crença de que o dia de São José, 9 de março, padroeiro do Ceará, será um indicativo para a quadra chuvosa, se chover no dia haverá chuva com certeza, se não chover poderá haver seca: ´ - E nem chove, hein, Mãe Nácia? Já chegou o fim do mês... Nem por você fazer tanta novena... Dona Inácia levantou para o telhado os olhos confiantes:- Tenho fé em São José que ainda chove! Tem-se visto inverno começar até em abril (Queiroz, op. cit.)


 


SHEILA CAVALCANTE PITOMBEIRA, Coordenadora-Geral da Associação de Professores de Direito Ambiental do Brasil – APRODAB, Associada do Instituto Brasileiro da Advocacia Pública – IBAP, Procuradora de Justiça do Estado do Ceará, Professora e Pesquisadora da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Professora Emérita da Escola Superior do Ministério Público do Estado do Ceará, Doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente.








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