O ESTADO DE SÃO PAULO E SEU ANTÔNIO

- Sebastião Vilela Staut Junior -



Uma coisa boa de ter retornado do interior, das poucas que por ora posso relatar, e ter iniciado a rotina de distanciamento social aqui na Capital, é o prazer de, aos domingos, sentar-me à varanda para ler o Estado de São Paulo, o tradicional, velho mesmo, periódico conservador da metrópole.


Sim, sou daqueles raros que ainda mantém assinatura ativa do jornal impresso. Assino também, em molde digital, a Folha de São Paulo, engrossando um pouco o caldo cada vez mais fino dos assinantes de jornal.


Muitos se lembrarão da época áurea do “estadão de domingo”. Era um calhamaço de respeito. Páginas e páginas de anúncios variados, onde se podia encontrar um imóvel, um automóvel, um negócio, um edital ou até mesmo um emprego – sim, eles então existiam – isso após, ou mesmo antes, de se desfrutar da leitura dos diversos cadernos que havia: editoriais, política, colunistas, internacional, cidades, economia, esportes, artes e espetáculos e o indefectível e improvável, mas sempre presente, caderno de turfe.


Havia os que gostavam da linha jornalística, havia os que não gostavam e que, como eu, repetiam um conhecido mantra de então: é preciso conhecer as opiniões do Estado de São Paulo para saber do que eu devo ser contra.


Na minha adolescência e juventude, o assinante fiel era meu pai. Assinava o Estadão e ainda por cima, às segundas e quartas, comprava na banca o “filhote moderninho” do periódico, chamado Jornal da Tarde. Era preciso manter as boas relações com o seu Mirabel, dono da banca de jornais. Além do mais ele sabia que eu gostava muito da seção de esportes do vespertino.


Todo mundo aliás, em casa, disputava o jornal de domingo. Eram comuns as conversas: Já leu? Posso pegar a seção de cinema? Tem receita nova? Já fez as cruzadas?


Fiquei sabendo que passara no vestibular através do jornal. Fiquei sabendo que o Corinthians havia comprado junto ao Botafogo de Ribeirão Preto o Geraldão e o Sócrates (isso mesmo, nessa ordem de importância, segundo o matutino) através da leitura do Estadão.


Era o jornal um amigo da família, quase um parente, com seus defeitos, com as manchas de tinta que espalhava, com seu tamanho exagerado, com seus pedaços sem maior interesse, da mesma forma que aquele tio que sempre aparece aos fins de semana e enche um pouco a paciência, mas de quem gostamos tanto.


E nesses fins de semana, mais exatamente aos domingos, é que estava também o personagem que, ao lado do jornal, ilustra o título desta crônica; Seu Antônio.


Ninguém sabia de onde vinha seu Antônio, onde morava, o que fazia ou não fazia. Apenas sabíamos que, com a mesma certeza do juízo final, aos domingos, lá pelas 11:30, ele apareceria, tocaria a campainha e conversaria brevemente com meu pai sobre assuntos leves, enquanto esperava que minha mãe lhe preparasse o prato de macarrão, ou outro que houvesse no dia, para que então o levasse à pracinha logo em frente, onde almoçava impecavelmente sentado no banco, com um guardanapo, fornecido pela minha mãe, pousado ao colo, e o outro, que ele mesmo trazia, cuidadosamente laçado em torno do pescoço.


Lá pelas três e meia, seu Antônio retornava à nossa casa e, mais uma vez, premia a campainha. Devolvia o prato já lavado (nunca soubemos onde fazia isso) e o guardanapo, que meu pai recolhia. Enquanto isso, entre algumas palavras rápidas, ele lhe repassava o objeto que, acredito eu, era o principal intento de suas visitas.


Meu pai lhe entregava o Estadão do domingo, o nosso Estadão de domingo!

Eu, na minha escrotidão, várias vezes imprequei contra isso. Às vezes não o tinha lido inteiro ainda. Às vezes queria guardar um caderno que não tivera tempo de separar. Minha mãe poderia precisar do jornal para forrar algo, sei lá...


Mas era inútil. O jornal, na sua inteireza, plenitude e completude sempre passava, a partir das 4 da tarde de domingo, à titularidade do seu Antônio. E o era por decisão de quem, a propósito, poderia cheio de razões assim o fazer. O titular, assinante e pagante a saber, meu pai.


Hoje já não estão mais o meu pai, minha mãe ou seu Antônio. Não há mais campainhas a serem tocadas. Ninguém mais lê na praça. O jornal está esquálido, os anúncios mal preenchem uma ou duas páginas.


Ficou o prazer de lê-lo na varanda, aos domingos, mesmo magrinho, sem soltar tinta, sem o caderno do turfe (acho que nem existe mais em São Paulo o turfe). Quando é domingo de sol então, com um aperitivo, é tudo de bom.


Ficou também a certeza de que meu pai tinha razão. Seu Antônio, a partir das 4 da tarde, tinha pleno direito ao jornal, a ele todo, todos os domingos, pois já tínhamos tido a nossa oportunidade.


Afinal, é preciso saber repartir o que se tem e é preciso aproveitar em tempo as chances que a vida nos dá. Demorei anos para aprender isso que meu pai e seu Antônio, com o jornal do domingo, há tanto tempo, já sabiam.

Sebastião Vilela Staut Junior é advogado, procurador do Estado de São Paulo, membro do IBAP e escreve regularmente para a revista PUB Diálogos Interdisciplinares.


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