O poder do anel: uma analogia

-FREDERICO ARZOLLA-



Quando vejo opressores impondo decisões às massas, vejo uma grande energia latente, prestes a explodir. A opressão é tanta que o opressor perde qualquer sensação de limite. Não basta reduzir direitos, há que se ter requintes de crueldade.


Na história humana, ciclos se repetem. A subjugação do povo um dia chega ao fim. Olhar para trás é um excelente exercício para se ver o que se tem pela frente. Modelos são repaginados, contextualizados. Mas o que temos? Começo, meio e fim. Apoteoses e colapsos de civilizações.


A superexploração do meio natural tem sido uma das causas do colapso. Outras vezes, a superexploração do próprio ser humano. Há os acumuladores de poder, de riquezas. Há a massa trabalhadora, e entre esses extremos opostos, alguma gradação; pouco a muito conforme o desenvolvimento da sociedade. As camadas dominantes pecam quanto à insensibilidade em relação às massas e suas condições de vida; já as massas, pelo desconhecimento de sua força.


Há aparatos de repressão e de controle bem instalados, assim como sistemas de dispersão e desinformação. A alienação é um meio de manter tudo sob controle. Alienam-se os ricos, alienam-se os pobres. Alienam-se todos, de seu poder, de escolher e construir um mundo melhor.


A tendência de sociedades autoritárias é o achatamento da classe dominante e da classe dominada e a distância abissal entre elas. A exploração do trabalho, com valores aviltantes, é o impedimento à evolução material. A diminuição dos direitos e a precarização do trabalho constituem a fragilização cada vez maior da população e o controle cada vez maior da sociedade pelos senhores do mundo, os donos do poder.


Numa analogia é o poder do anel que transforma e insensibiliza, diante da acumulação de riquezas e fortuna. Assim como tratam desta forma o outro ser humano não consideram as outras vidas, as outras espécies e a natureza do planeta. Florestas são destruídas num ritmo alucinante. É o capitalismo predatório que reina neste país, desde a colonização no séc. XVI. É o Brasil colônia operante. Mudam-se os eixos, mudam-se os territórios, mudam-se as fronteiras. Ecossistemas são destruídos. São milhares de vidas. São milhares de anos de serviços ecossistêmicos e de um equilíbrio dinâmico natural, construídos em bases evolutivas. Mesmo economicamente há pouca racionalidade pois destroem-se todas as opções de produtos e serviços para o corte da madeira e posterior uso agropecuário.


A sustentabilidade do planeta depende de outro tipo de civilização, baseada no respeito nas relações entre seres humanos e destes com a natureza. Se sobreviveremos? É uma boa questão, pois não fazemos por merecer. O nosso rumo é o colapso. A sociedade precisa evoluir e adquirir maior consciência. Por que tanta desigualdade? A quem interessa a pobreza? Por que convivemos com ela e somos cada vez mais insensíveis? Por que nos perdemos diante dos pequenos anéis que nos distraem e por vezes norteiam nossas vidas? A saga do Senhor dos Anéis nos traz esta reflexão. A tentação do anel corrompe as pessoas. Assim como encontramos um mundo corrompido ao nosso redor, há muitos senhores do mundo construindo suas pirâmides de exploração.


Aqueles que percebem tem o dever de alertar e trabalhar para construir um mundo mais justo e mais fraterno. E contribuir para despertar a consciência de cada um e assim construir a consciência coletiva que poderá mudar o rumo da civilização, do colapso à redenção.


Há muitos focos emergindo esta luz, disseminando valores, despertando consciências, mentes e corações. É lenta a construção e a evolução, e rápida a destruição. Que os pontos de luz vibrem mais alto e superem seus próprios medos em se expor e se colocar, e assim trabalhar a bondade do ser humano para que esta prevaleça diante das sombras.


Não há como retardar, se diante de nós há um colapso iminente. Seremos mais uma sociedade extinta que ficará registrada para a história? As causas ficarão muito bem justificadas, diante da usura e da falta de respeito com o outro ser humano e os outros seres. Seremos lembrados pela destruição. Se não fomos diretamente responsáveis, deixamos ela acontecer, diante de nossa inanição e mediante todo um sistema administrativo, legislativo e judiciário que se perdeu na discussão e pouco fez na prática.


Há grandes lutas e grandes batalhas. Cabe aos seres já despertos, que se engajem, não se acomodem. Não há tempo a perder. A conscientização da sociedade é cada vez mais necessária. E cada vez é mais necessária, a participação desta nas decisões. Manifestações, reivindicações, ações populares, ação de conselhos e representações são necessárias.


Escolher melhor os representantes é fundamental. Não se iludir por aqueles que só ouvem a população às vésperas das eleições e depois nos próximos quatro anos só atendem seus próprios interesses ou de grupos que representam. O saneamento dos poderes é muito importante, não os deixando sob o controle dos senhores do poder. Que estes se tornem autônomos e trabalhem em prol da população.


Há muito o que fazer para um país melhor, o que não pode é o ser humano se acomodar. Se mudarmos o padrão da nossa sociedade, talvez ainda tenhamos alguma chance. Caso contrário, seremos um capítulo, mais uma sociedade extinta, no livro da história da humanidade.

Frederico Arzolla é Engenheiro Agrônomo, Doutor em Biologia Vegetal, Pesquisador em Conservação da Natureza e Florística e Fitossociologia de Árvores da Mata Atlântica







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