RAUL



-SÓSTENES SOUSA DE OLIVEIRA-


Já haviam se passado três semanas da cirurgia, Raul já não sentia mais as dores lancinantes das primeiras semanas, já não tinha mais o incômodo da sonda a irritar seu órgão, mas, ele, Raul, havia submergido, nos últimos dias, em uma melancolia silenciosa que já chamava atenção de Mariana, sempre tão cuidadosa com seu companheiro de tantos anos. Ele procurava entender o que estava acontecendo; afinal, como disse o médico, a cirurgia havia sido um sucesso e a recuperação, ainda que dolorosa e arrastada, já apontava sinais de melhoras físicas.


Não. Raul sabia que o que o acometia não estava no plano físico, nem era racional essa tristeza profunda, vez que a cirurgia – ainda que realizada com um certo atraso – havia evitado complicações ainda maiores se a doença continuasse a evoluir. Ele repetia para si mesmo essas palavras quase como mantras: “a cirurgia foi um sucesso”, “se evitou o agravamento da doença”, “passada a recuperação, vou ter uma outra e melhor qualidade de vida”. Nos momentos de maior angústia, Raul, hoje um agnóstico empedernido (“agnóstico cristão”, ele dizia às vezes, brincando com o oxímoro), buscava no pai-nosso e na ave-maria – tão comuns em épocas de muita espiritualidade – palavras de conforto para vencer a insônia e a tristeza. Aliás, essa duas orações, aprendidas nos tempos longínquos do catecismo na infância, foram recitadas mentalmente enquanto Raul era levado na maca para a sala de cirurgia, para ajudar a vencer o medo que o estava atravessando desde os dias que antecederam à hospitalização.


Medo. Medo da morte. Medo de não retornar. Medo da dor. Foram esses os medos que o assolaram – de forma surpreendentemente forte – e que ainda teimavam em acompanhá-lo até agora. Além do aperto que causa no coração, o medo, ou os medos incomodavam Raul naquilo que era mais profundo em sua formação de homem. Difícil não pensar nas duras lições de seu pai sertanejo, incutindo-lhe coragem para os enfrentamentos da vida. Não chorar, sofrer calado, enfrentar os medos, trincar os dentes e confrontar os perigos. Assim, tinha sido sua formação. Assim, havia construído seu comportamento diante da vida. Por vezes, seu filho caçula dizia: “papai parece não ter medo de nada”. Por isso o estranhamento que tomou conta de Raul, que tentou compreender por que tanto medo, por que tantos medos. Antes da cirurgia, até procurou fazer um inventário de seus medos pretéritos, sentimento-sensação com o qual havia perdido contato já há um bom tempo, para compreender o que estava vivenciando nos tempos atuais. E aí percebeu que, ao lado do medo, havia algo com que sempre tivera imensa dificuldade de lidar: o de perder o controle da situação, de entregar sua sorte nas mãos alheias, ainda que, neste caso, de médicos competentes (às vezes, os amigos brincavam com Raul e sua obsessão em ter tudo sob seu comando: “se entrega, Corisco!” e ele respondia: “eu não me entrego não; só me entrego na morte, de parabélum na mão”).


Tudo isso vem à mente de nosso Raul agora: com seu próprio corpo, havia se entregado não só à cirurgia, aos médicos, às enfermeiras, à companheira e aos filhos que também o ajudavam, mas, também, involuntariamente, à dor, às dores que vieram com uma intensidade nunca antes sentida por Raul. Medo e dor se misturavam no pós-operatório, medo e dor se revezavam, pois, na trégua em que a dor lhe concedia, vinha o medo de voltar a sentir dor e isso se arrastou por longos dias e noites, num sofrimento que às vezes parecia interminável e insuportável.


Raul, que havia construído, para si e para os outros, uma imagem de homem grande, invencível, sentia dor, sentia medo, se sentia pequeno e indefeso e isso tudo foi lhe trazendo essa melancolia que o atravessava agora. Parece que o medo havia aberto a porta, no dizer do poeta, para o sertão de sua solidão. Sim, solidão. Não porque Raul não tivesse sempre ao seu lado Mariana e seus filhos, mas, porque esses sentimentos e sensações – a dor e o medo, o medo e a dor – não são compartilháveis; são tão individualizados quanto solitários e profundos. Isso tudo fazia Raul mergulhar nesse sertão interior, buscando compreender sua fragilidade enquanto homem-masculino e homem-ser humano diante da doença, da dor e do medo.


Sim, já não podia ter controle de tudo, já não era invencível, mas, talvez tudo isso lhe tenha trazido um pouco mais de humildade e de humanidade. Raul suspirou profundo e deixou que todos esses pensamentos, todas essas sensações, todos esses sentimentos tomassem conta de si; já não queria mais ter tudo sob controle... Talvez a vida pudesse ser mais leve, pensou Raul, antes de adormecer.



Sóstenes Sousa de Oliveira, servidor público aposentado, é apenas um pseudônimo utilizado para garantir o anonimato de Raul, seu verdadeiro heterônimo.


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