QUEM JULGA O JULGADOR?
- Revista Pub

- há 12 minutos
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-Hermelindo Silvano Chico-
Toda vez que o império decide agir, ele começa pela palavra.
Antes da bomba, vem o adjetivo.
Antes do míssil, a manchete.
Antes da invasão, o rótulo.
Antes de tudo, há sempre uma boa justificativa.
As notícias chegam como chegam os trovões: não para esclarecer, mas para anunciar a tempestade. Desta vez, a tempestade atende por nome próprio e endereço conhecido: Venezuela. Dizem, sempre dizem, que a história se move em nome do bem. Dizem que há um vilão a ser contido, um mal a ser extirpado, uma pátria a ser salva. E assim, sob a liturgia do salvacionismo, ergue-se o altar onde a soberania alheia é sacrificada.

Nada disso começa com tanques. Começa com palavras. A palavra ditador vira senha. Terrorista vira martelo. Narco vira licença. A linguagem abre caminho para a violência. A gramática prepara o terreno para a invasão. Quando o discurso se completa, a guerra já não parece guerra, parece dever moral.
É assim que o mundo aprende a aceitar o inaceitável. Um líder é reduzido a uma caricatura, arrancado de sua história, de seus contextos, de suas contradições reais. O procedimento não é abstrato: hoje ele se repete na figura de Nicolás Maduro, apresentado menos como chefe de Estado e mais como categoria criminal. A complexidade vira ruído. A dúvida vira traição. Não se busca justiça; busca-se adesão. E quando a adesão está garantida, a brutalidade se apresenta como remédio.
O roteiro é antigo e eficiente: criminaliza-se para dividir, divide-se para entrar, entra-se para extrair. A Venezuela, cercada por sanções e acusações antes de qualquer tribunal, conhece bem cada etapa desse script. O mapa se dobra ao interesse. O direito internacional vira nota de rodapé. O sofrimento vira estatística. O petróleo, o minério, o corredor estratégico, estes, sim, permanecem no centro do texto.
O império não sequestra homens, sequestra narrativas. E quando domina a narrativa, o corpo vem depois. Chamaram Saddam de monstro. Disseram que ele guardava o fim do mundo em caixas de metal. Invadiram o Iraque em nome da humanidade, mataram em nome da paz, destruíram em nome da democracia. Mataram Saddam. A guerra ficou. A violência ficou. O caos ficou. O petróleo, curiosamente, mudou de mãos. O Iraque aprendeu que armas imaginárias produzem guerras bem reais.
O Irã aprendeu cedo que a soberania tem preço, e que o preço costuma ser alto demais para quem ousa cobrar. Quando Mohammad Mossadegh decidiu que o petróleo iraniano pertencia ao povo iraniano, não assinou um decreto: assinou uma sentença. Não foi chamado de ladrão, mas de irresponsável. Não foi acusado de roubo, mas de ameaça. Não caiu por incompetência, mas por ousadia. Em 1953, ensinaram ao Irã que nacionalizar o próprio petróleo era crime punível com golpe, desde que o tribunal fosse estrangeiro e a justiça falasse inglês.
Depois foi a vez de Gaddafi. Ditador, louco, ameaça global. A OTAN caiu sobre a Líbia como quem derruba uma porta que nunca foi sua. Executaram o líder em praça pública, como se a barbárie fosse aceitável quando televisionada. Hoje a Líbia não tem Estado, mas tem mercado de escravos. Não tem soberania, mas tem milícias. O ditador morreu; a desordem virou política permanente. A Líbia descobriu que derrubar um homem pode significar derrubar um Estado inteiro.
Na África, o roteiro é antigo, gasto, mas eficaz. Patrice Lumumba ousou dizer que o Congo pertencia aos congoleses. Foi chamado de radical, perigoso, comunista. Foi preso, torturado, assassinado. Seu corpo dissolvido para que nem o símbolo restasse. Décadas depois, o Congo continua sangrando, não por acaso, sobre uma das terras mais ricas do planeta. Hoje, Lumumba é herói. Ontem, era ameaça.
Thomas Sankara falou de dignidade, de autonomia, de romper com a dependência colonial. Vestia-se simples, falava direto porque o povo não precisava de tradução, governava para os de baixo porque os de cima já estavam servidos. Morreu jovem, traído, silenciado. Burkina Faso voltou a ser quintal. Sankara virou estátua. O império seguiu operando.
Décadas depois, quando um capitão jovem chamado Ibrahim Traoré começa a rearrumar esse mesmo quintal, varrer a poeira colonial, questionar contratos, expulsar tutelas, algo curioso acontece: o vocabulário do império desperta outra vez. De repente, Traoré não é mais um reorganizador, é um ditador em potencial. Não é um líder popular, é um “risco à democracia”. Não é um país buscando soberania, é uma ameaça à estabilidade. O roteiro é antigo, só muda o rosto do acusado.
No Chile, Allende foi eleito. Não tomou o poder à força, não impôs fuzil. Mesmo assim, foi criminalizado, foi asfixiado antes de ser derrubado. A economia foi estrangulada, a democracia sabotada, o golpe financiado. Pinochet assumiu com tanques e tortura. O Ocidente aplaudiu em silêncio. Democracia, ali, era só uma palavra descartável.
Não se trata de santificar líderes nem de negar seus erros. Trata-se de perguntar quem tem o direito de julgar o mundo com a ponta do míssil. Porque há uma diferença abissal entre responsabilização e extermínio, entre justiça e vingança geopolítica. O padrão é claro como um mapa antigo: primeiro demonizam, depois isolam, depois punem, depois exploram.
A pena de morte é crime em muitos códigos. Ainda assim, mata-se em nome da lei. Mata-se por suspeita, por conveniência, por interesse. Quem comete, afinal, o delito maior: o acusado ou o juiz que executa sem tribunal?
A retórica do combate ao crime é confortável. Ela dispensa espelhos. Permite que o executor se declare virtuoso enquanto produz cemitérios. Permite que a potência se anuncie humanitária enquanto impõe bloqueios que não punem governos, punem crianças. No caso venezuelano, o bloqueio antecede o veredicto e transforma o cotidiano em instrumento de pressão política. É um humanitarismo que chega com sanção. Um amor que vem com drone.
E então surge a pergunta que nunca passa no noticiário: Quem julga o julgador?
Quem chama ao banco dos réus a mão que sanciona, a voz que ameaça, a frota que cerca? Onde está o tribunal para o crime de devastar soberanias? Onde se arquiva o processo das guerras que continuam depois do cadáver exibido como troféu?
Há algo de colonial nesse teatro, não no sentido antigo, mas em sua forma mais eficiente. A colonialidade já não precisa de bandeiras; precisa de narrativas. Não precisa de governadores; precisa de manchetes. Não precisa de correntes; precisa de contratos. O império moderno aprende a falar a língua da moral para calar a língua da autodeterminação.
Enquanto isso, os povos ficam com os escombros. Ficam com a inflação que explode, com o hospital sem insumo, com a escola sem teto, com o luto sem nome. Ficam com a promessa nunca cumprida de que, agora sim, virá a paz. A paz nunca vem. Vem a próxima justificativa.
A crônica do nosso tempo é esta: um mundo que se diz civilizado, mas naturaliza a barbárie quando ela veste terno. Um mundo que confunde ordem com obediência e justiça com conveniência. Um mundo em que a soberania dos fracos é sempre provisória.
Talvez o verdadeiro escândalo não seja a queda de um líder, mas a normalidade com que se aceita a queda de países inteiros. Talvez o verdadeiro crime não esteja apenas nos acusados de sempre, mas na arquitetura que decide quem merece viver, escolher, errar e corrigir-se por conta própria.
Escrever sobre isso é recusar o conforto do silêncio. É lembrar que não há salvação imposta, nem democracia exportada a tiros. É afirmar, sem metáfora, que a justiça que atravessa fronteiras sem convite costuma carregar mais interesse do que princípio.
Enquanto aceitarmos que a lei viaje em porta-aviões, a humanidade continuará sendo julgada à revelia. Hoje, essa lei aponta para Caracas; amanhã, escolherá outro mapa.
Hermelindo Silvano Chico é doutor e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e bacharel em Ciências Criminais pelo Instituto Superior Poli. de Ciências e Tecnologia - INSUTEC (Angola). Desenvolve pesquisas interdisciplinares sobre Direito, sociedades tradicionais e meio ambiente, com ênfase em epistemologias jurídicas africanas, indígenas e quilombolas. É escritor e pesquisador associado do CEPEDIS.








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