A ESTRELA DO AMANHÃ

-PAULO VELTEN-


A figura icônica de Ernesto Chê Guevara, um dos líderes da revolução cubana, sem qualquer desprestígio à sua vida e obra, me parece maior do que sua própria história, ganhou um simbolismo que significa muitas coisas no imaginário popular mundial. Em qualquer lugar sua imagem é reconhecida e mesmo que nem sempre reverenciada, segue influenciando gerações que não o conheceram ou que, sequer se identificam com seus ideais por ele defendidos.


Sua imagem é um contraste com a de outros ícones políticos que obtiveram notoriedade na história, tal qual Hitler, Mussolini e, no Brasil, Getúlio. Todos estes tiveram atrás de si uma máquina difusora de propagação de sua imagem.


A mais famosa foto de Chê, tirada em 1967, faz parte da memória ótica do século XX, esta lá, no “inconsciente ótico” (para usar uma expressão de Walter Benjamin) de quem nele viveu, e resiste contemporaneamente como alusão a um sentimento utópico, terno e revolucionário. É marco que desafia o liberalismo, como referiu José Saramago “Ernesto Chê Guevara se transformou na imagem universal do sonho revolucionário de todo o mundo e que continua a existir mesmo depois de morto”.


Sua lendária figura ressalta a importância da manutenção do espírito místico e utópico necessário para o prosseguimento da vida. A guerrilha armada foi seu método de vida. Mesmo quando chegou ao poder em Cuba juntamente com os irmãos Castro, não se acostumou com a vida negocial, ainda que, como ministro da Economia tenha se virado muito bem, sua perspectiva sempre foi a guerrilha revolucionária, era com ela que seu espirito estava envolvido.

Esse ponto merece destaque, a disposição guevariana ao combate sem tréguas, sem negociação. A pretensão de insuflar a turba até que se torne incontrolável.

A imagem de Chê se constitui numa espécie de porta de acesso ao imaginário popular, que oprimido, vê no mito revolucionário um reflexo de sua própria vida. O acesso que esse mito representa passou a ser cobiçado pelo “mercado”.

Há, nos dias atuais, um contundente ataque a esse sistema de acesso ao imaginário popular com interesses exclusivamente mercantilistas. Prova disso é a profusão de tentativas de criação de novos mitos.

Atitudes como rasgar a placa de rua em homenagem a Marielle, ativar de helicópteros, determinar execuções públicas, não passam de tentativas de protagonistas covardes de acessar o referido inconsciente ótico coletivo.


Eventualmente, este tipo de tática pode produzir de fato um resultado trágico como nas últimas eleições brasileiras com a eleição relâmpago de mercadores de armas. Ocorre que esse acesso vilipendioso é como o acesso por meio de um Hacker ao inconsciente coletivo, ou seja, ele é furtivo, momentâneo e só dura alguns segundos históricos. Vide as histórias de ditadores como Mussolini que, em um instante achavam que comandavam rebanhos, noutro estavam mortos dependurados de cabeça para baixo em praça pública.


Assim como na sinistra perversão dos mitos pelo fascismo italiano, pelo nazismo alemão e porque não dizer, no brasileiro, em várias fases históricas no século XX e agora requentado. São fakemitos fabricados tentando esmaecer a figura dos mitos estabelecidos.

Assim como o povo alemão vitimado pelo nazismo, a letargia, a perplexidade e a estagnação tomou conta dos brasileiros e demonstra quão amedrontados estão.

Toda essa escória perecerá, mitos são a imagem possível de kronos, são testemunhos do tempo e não podem ser fabricados.


Mesmo diante das espetaculares imagens cerimoniais que o nazismo fazia produzir com o fim de criar seu mito, Schleger alertava para a necessidade de dirigir o olhar para o futuro no qual os seres humanos redescobrirão a força que transformará o mito em energia utópica.


Assim como o povo alemão vitimado pelo nazismo, a letargia, a perplexidade e a estagnação tomou conta dos brasileiros e demonstra quão amedrontados estão. Aqui faço um parêntese para me referir ao que se dizem ambientalistas (categoria à qual me incluo), absolutamente petrificados diante da estratégia de fazer arder a natureza como tentativa de vilipendio dos mitos anteriores.


Mas essa aceitação resignada não pode nos fazer descrer no curso da história, é preciso estar pronto para nadar contra a corrente, afinal não se pode viver como um ser humano digno sem lutar contra a fake ordem antinatural e anti-histórica vigente. A peste fakeana mitológica que se espalhou a partir da caserna, através dos piolhos dos equinos das cavalarias para os salões reais e até aos mais sacrossantos templos religiosos, com o objetivo de afogar os espíritos livres em chumbo líquido vendido por seus patrocinadores de dogmas mercantis.


Mas qual seria o mito capaz de incendiar a morna cultura que tenta nos obscurecer?Michael Löwy (nosso referencial teórico adotado aqui com sua obra A estrela do amanhã, 2002), ensina que para aquele imbróglio do início do século, Breton já apontava para o surrealismo como solução, através da elaboração do mito coletivo de sua época, não germânico-nacionalista, mas humano e universal, ou seja, a elaboração do surreal seria a alternativa à profana dominação religiosa.


O surrealismo não é uma escola literária, mas um lugar mágico de resistência, de revolta do espírito, uma tentativa de re-encantamento do mundo, uma busca por um novo “encantamento” dos espíritos desesperançados, através do protesto contra a racionalidade limitadora do positivismo científico que tenta continuamente encapsular a cultura brasileira, principalmente a jurídica.


A imagem utilizada por Breton em Arcano 17 para demonstrar o símbolo maior da resistência daquele duro ano de 1937 foi A Estrela do amanhã. A imagem deste astro representa a mais alta imagem da insubmissão, somente a revolta que é criadora da luz e essa luz é produzida pela poesia, pela liberdade e pelo amor.

Pois bem, esta mesma estrela, já representou no Brasil a esperança. Amanhã, iluminará novamente, como um Sol, aqueles que tem tentado escurecer o imaginário popular. O surrealismo já venceu inimigos maiores, e, daqui a cinquenta, cem anos, nada do que está posto resistirá, seu legado será a insignificância histórica. Mas o mito guerreiro estará lá, intacto, nas pupilas imaginativas do inconsciente popular.

PAULO VELTEN é professor no curso de direito na Ufes- Universidade Federal do Espirito Santo, articulista na revista PUB no dia 09 de cada mês.


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