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2666 - Roberto Bolaños - Uma resenha

Atualizado: 5 de dez. de 2023

-RUI VIANNA-




A obra 2666, do escritor chileno Roberto Bolaño (Cia. Das Letras, 3ª ed. 2013, 852 pg., tradução de Eduardo Brandão) foi inicialmente programada para ser publicada em cinco volumes independentes, pelo próprio autor. Como sua publicação deu-se apenas após sua morte, ocorrida em 2003, seu editor entendeu ser o caso de que se fizesse em um único volume, o que, no meu entender, deu uma unidade e consistência ainda mais impressionantes ao livro.


A linha mestra que perpassa toda essa monumental obra é, sem dúvida, a literatura. Calcada em um personagem central, o escritor que se apresenta como Beno von Archimboldi, um nome em si bastante inverossímil para um escritor alemão, a narrativa atravessa vários cenários, personagens, continentes e temas. Um deles, objeto de um dos cinco capítulos que dividem o livro, a violência espantosa de crimes descritos de forma crua e intencionalmente banalizada, ocorridas na cidade fictícia de Santa Teresa, no México, (que descreve, na verdade, Ciudad Juarez), cometidos, em sua esmagadora maioria, contra mulheres. Crimes que envolvem estupro, tortura, abuso e violência em doses avassaladoras.


Para que se tenha uma ideia da extensão dessa violência descrita de forma tão crua, o capítulo que contém tal brutalidade se estende da página 341 à página 604, sendo o capítulo mais extenso de todo o livro. Apesar disso, é eletrizante e fluente como uma enchente.

Necessário que se diga que, apesar de extensa, a violência é apenas uma pequena parte da obra. Sua totalidade vai muito além em descrição, fluência, criação, técnica e, sobretudo, no exercício da literatura em seu sentido íntegro, total.


O encadeamento lógico entre os cinco capítulos é feito de forma extremamente eficiente pelo autor, dada a enormidade de personagens e situações envolvidas no desenrolar da trama. Trama essa que se inicia numa quase declaração de amor , envolvendo a relação de quatro personagens visceralmente ligados à literatura e sua crítica, estudiosos do autor inicialmente citado, que passa a editar seus livros pós-segunda guerra. A partir da ligação entre os quatro críticos, um espanhol, um francês, um italiano e uma inglesa, se desenvolve uma busca pelo paradeiro de Beno von Archimboldi, sua real identidade e suas origens.


Apesar de manter a linha mestra em torno do autor, a trama se desenrola na forma de uma verdadeira avalanche, trazendo um sem número de situações e personagens, que passeiam pela Europa e América do Norte, muitas vezes sem qualquer relação direta com os personagens iniciais do romance, ou ainda com a trama central. Porém, necessário frisar, tal multiplicidade de objetos e temas em nada enfraquecem ou desvirtuam suas qualidades inegáveis. E a forma como são amarradas as pontas aparentemente soltas da trama é desconcertante e certeira.


O texto tem um vigor eletrizante, com personagens construídos de forma consistente e econômica, como traços secos num muro de cimento. Entabulam diálogos muitas vezes rápidos e cortantes, imprimindo um ritmo talvez intencionalmente cinematográfico ao desenrolar da trama. As descrições da paisagem, principalmente das situadas no México, despertam uma angústia incômoda, como se nos fizesse faltar o ar. O fato de o autor ter vivido no México por longo período dá verossimilhança à narrativa.


Poderíamos dizer que, pela atenção dispensada e repetição exaustiva, o tema central do livro seria a série inaceitável e absurda de crimes cometidos contra mulheres em especial, na fictícia cidade mexicana. Mas, mesmo nos momentos mais tenebrosos de violência, a literatura aparece como um alívio dramático, num comentário esparso de um personagem, ou numa referência passageira a este ou aquele autor ou obra. Este sim deve ser considerado o centro geográfico da obra, sua mola propulsora e sua linha mestra.

Tal importância é realçada e reafirmada no último capítulo do livro, dedicado a Archimboldi (A parte de Archimboldi), onde Bolaños descreve biograficamente o escritor, desde sua infância num pequeno vilarejo alemão, até sua realização como autor consagrado, através da publicação de vários romances. Neste capítulo, a descrição da Segunda Guerra se mostra terrível e espantosa, na voz do narrador distanciado e sob a ótica do personagem central. É em forma de quase constante pesadelo que vemos o término do conflito e as decorrências para Archimboldi e os novos personagens que se apresentam.

Voltando à literatura, há uma cena em que Beno procura uma máquina de escrever para alugar, visando iniciar sua produção. Encontra ele com um senhor que possuía “...uma velha máquina francesa e que , embora não se dedicasse a alugá-la, abria uma exceção para os escritores.”


Os diálogos que seguem desse encontro são uma combinação de crítica e declaração de amor à literatura . Destaco aqui alguns trechos desse diálogo, ilustradores do respeito demonstrado pelo autor com relação à literatura.


“Todo livro que não seja uma obra prima é carne de canhão, esforçada infantaria, peça sacrificável, dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra prima. Quando compreendi essa verdade, parei de escrever.”

“Eu sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se você estivesse disposto a escrever uma obra prima. A maior parte dos escritores se engana ou brinca. Talvez enganar-se e brincar sejam a mesma coisa, duas faces da mesma moeda. Na realidade nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas, cheias de machucados, de varizes, de furúnculos, de manchas na pele, mas crianças afinal de contas, isto é, nunca deixamos de nos aferrar à vida, pois que somos vida.”

“A brincadeira e o engano são a venda e o impulso dos escritores menores. Também: são a promessa da sua felicidade futura.”

“Chegou o dia em que decidi deixar a literatura. Deixei-a. Não há trauma nesse passo, mas libertação. Cá entre nós, confesso que é como deixar de ser virgem. Um alívio, deixar a literatura, ou seja, deixar de escrever e limitar-se a ler!”


Limitar-se a ler, no caso dessa magnifica obra, foi para mim uma recompensa e um deslumbramento inesquecíveis, o transporte a um dos muitos mundos que a literatura, através de autores maiores, nos entrega.

 

Rui Guimarães Vianna é advogado aposentado, associado e membro do Conselho Consultivo do IBAP.


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