O CRIADO MUDO


-MANOEL HERZOG-


Tenho enorme simpatia por este móvel que me fica à cabeceira da cama, estático, silente. O criado-mudo possui a característica que, antes de ser uma deficiência, um vício, é, sim, uma imensa de uma virtude: o mutismo.


Meu criado-mudo, que achei num brechó, é escuro de imbuia. Não o adquiri pela cor, mas pela beleza. Já vi criados-mudos brancos de pau-marfim, bugres de peroba vermelha e mesmo da cor falseada, oculta sob camadas de tinta ou fórmica. Admiro sua discrição, assiste sem inoportuna manifestação espetáculos de pornografia que engendro ali na cama a seu lado, escatologias gasosas no meio da noite, meus medos por pesadelos noturnos, nada critica se me vê ir dormir sem banho. Ele cuida de sua nobre vida de móvel sem se ocupar da minha singela vida de escritor. Fico a imaginar se eu tivesse um criado-lacrador, por exemplo, que vivesse a censurar a forma com que escrevo as palavras, o inferno que se me tornaria a vida. Fico com meu mudo móvel, cuja sabedoria tanto admiro. Também busco falar o mínimo, por evitar o vexame da presunção.


A empresa Etna, gigante nacional da movelaria, lançou uma campanha, que pretende simpática, por força da qual condena o uso do termo "criado-mudo", que acusa de racismo, de discriminação com as pessoas portadoras de deficiência e de "falta de empadinha", seja lá o que isto queira dizer. Convido os simpatizantes da causa, que indiretamente fazem propaganda à Etna, a visitarem o distribuidor do foro trabalhista, ver o número de processos contra a empresa, pra terem noção do quanto a empática e simpática loja trata bem seus criados.


Os franceses, grandes literatos, chamam ao morcego de "chauve-souris" o que, numa tradução literal, significa "rato-careca". Não tenho notícia se algum grupo de calvos de Paris reivindicou a abolição do termo. O guarda-roupas não é truculento por ser guarda, a cômoda não é um móvel preguiçoso. A Língua é um processo dinâmico e se vai formando de associações, de metáforas, de parecenças ao que a sociedade espelha. A Língua reflete o tecido social, e não o contrário. Mudar a língua por decreto, a par das melhores intenções, não corrige as mazelas sociais.


Atento ao fato, e tendo grande apreço por ele, sugeri a meu criado-mudo passar a denominá-lo "mesinha de cabeceira", como impõe a melhor political correctness. Pela primeira vez ouvi, num sentido protesto, sua voz de madeira:

"Mesinha? O cacete. Eu sou é macho."



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Manoel Herzog é romancista e escritor.


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