O autômato de Benjamin

Atualizado: Set 15

- Paulo Velten -


Pelo menos desde de 2005 a conceituada revista Nature já informava, em tom de preocupação, que os cientistas haviam ressuscitado em laboratório o vírus da gripe espanhola que, em 1918, matou mais de 50 milhões de pessoas, alertando para o perigo que isso constituía. Os detalhes dessa informação podem ser encontrados no imperdível artigo do amigo Maurício Abdala a respeito da origem da atual pandemia, cuja leitura recomendo insistentemente [cf. link-1 e link-2].


De lá para cara assistimos o fracasso da ética como instrumento de controle das pesquisas científicas. O descontrole da manipulação de genes, bem como a transformação da microbiotecnologia em um enorme mercado, gerido a partir de interesses exclusivamente econômicos forjaram nossa realidade pandêmica atual.

Havia também suspeitas que o salto entre espécies poderia se dar naturalmente, principalmente em função de países como o Brasil serem tolerantes com o tráfico de animais e materiais genéticos para abastecerem a indústria biotecnológica.


Seja naturalmente, seja in vitro, é fato que o salto entres espécies ocorreu, estamos diante de um vírus desconhecido produzindo uma pandemia que, para além do número de vítimas jamais visto, trará lucros incalculáveis ao mercado de biotecnologia.


A manipulação de genes, vírus e bactérias em larga escala é a realização de um sonho de Hitler. Esse sonho agora é um business acessível até mesmo para startups iniciantes. A sombra obscurantista que desenvolveu essa possibilidade produz um espectro sombrio para o futuro.


Essa perspectiva pessimista é a mesma que afligia a alma de Walter Benjamin na década de 1930. O pessimismo de Benjamin não era apenas pessoal, a escola de Frankfurt igualmente ficou conhecida, no início do século passado, pela insurgência contra a então crescente ideia de progresso, tornando-se um movimento cultural pessimista, era o kulturalpessimismus.


Eu tive a oportunidade de publicar um artigo que relacionava a tese IX de Benjamin com os crimes ambientais produzidos pela Empresa Vale ao despejar milhões de toneladas de lama no Rio Doce, sepultando-o. Quando o escrevi, não conseguia imaginar uma tragédia ambiental maior do que aquela, ledo engano, as tragédias ambientais se transformaram em políticas públicas e hoje posso ver que meu pessimismo foi modesto, pois cá estou, comentando a nova maior tragédia ambiental da contemporaneidade, a pandemia.


Assim, vou ampliar um pouco mais a perspectiva para acrescentar que, na tese I Benjamin se refere a um autômato, construído de tal modo que, vestido à moda turca, sentado diante de um tabuleiro, ganhava de qualquer enxadrista. Na realidade, não passava de um truque, no qual, um anão corcunda, mestre de xadrez, se escondia na caixa sob o tabuleiro e, por um sistema de espelhos e cordéis, manipulava as mãos do fantoche.

O fantoche para Benjamin era materialismo histórico, e servia, conforme sua tese VI, como instrumento para fixação de imagens de sucesso do passado. O objetivo dessa fixação era enganar o sujeito histórico atual, de modo que, reforçando um fato admirável do passado se estaria acendendo as centelhas de esperanças messiânicas, e, por consequência, esmaecendo eventuais brasas revolucionárias históricas.


Esta perspectiva nunca esteve tão evidente. O fato de elegermos bobos da corte que se dizem representantes da lei e da ordem como presidentes demonstra a atualidade de sua tese. Nossos governantes são como autômatos, como ventríloquos do mercado, suas baixas capacidades cognitiva e linguística evidenciam isso.


Mas, prosseguindo, na tese VIII afirmava que o estado de exceção nazista viraria regra, mas que ainda era possível reverter aquele estado de coisas, ele advertia que a tolerância do nacional socialismo democrata com a ideia de progressos do nazismo, levaria aos assombros do anjo da morte da história, previstos na tese IX, e que a manutenção daquele progresso histórico tornaria insustentável a civilização.


Alertou ele ainda, na tese XII que, ­- por sinal a menos comentada -, o sujeito histórico daquela época, poderia constituir-se na última classe escravizada e oprimida que teria chances de lutar para honrar a memória das gerações anteriores que foram derrotadas.


É impressionante como aquelas premonições se confirmaram, apesar da derrota do nazismo, a tolerância com a ideia hitleriana de progresso a qualquer custo é total, praticamente não há opiniões contrárias à ideia de progresso. Vive-se num tremendo niilismo dialético, um nada dialético. Mesmo os que são contrários aos poderes hegemônicos qualificam-se como progressistas.


Apesar de nesses 90 anos termos assistido às tragédias ambientais produzidas em Hiroshima, em Nagasaki, em Chernobyl, em Cubatão, em Fukushima, em Mariana, em Brumadinho, na Amazônia, em Wuhan. A historiografia oficial continuou contando sobre um suposto acordo entre o desenvolvimento e a sustentabilidade, entre a ordem e o progresso, bem como entre o oprimido e o opressor.


São raríssimas as produções que conseguem superar o bloqueio criado contra o sucesso de certos mitos que deveriam estar, há muito, superados pela realidade fática.


Em terras brasileiras também temos um pessimista profético, me recordo de uma palestra do Professor Carlos Marés em um evento da Aprodab (Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil, no Espírito Santo) no qual afirmava que éramos apenas fantoches das classes dominantes, e que estávamos condenados pelo mercado a beber agrotóxico e consumir combustível e energia. A crença nesse sistema histórico corrompido, nos transformou em autômatos, incapazes de agir, comandados pelo anão de Benjamin.

PAULO VELTEN, associado regular do IBAP, é pós Doutor, Professor na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).


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