CORONA-VÍRUS E CONCEITO DE RIQUEZA

-Carlos Frederico Marés de Souza Filho-


Foto: M. Cornelius/Shutterstock.


O historiador e filósofo senegalês Cheikh Anta Diop, desdenhado por parte da intelectualidade europeia como afrocêntrico porque fazia crítica ácida à violência do colonialismo europeu, desenvolveu a 'teoria de berço", que atribuía a maldade e a desumanidade do processo colonial às carências por que passava a Europa pelo clima e pela escassez de vegetais e animais que servissem de alimentos. O fato de ter que guardar alimentos e outros bens necessários para o inverno improdutivo tornara os europeus avarentos e individualistas, dizia. Já os povos africanos e americanos viviam em fartura, com caça, pesca e frutos abundantes, desenvolvendo uma agricultura permanente, com alimentos sempre à disposição e, pouco amargurados pelas necessidades, viviam uma vida rica em espiritualidades.


Esse determinismo de berço pode não ser verdadeiro e provavelmente não o é. Mas a necessidade de poupar e guardar determina a riqueza de cada povo. Seguindo o raciocínio de Anta Diop, o conceito de riqueza da modernidade foi formado pela escassez e, portanto, pela acumulação e guarda de bens necessários para o período de escassez; já os povos da abundância não acumulavam porque sabiam que iriam dispor das coisas no futuro próximo, e no distante, porque a natureza proveria as necessidades, bastaria conviver bem com ela. O conceito de riqueza para um é o que se acumula individualmente, para outro, a desnecessidade de acumulação. Esta explicação serve também para a separação radical entre ser humano e natureza imposta pela modernidade europeia, "o que é do homem o bicho não come", diz o adágio popular. A natureza é fonte, o bem dela retirado já não pode voltar a ela, é propriedade humana, acumulada contra todos os outros seres da natureza.


Daí o conceito de riqueza na modernidade estar ligado à ideia de acumulação individual de bens supérfluos, mas passíveis de troca por bens necessários no momento da escassez. Locke teorizava que não era permitido acumular o que deteriora (até porque deteriora), só o que é perene. A parte rica da humanidade, hoje, se caracteriza exatamente por acumulação de supérfluos perenes e trocáveis, ou sua representação, como o dinheiro. A riqueza é contável pela quantidade de bens que o dinheiro representa, mas são propriedades como ouro, prata, âmbar ou ações em bolsa que, como o dinheiro, representa propriedades. Estes bens trocáveis são em si inúteis para a vida humana porque não são consumíveis, não alimentam, não curam, não vestem. Têm que ser trocados, são apenas valores de troca, não de uso.



Foto: Dmytro Lastovych via Getty Images.


A acumulação compulsiva de riquezas, neste inútil e materialista conceito, leva as sociedades a destruir a verdadeira riqueza que é a abundância da natureza provedora das necessidades. Sociedades antigas como a da Mesopotâmia ou mais recentes, como a Ilha da Páscoa, são exemplos pontuais de sociedades que acumularam tantos bens inúteis que na hora de serem trocados já não existiam os úteis e necessários para saciar a fome, a sede, curar as doenças e tapar as vergonhas. Para acumular os inúteis, tiveram que destruir as fontes dos úteis, a natureza. Hoje este fenômeno não é mais pontual, mas global, desigual e injusto.


Em tempos de corona-vírus, um dos primeiros a morrer em Portugal foi o presidente local do Banco Santander que viera de férias da Itália. A internet tem atribuído à sua filha a frase: "somos uma família milionária e meu pai morreu sufocado buscando uma coisa que é gratuita: o ar. Esqueça o dinheiro, fique em casa." Pode ser que seja mais uma invenção da internet, mas encerra uma verdade que fará as sociedades humanas repensarem a sua trajetória até aqui.


No caos e desespero que se estabeleceu, alguns valores humanos ganharam espaço, como a solidariedade, onde havia apenas competição. E o consumismo? E a acumulação compulsiva? E a ânsia por viagens a esquadrinhar um mundo sem entendê-lo, apenas para comprá-lo? Será que a solidão destes dias de isolamento fará cada um e a sociedade pensar ou repensar o conceito de riqueza e o próprio conceito de valor? Será que as sociedades pensarão em bem viver, em ubuntu?


O fato é que sempre depois de grandes tragédias, as sociedades tentam se reconstruir retomando valores esquecidos; os direitos humanos renasceram depois do horror da guerra. O corona-vírus é muito mais do que uma guerra e a arma com que a humanidade pode combatê-lo não pode ser comprada pela riqueza acumulada e se encontra muito mais no coração e na consciência das pessoas, é a riqueza do gesto solidário e não a brutalidade da bomba destrutiva. Da guerra as sociedades saíram mais individualmente livres. Do corona-vírus, do direto confronto com a morte, deverá sair mais coletiva, mais solidária, menos rica de bens e mais rica de vida. Oxalá!


Aprenderá a humanidade? Ou esquecerá e perderá o rumo logo em seguida, à espera da nova catástrofe?

Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito da PUC-PR, é escritor e diretor do IBAP.


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