TRAGÉDIA? FARSA? OU TUDO ISSO, MAIS UMA VEZ
- há 2 dias
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-Sebastião Staut-

Há cerca de um ano, e talvez algum leitor mais atento possa recordar, a nossa querida Revista PUB publicou artigo meu que tratava, vejam só, dentre outros temas, da invasão do Iraque pelos Estados Unidos da América do Norte, do conflito então em recrudesci
mento no Oriente Médio e dos problemas então enfrentados pelos nossos, mais notórios que notáveis, Ciros, a saber: o Nogueira e o Gomes.
Vale a pena recordar alguns trechos do texto vazado em junho de 2025, e que poderiam ter sido escritos hoje:
Sábado. Enquanto me preparava para escrever esta coluna para a Revista PUB, fico sabendo que os Estados Unidos estão bombardeando o Irã. É a formalização da guerra anunciada, o início de mais uma intervenção que sabemos como começa, mas não como e quando pode acabar, se é que vai acabar.
Diante da sensação de desânimo e tristeza por saber que as inenarráveis situações de sofrimento humano que derivam dos conflitos no Oriente Médio vão perdurar, que as crianças famintas de Gaza ainda vão ter de suportar o insuportável por mais e mais tempo, corro os olhos pela estante da biblioteca e, como num jogo de coincidência, o primeiro livro que focalizo é Ciropedia, de Xenofonte, uma edição antiga, da Jackson, herdada de meu pai, cuja data não consigo precisar, traduzida por João Félix Pereira e prefaciada por Antenor Nascentes.
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Como este triste e gravíssimo período de guerra vai se desenrolar? Não sei. Quanto sofrimento humano ainda há por vir? Não sei. Se esse conflito vai nos aproximar ainda mais de uma catástrofe climática ambiental? Não sei tampouco.
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Mas, neste mesmo dia de incríveis coincidências, indo de salto direto dos conflitos que assolam o mundo para os percalços de nossa política regional, passo a escutar no rádio referências a outros Ciros, estes bem notórios e nossos, quais sejam, o Ciro Nogueira e o Ciro Gomes.
Inunda-me o espanto! Quanta diferença, mas quanta, entre o Ciro Rei da Pérsia e seus xarás desta terra de palmeiras, onde canta o sabiá.
Consta que, em suas palestras, Hegel houvera pontuado que todos os fatos e personagens de grande importância na história mundial se repetiriam, por assim dizer, por ao menos duas vezes. Essa afirmação encontraria posteriormente, por circunstância da publicação do “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, a devida reparação de Karl Marx, ao ensejo sublinhando que essa repetição se daria: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Muito embora a referida obra tenha sido concebida em contexto específico do “coup d`état” de 2 de dezembro de 1851 e da instauração do Segundo Império em França, o excerto dela extraído ganhou conhecimento geral e é usada muito frequentemente fora desse âmbito, sempre a despertar alentado interesse, dado o seu perfeito cabimento em fatos e personagens que hoje vemos, com constância assustadora, se repetirem sob nossos incrédulos olhares.
O Irã, em menos de um ano da publicação de nosso anterior artigo, foi novamente atacado, agora pela dupla Estados Unidos-Israel, e mais uma vez não sabemos quais as consequências que resultarão do conflito criado. Até agora, muita violência, destruição, sofrimento humano e a desorganização do mercado petrolífero, além dos ganhos absurdos da indústria armamentista.
Quem vai faturar mais politicamente? O conflito levará à derrota de Trump nas eleições de meio de mandato? Israel irá anexar o sul do Líbano e ocupará todo o território Palestino? O Irã resistirá? Até quando? A União Europeia continuará a assistir o conflito como um espectadora assustada e inerme? Como ficará a navegação no Estreito de Ormuz? Até quando a situação de Gaza ficará sem solução de futuro? Quais serão as consequências humanas? Quais serão os danos ambientais irreversíveis?
A resposta a essas perguntas, e tantas outras que se poderia formular, obviamente não tenho e, sejam quais forem, estarão sempre transitando entre o reconhecimento da tragédia e da farsa, como bem havia pontuado Marx.
E mesmo aqui, no nosso plano doméstico, não é que, depois de um ano, muita coisa também se repete! O que dizer dos nossos Ciros, o Nogueira e o Gomes, novamente povoando as manchetes com razões, por assim dizer, pouco edificantes.
O Nogueira, sempre ele, é uma espécie de moto-contínuo do escândalo. Não há um que deixe passar sem embarcar com decisão. Faz questão absoluta de estar envolvido em todos. Nesse maioral de agora então, do também onipresente Vorcaro, olha ele lá, para surpresa de ninguém. O homem que havia, faz pouco tempo, em evento na Faria Lima, decretado a morte política de Lula, parece hoje muito mais perto das coroas e do féretro que nenhum outro, não é mesmo? Quem diria?
O outro Ciro, o de Sobral, que não quer ficar por baixo quando o assunto é constrangimento, lança sua candidatura ao governo do Ceará apoiado por Flávio Bolsonaro (também conhecido como Bolsonarinho, o do filme), André Fernandes (o festejado coach de depilação íntima) e vários integrantes da extrema-direita mais tosca e do motim militar que levou, inclusive, Cid Gomes, seu próprio irmão e padrinho político, a ser alvejado por pelo menos dois tiros.
Estão aí todos os elementos, de tragédia e farsa, apontados por Marx nas repetições históricas referidas por Hegel. Um quadro pra lá de preocupante, tanto quando se olha o passado como quando se observa a perspectiva.
Espero, de verdade, que daqui a um ano não tenha que revisitar esses mesmos temas, essas mesmas farsas e tragédias, e que possa voltar às crônicas, que me agradam muito mais o escrever e, quiçá, também o paciente leitor que nos acompanha.
PS: E não temos nem a Copa do Mundo para refrescar os ânimos, porque essa edição se prenuncia uma chatice dominada pelas Bets e pela grana (muita). Aliás, é um bom tema a ser explorado e talvez eu trate dele num próximo artigo.
Sebastião Vilela Staut Júnior é advogado, Procurador do Estado de São Paulo aposentado, associado do IBAP e contista/cronista acidental. Publica sua coluna todo dia 26.




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