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Será que sou resiliente?

  • há 2 horas
  • 6 min de leitura

- Elizabeth Harkot-de-La-Taille -


Imagem gerada pelo ChatGPT.
Imagem gerada pelo ChatGPT.

Perguntaram hoje se eu era resiliente.

Parei para pensar. Não por prudência filosófica, mas por ser terça-feira. Perguntei-me quem eu era naquele momento.

Professora? Pesquisadora? Orientadora? Parecerista? Secretária de mim mesma? Motorista? Filha? Mãe?...  Ou uma pessoa procurando os óculos que estavam sobre a própria cabeça?

A palavra "resiliência" tem uma história respeitável. Veio da física, foi adotada pela psicologia, conquistou a ecologia e as ciências sociais e acabou transformando-se numa espécie de celebridade conceitual. Hoje circula por palestras, entrevistas, redes sociais e reuniões institucionais com a desenvoltura de quem possui estacionamento privativo no vocabulário contemporâneo.

"Precisamos ser resilientes."

"Carlo é resiliente."

"Adna demonstrou grande resiliência."

Sempre que ouço algo assim, fico imaginando o que exatamente se espera de uma pessoa resiliente.  Ser como uma mola? Uma árvore ao vento? Uma personagem inspiradora de documentário?

Confesso que tenho dificuldade com virtudes muito requisitadas. Quando uma qualidade passa a ser exigida com tanta frequência, começo a desconfiar que há algo errado não com quem supostamente não a possui, mas com o ambiente que a exige sem parar. Se todos precisam ser resilientes o tempo todo, talvez o problema não esteja em nós, mas no fato de estarmos vivendo dentro de uma centrífuga.

Mas voltemos: será que sou resiliente?

Se resiliência for voltar ao estado original depois de uma pressão, como certos materiais na física, então, não me qualifico. Nunca voltei exatamente ao estado original depois de uma reunião de três horas, ou de corrigir quarenta trabalhos com citações em formatos criativos, ou depois de tentar entender por que alguém escreveu “segundo Smith, 2018” sem indicar qual Smith, qual texto, qual planeta. Alguma coisa em mim permanece para sempre alterada.

Se, porém, resiliência for continuar funcionando apesar das deformações, talvez eu tenha alguma chance.

Quando alguém imagina a vida de uma professora universitária, acho que pensa em atividades nobres. Livros. Conferências. Produção de conhecimento. Reflexão intelectual.

Tudo isso existe.

Misturado a relatórios. Muitos relatórios. Há relatórios sobre projetos, relatórios sobre disciplinas, relatórios sobre relatórios e, suspeito, em algum lugar da administração universitária, um relatório destinado a avaliar a qualidade dos relatórios produzidos para justificar relatórios anteriores.

Há também pareceres. Eu escrevo pareceres. Eu recebo pareceres. Eu avalio artigos. Outras pessoas avaliam meus artigos.

Às vezes tenho a impressão de que a comunidade acadêmica é um gigantesco sistema de avaliações recíprocas que, por algum milagre estatístico, ainda encontra tempo para produzir conhecimento.

Enquanto isso, há as orientações de pesquisas. Cada uma sobre objetos diferentes. Cada uma em uma etapa e um nível diferente. Cada uma levanta perguntas inteligentes que frequentemente começam com:

— Professora, tenho só uma dúvida rápida...

A expressão "dúvida rápida" merece um estudo próprio. Ela geralmente introduz questões que atravessam a história da filosofia, da linguística e da civilização ocidental. Mas gosto delas. Das dúvidas, não necessariamente da rapidez.

Depois vêm as aulas. Ministrar aula é uma atividade fascinante porque exige que você pareça saber exatamente o que está fazendo. Na maior parte do tempo, isso acontece. Mas existe aquele momento. O momento.

Você termina a aula. Desliga o computador. Despede-se dos alunos. Fecha a porta. Dá três passos pelo corredor. E então percebe. Meu Deus. Eu disse que Old English acaba por volta do século VI. Acaba? Old English começa por volta do século VI. Começa. Começa!

O cérebro repete “começa” com a indignação de quem acaba de descobrir uma fraude histórica.

Nesse instante, nenhuma das ideias e informações corretas trazidas ao longo da aula tem qualquer relevância.

A única coisa que existe no universo é aquela frase. Ela passa a acompanhar você durante o resto do dia. Ela o acompanha escada abaixo, atravessa o estacionamento. Entra no supermercado. Acompanha seu jantar. Pulsa durante o banho. E durante a madrugada. Você considera enviar uma mensagem coletiva aos alunos. Será que notaram?

No dia seguinte, descobre que não apenas não notaram como estão preocupados com problemas muito maiores. Mas isso não impede que você continue revivendo a cena por mais algumas semanas. Talvez meses. Talvez ad æternum.

Enquanto reflito sobre isso, preciso avaliar um artigo e emitir um parecer. E examinar um parecer recebido sobre um artigo que escrevi. E rascunhar um novo artigo. Não posso me esquecer da passagem para o Congresso!

A academia considera indispensável que você participe de congressos. As agências de fomento concordam. Os programas de pós-graduação concordam. Os currículos concordam.

A verba disponível, porém, raramente compartilha do mesmo entusiasmo; exige uma atividade paralela: arqueologia financeira aplicada. Você procura hotéis, passagens, compara tarifas, datas, horários. Finalmente, encontra uma combinação que custa apenas o dobro do valor disponível, são só três escalas e duas conexões.

O sistema considera isso uma oportunidade.

Pagando do bolso a outra metade e tendo que apresentar um relatório ao retorno... Aceito. Afinal, também sou pesquisadora. Ou resiliente. Ainda não decidi.

Mas nem tudo acontece na universidade.

Você também pode ter um pai ou mãe em idade avançada. Portanto, consultas, remédios, receitas, exames, retornos, telefonemas, novos telefonemas para confirmar os telefonemas anteriores e uma atenção distribuída ao longo do dia como um aplicativo permanentemente aberto.

Quando se têm filhos... Encantadores. Inteligentes. Cultos. Capazes de discutir política internacional, cinema iraniano, inteligência artificial, mudanças climáticas e os rumos da civilização ocidental. Inexplicavelmente, podem continuar precisando ser buscados em lugares impossíveis, em horários impossíveis. Naquele tipo de horário metafísico em que o dia de ontem já acabou, o de amanhã ainda não começou, e só os motoristas de filhos sabem exatamente onde estão.

A logística familiar é um campo do conhecimento escandalosamente negligenciado pelas universidades. Poderíamos ter departamentos inteiros dedicados ao tema. Linhas de pesquisa. Congressos internacionais. Periódicos especializados. Modelos matemáticos. Nada disso existe. Em consequência, seguimos trabalhando empiricamente.

E aí talvez more uma forma modesta de resiliência, menos heroica e mais prosaica. Uma resiliência sem trilha sonora. A resiliência de quem acorda cansada, mas acorda; de quem abre a caixa de entrada sabendo que a caixa de entrada abrirá também alguma pequena caixa de Pandora; de quem faz uma lista de tarefas e, ao final do dia, percebe que cumpriu tarefas que nem estavam na lista, porque a lista, ingênua, não conhecia ainda as emergências do mundo.

É nesse momento que minha resiliência, se existe, levanta a mão e pede a palavra. Há uma versão higienizada da resiliência que dissimula discreta violência. Ela transforma todo tropeço em aprendizado, toda perda em oportunidade, toda exaustão em “desafio”. A pessoa não está sobrecarregada: está desenvolvendo “competências socioemocionais”. Não está desesperada: está saindo da “zona de conforto”. Não está sendo explorada: está sendo “protagonista da própria trajetória”.

A palavra, então, começa a ficar perigosa. De força real e capacidade admirável de recomposição, ela pode passar a funcionar como uma espécie de perfume discursivo jogado sobre situações que cheiram mal. Em vez de melhorar as condições, elogia-se a resistência de quem suporta condições ruins. Em vez de perguntar “por que isso está assim?”, pergunta-se “por que você não está lidando melhor com isso?”.

Será que sou resiliente?

Ai, ai, o gato! Merece um capítulo. Não se interessa por semiótica, não pede bibliografia, não faz perguntas. Seu foco é bem específico. O teclado.

Mais precisamente, o teclado quando estou utilizando o teclado. O teclado quentinho. Basta eu me levantar por dois minutos, encontro o gato deitado exatamente sobre a região estratégica do computador. Numa postura que combina conforto, autoridade e direitos adquiridos. Não parece arrependido. Parece satisfeito. Talvez até orgulhoso.

— Com licença, estimado felino!...

As letras agora aparecem em tamanho compatível apenas com observações astronômicas. Algumas funções desapareceram. Outras surgiram espontaneamente. O cursor ora se movimenta segundo princípios que desafiam a mecânica clássica, ora se comporta como um conceito pós-estruturalista.

Durante vários minutos, tento compreender o fenômeno. Formulo hipóteses. Examino evidências. Testo possibilidades.

Nenhuma funciona.

Após assistir a três tutoriais em vídeo e ler dois em texto, reinicio o computador. O sujeito peludo da ação placidamente quer porque quer voltar ao teclado, esse atraente nicho aquecido e confortável.

Eu continuo tentando restaurar a configuração original do teclado.

O autor da intervenção observa meus esforços com a serenidade de quem sabe que a verdadeira autoridade sobre aquele computador nunca foi minha.

Trata-se de uma constatação ligeiramente humilhante. Passei anos aprendendo a administrar disciplinas, projetos, bancas, orientações, formulários e viagens nacionais e internacionais. Continuo incapaz de administrar satisfatoriamente meu gato.

Talvez seja isso que me incomoda na palavra "resiliência". Ela sugere força. Controle. Superação. A vida real parece funcionar de outro modo.

Será que sou resiliente?

Não tenho certeza.

Sei apenas que amanhã haverá uma aula, um parecer, uma orientação, algum formulário inesperado, um telefonema, um filho em coordenadas desconhecidas e um gato soberano preparando sua próxima intervenção no teclado.

E, apesar de todas as evidências em contrário, pretendo acordar, levantar da cama e sair para o dia.


Elizabeth Harkot de La Taille, associada regular do IBAP, é Professora Titular em Estudos Linguísticos em Inglês da FFLCH-USP e Pesquisadora do IEA.

 
 
 

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