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O ataque ao fim da escala 6x1

  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

-FREDERICO ARZOLLA-


Wikimedia - [2024-11-15] Fim da Escala 6x1 - Recife_023_Romerito Pontes
Wikimedia - [2024-11-15] Fim da Escala 6x1 - Recife_023_Romerito Pontes

Quando vemos declarações descabidas destas últimas semanas, faz acender a luz de alerta. Por trás de corpos humanos, aparentemente semelhantes, por conta de seu genótipo, há diferenças imensas de mentalidade, tão profundas quanto as fossas abissais dos oceanos.


Faço essa analogia, pois se temos um padrão pouco variável para se vestir e alimentar, o padrão de pensar mostra diferenças imensas.


Passaram-se mais de 200 anos da Revolução Industrial e ainda, neste país atrasado em mentalidades, questiona-se a redução da jornada para 5 x 2 e 40 horas semanais. Diante dos mesmos argumentos de outrora, sempre que na história, buscou-se ajustar a superexploração do trabalho, há resistência daqueles que se sentem “os donos”.


Mais tempo para lazer, para se reconstituir fisicamente e psicologicamente, para o convívio familiar e social, para usufruir um pouco daquilo que a sociedade constrói; para o consumo, inclusive, pensando-se na adesão dos capitalistas à demanda.


Falas contrárias ao fim da escala 6x1 são repulsivas, no entanto são espontâneas e mostram pensamentos ainda existentes em nossa sociedade dos neo-senhores de engenho ou daqueles que nunca deixaram de ser.


Direitos trabalhistas vem sendo diariamente reduzidos mediante alterações constitucionais. Tanto o trabalhador do setor privado quanto o público vem sendo, através de “reformas”, constantemente atacados e perdendo direitos conquistados em décadas de luta trabalhista.


A dita “modernização” na verdade também tem sido a precarização do Estado e sua apropriação pelo privado. O privado, que alardeado de eficiência em sua gestão, mostra-se muitas vezes socorrido e amparado por financiamentos públicos e isenções fiscais bilionárias.


O capitalismo e o neoliberalismo são modelos a serem adotados pelos outros, a tal da livre concorrência, o livre mercado, mas quando o interesse é próprio, recorrem ao Estado para socorrer bancos e empresas, demandando recursos públicos.


Ora... setores reclamam da presença do Estado para atender a população, em serviços públicos, pois pretendem veicular a imagem que “o privado” atua melhor. Porém, o investimento público é demandado para financiar as empresas. E estas vendem serviços à população. Quantas empresas e grupos neste país não emergiram com financiamento público, dependentes de recursos de bancos estatais?


Mas quando há discussões sobre escalas de trabalho, são colocados óbices, a proposta é difamada por fake news e pelos setores mais conservadores da sociedade. A visão de senhores de engenho emerge e mostra-se presente em muitos setores da sociedade.


Muitos dos avanços na área do trabalho ficam a mercê desses indivíduos, que ainda andam com seus chicotes imaginários na cintura, acompanhados dos seus capatazes, numa roupagem contemporânea, travestida em seus ternos.


Por que fragilizar os trabalhadores, mantendo-os em jornadas inadequadas? No âmago temos a reedição do embate das forças da exploração humana querendo se perpetuar e manter seu poder na sociedade. Funcionários ou trabalhadores precarizados são mais vulneráveis e expostos ao controle e ao domínio, forças obscuras de dentro da sociedade, que poucos conseguem enxergar. É um embate de forças, entre retrocesso ou progresso civilizacional.


É difícil para os próprios afetados muitas vezes reagirem devido ao desespero em ter algo para levar para suas casas, conseguir pagar as suas contas e ter a mínima condição de sobrevivência.


Todos ganham com melhores condições de trabalho. É a evolução da sociedade. Essa luta deveria ser de todos – empregadores, empregados e população beneficiada pelos serviços prestados. Temos exemplos hoje mais ao norte do planeta, em alguns países europeus, dessa mudança de visão. Também tivemos por aqui ares de evolução na era Vargas, nas greves sindicais do ABC, mas que foram atacados nos anos sombrios pós-Dilma.


É um trabalho extensivo, de conscientização da população, por meio da educação. Quando atacam a educação, estão atacando as chances de formarmos pessoas consciente e livres. É o arreio na boca das pessoas e a cela em suas costas. É o ataque à própria sociedade, pois sem a base da educação não há evolução do pensamento. É a estagnação de eterna colônia.


O adoecimento da sociedade e das pessoas é a consequência, enchendo os hospitais em vez dos parques. Lembro que uma das razões para a criação dos primeiros parques nacionais era a preocupação com o lazer dos trabalhadores das indústrias em suas extensas jornadas de trabalho. Passado um século, ainda há resistência e articulação contra reduzir a jornada de trabalho.


As manifestações contrárias à escala 5x2 e à carga horária de 40 horas semanais revelam que aqueles que se consideram donos do país, não querem se despir do seu papel de senhor.


É uma luta que todos precisam se engajar, pois a sociedade não terá futuro se considerar que o indivíduo que a compõe deve ser autômato ou uma simples engrenagem que quando quebra, é descartada, e de pronto substituída.


 

Frederico Arzolla é Engenheiro Agrônomo, Doutor em Biologia Vegetal, Pesquisador em Conservação da Natureza e Florística e Fitossociologia de Árvores da Mata Atlântica e associado do IBAP.



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