Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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SUBMISSÃO: política, religião e autoironia

- MAXIMILIANO KUCERA NETO -


“É a submissão, [...] a ideia assombrosa e simples, jamais expressada antes com essa força, de que o auge da felicidade humana reside na submissão mais absoluta.”

“Trótski tivera, enfim, razão contra Stálin: o comunismo só conseguiria triunfar se fosse mundial. A mesma regra [...] valia para o islã: ele seria universal, ou não seria.”

Houellebecq, Michel. Submissão; Trad. Rosa Freire d’Aguiar. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.


Michel Houellebecq é um artista excêntrico, caçador de polêmicas e ator da sociedade do espetáculo. Literato de grande sucesso mundial, mas péssimo ator, explora um lado caricato e outro polêmico, com declarações misóginas e reacionárias. No mesmo dia do atentado contra os jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris (07/01/2015), lançou o romance Submissão. Nele, o personagem-narrador, François, hedonista e individualista, é um professor frustrado da Universidade Sorbonne - Paris III (desejaria ter sido nomeado para a Paris IV), especialista em Joris-Karl Huysmans, romancista do séc. XIX. Um parasita inútil modelo francês. O que surpreende e captura a atenção do leitor no romance é o pano de fundo, um mundo em vertiginosa transformação, no ano de 2022, quando um partido até então desconhecido, a Fraternidade Muçulmana, supera o Partido Socialista, e seu candidato chega inesperadamente na disputa do segundo turno com a Frente Nacional, de extrema direita, elegendo Mohammed Ben Abbes, o primeiro muçulmano presidente da França. É culpa da esquerda e do eleitor francês, mesquinho com a ultradireita. O fato gera um novo êxodo, com os judeus deixando a França e migrando para Israel. Aos poucos a Chaira começa a disputar o controle do até então regulado por obsoletas e vetustas leis civis, limitando a educação das mulheres até a idade de 12 anos, quando estarão aptas para o matrimônio, com efeitos altamente benéficos no mercado de trabalho ao gerar abundância de emprego pelo novo papel dos gêneros. A admissão da poligamia masculina é a novidade naturalmente absorvida. Sabe-se do autor que cultiva desprezo pela cultura árabe. Teria definido o islamismo como a mais estúpida das religiões. Tratam os jornais de fofocas esse traço como herança de sua mãe, argelina, Lucie Ceccaldi, que escreveu um livro sobre o filho (A inocente), elogiando o rebento como um bastardinho mau e estúpido, arrivista, mentiroso, impostor, louco por fama e dinheiro. Realmente, parentes não tem isenção.

O romance traz uma sequência de déjà-vus do cotidiano brasileiro. Não tanto pelos fatos políticos, mas sim pelo modo como o personagem se conduz, como um típico macho classe médica amorfo. Claro que no Brasil o personagem iria em manifestações de pessoas de bem e encontraria seu veio político, um outrora partido nanico, agora estrela de neon no Planalto. Não é possível levar Houellebecq muito à sério. Um pouco de razão há que se dar a sua mãe: Jochen Kürten, jornalista da DW, comentando o fato dele ter rasgado elogios à D. Trump, disse que corria o risco de se transformar em um “palhaço político”. Ao público importa mais a obra que o artista – exceção feita à Salman Rushdie, no que diz respeito aos muçulmanos, ao menos –, e ainda que seja um best seller guarda alguma originalidade, em que pese as imitações forçadas de Henry Miller.


A obra não dá muito mais que um olhar oblíquo sobre a política, mas é impossível não ficar inquieto com as semelhanças com nossas próprias misérias. O islamismo não está entre as crenças não justificadas do brasileiro, mas ainda é, no mundo globalizado, de enorme importância. Filósofos como John Gray[1] identificam em organizações com a Al-Qaeda ao menos a modernidade significativa da criação das guerras não convencionais, com o atentado de 11 de setembro, que teria destruído os mitos do Ocidente dominador e do iluminismo como valor universal, e impulsionaram o contra-ataque, com as atuais guerras híbridas e as revoluções coloridas[2] desenvolvidas com fôlego nas últimas duas décadas e de aplicação constante nos países periféricos, inclusive o Brasil. Como artista livre atirador, Houellebecq acaba trazendo à baila, ao acaso, a perversão e a subversão da religião pela política. Como bônus, o multiculturalismo e os movimentos identitários são tratados como elementos neutros ou meros instrumentos, com a sutileza irônica de uma seriedade falsificada, com doses equitativas distribuídas entre a vida acadêmica e a culinária, nessa última através da omissão de qualquer referência à cozinha francesa.


No Brasil, a eleição de 2018 nos transpôs de um cenário onde a religião atuava, há algum tempo, na franja, nos limites do sistema político, para um ponto mais central, resultado de um consistente e persistente amálgama entre religião – em especial as de matriz neopentecostal – e a política, mantendo no Congresso poderosa bancada multipartidária, que juntamente com os ruralistas e os armamentistas, com uma estimativa total de 180 membros, sonha com perspectivas de ampliação com as novas hostes conservadoras que renovaram o legislativo. Essas três frentes parlamentares, aparentemente, encolheram na atual legislatura, e o Governo Bolsonaro, ao que tudo indica, não tem obtido o respaldo esperado, pois o propalado “novo método” de fazer política conflita com as expectativas dos BBBs. Ora, no Brasil parece não haver limites à cupidez. Uma jihad necessitaria, anexo aos princípios, uma tabela de preços. No mais, a insensibilidade e as patologias já estão globalizadas.


Muito daquilo que parece novo, na verdade, é antigo. E vice-versa. Em perspectiva, a religião sempre esteve presente na política, ao menos como elemento sociocultural, em todas as civilizações. Como enfatiza John Gray[3], “a política moderna é um capítulo da religião. [...] A própria ideia de revolução como um acontecimento transformador da história se deve à religião. Os modernos movimentos revolucionários são uma continuação da religião por outros meios.” No contexto global, as doutrinas apocalípticas, religiosas ou políticas, abarcam tanto o oriente quanto o ocidente, e o aiatolá e o presidente americano disputam, entre si, a morte das utopias, lutando pelos escassos recursos do planeta.


Descendo à política eleitoral, devemos nos preocupar com a religião como instrumento político, quando a própria política já é, em si, uma religião? Essa pergunta, contudo, pode levar a outra: haveria, do ponto de vista ético-jurídico, diferença entre a captação de votos com promessas de bens materiais e a captação com promessas de bens imateriais de natureza religiosa ou sobrenatural? Nesse caso, a resposta se dá na lei e na sua interpretação e aplicação. Eis a razão pela qual o próximo ministro do STF deverá ser um religioso evangélico, pois, como as utopias, o Direito também está ferido de morte.

[1] Gray, John. Al-Qaeda e o que significa ser moderno. Rio de Janeiro. Record, 2004.

[2] Korybko, Andrew. Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. 1. Ed. : São Paulo : Expressão Popular, 2018.

[3] Gray, John. Missa Negra: religião apocalíptica e o fim das utopias. Rio de Janeiro. Record, 2008.


MAXIMILIANO KUCERA NETO escreve para a Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares todo dia 7 de cada mês. É formado em Letras e Direito e Procurador do Estado do Rio Grande do Sul.



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