Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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O TRABALHADOR DE BEM


-Ricardo Antonio Lucas Camargo-


Ilustração extraída- https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/23/Capitao-mato.jpg - Johann Moritz Rugendas

Apresento a todos um personagem que é mais comum do que muita gente supõe, em especial aqueles que acreditam em uma disseminada “consciência de classe”: o trabalhador de bem.


O trabalhador de bem sabe que ganha demais, e entende que o cumprimento das ordens de quem o emprega é um dever, mais do que contratual, de gratidão, porque o salvou de mendigar nas ruas e de roubar as pessoas de bem, e se sente até culpado por ser pago para dar sua insignificante contribuição a que o esforço de seu patrão seja recompensado.


O trabalhador de bem sabe que está a ocupar o espaço vital por uma condescendência de quem realmente merece existir, e que, a rigor, se ele desaparecer, é até melhor para o mundo, pois ele é o culpado de que os bens existentes sejam escassos para satisfazer a todos os que têm melhor título para existirem.


O trabalhador de bem sabe que todo esforço para se fazer agradável a quem o emprega e aos amigos deste será pouco, porém, sempre necessário, porque é sendo agradável a quem merece mandar que ele poderá, quem sabe, ser algum dia admitido no clube dos abençoados.

O trabalhador de bem reza, todos os dias, para que chegue o momento em que acabarão com essa coisa de sindicatos, que na realidade não passam de organizações criminosas a serviço do comunismo internacional, inimigos de Deus que destroem famílias e comem criancinhas no café da manhã, e porão toda essa gente que tenta mentir, dizendo que no mundo desenvolvido os sindicatos são fortes, no lugar que merece: na cadeia, para apodrecerem até o dia em que os anjos do senhor, encarnados nos guardas, os fizerem desaparecer debaixo de bordoada.

O trabalhador de bem, ainda, tem certeza de que se acabasse com essa história de advogado de defesa, a polícia e os juízes poderiam fazer o seu trabalho de limpar as cidades dessa horda de vagabundos com muito mais facilidade, e não há problema em deixar livre a polícia para agir como quiser, inclusive, eliminando-os: afinal, a polícia não mexe com gente que age corretamente.


O trabalhador de bem anseia por poder ter dinheiro para pagar o colégio dos filhos, porque ali tem a certeza de que, na suspeita de tentarem doutriná-los, poderá pedir a cabeça dos professores, coisa que não teria condição de fazer nos colégios públicos, onde além de virem com essa perniciosa mentira de que educação é direito e não favor, ensejada pela gratuidade, eles ainda por cima não podem ser demitidos pura e simplesmente, precisam dessa bobagem de processo administrativo.


O trabalhador de bem sabe que, entre a fila do serviço público de saúde e o atendimento em hospital particular, ter dinheiro para este último é a prova de que foi capaz de fazer com que seus patrões se agradassem dele e, portanto, o conduzissem um passo a mais no caminho da bem-aventurança, livrando-se, assim, da proximidade com a gentalha que não tem a compreensão do quanto custa ser empresário num país em que o trabalhador tem tanto direito e nenhum dever.


O trabalhador de bem sabe que, se perder o emprego algum dia, a culpa é sua, e se não conseguir arrumar outro, é porque é incompetente e preguiçoso, e, pois, deverá pular do primeiro abismo que encontrar, porque se o fizer do viaduto poderá atrapalhar o tráfego. Qualquer pessoa pode conseguir, se for esforçada e competente, ser empregada, mesmo depois dos cinquenta anos, não tem sentido que ela se aposente antes dos sessenta e cinco, nem mesmo diante da possibilidade, decorrente da própria natureza, de extinção da relação de trabalho porque a magnanimidade patronal se esgotou diante daquele ser a que concedeu o privilégio de ser seu empregado.

Educação e previdência: isto pode ser obtido no mercado, o resto são lorotas de vagabundos que fazem orgias com o dinheiro dos contribuintes! Os baderneiros que fizeram a paralisação de 14 de junho, a tal da “greve geral”! Pena de morte para grevista, esquartejamento em praça pública, ao som do Hino Nacional!


Ah, a glória máxima de poder carregar na liteira os grandes nomes do mercado financeiro! Pô-los sentados na cadeirinha e poupá-los do esforço de gastarem seus sagrados sapatos em solo impuro! O sonho do trabalhador de bem, pelo bem de seu país. Se preciso for, morrer, matar, quando puder, para remover os obstáculos à realização dos valores sagrados. Ele está disposto a dizer “viva a morte”!


O trabalhador de bem está orgulhoso de aquela entidade comunista, a Organização Internacional do Trabalho (se é internacional e é “do trabalho”, só pode ser comunista), haver incluído o seu país, novamente, na lista dos que mais violam as normas internacionais relativas aos direitos trabalhistas, porque isto significa que o empresariado está, finalmente, recebendo o reconhecimento que merece.


O trabalhador de bem, por fim, entende que quem demonstrar que essas certezas não são certas só pode ser comunista e defensor de corruptos. Em suma: ele tem ligação direta com Deus e sabe exatamente o que Ele quer...


Antes fosse um “tipo ideal”, na acepção weberiana! Ao contrário, muitos correspondem milimetricamente a esta descrição...

Ricardo Antonio Lucas Camargo escreve todo dia 4 de cada mês na Revista PUB. Professor nos cursos de Graduação e Pós Graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública – IBAP)



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