Em busca de nomes e sobrenomes

-JULIANA BERLIM-


Ao ler o texto de um amigo sobre sua linhagem familiar, que começava em seu tataravô e terminava em seu filho, comecei a rememorar os passos da minha história e percebi as lacunas. Tenho uma história pessoal perdida, porque história pregressa no Brasil é privilégio.


Obra "Envolvimento" de Pedro Paulo Giudice de Menezes

Brasileiro que se debruça sobre sua árvore genealógica não conseguem cartografar o mapa de seu parentesco com facilidade. Me lembrei do filme Hitch- Conselheiro amoroso, no qual a personagem do Will Smith surpreendia a da Eva Mendes levando-a para identificar o nome de um ancestral no livro de registros de imigrantes de Nova Iorque. Era uma forma de valorização do lugar de partida. Em mais uma história contada, houve uma vez um parente padre no Ceará e que, burlador de seus votos, gerou uma prole cujas ramificações deram em São Paulo capital e renomearam, gerações adiante, um descendente, seu tataraneto, o autor do relato que ouvi. Um país e um século inteiro depois, a continuidade do nome e da tradição de um núcleo familiar que, embora afastado de seu sítio originário, mantém a linha da coesão interna. Mas quem mais no Brasil consegue isso? Pouca gente, no duro.


A pobreza genealógica sinaliza que a crise no Brasil não é apenas estética, mas é identitária. O Brasil apagou de propósito as ancestralidades ameríndias e africanas da nossa população. Saber meus sobrenomes espanhóis e portugueses e não localizar um simples traço da minha ancestralidade negro-brasileira dá a exata medida do quanto a nação brasileira reforça os procedimentos coloniais e ignora a dor do apagamento da história da maioria da população, que, muitas vezes, se origina de famílias de escravizados. Apagar estes rastros, substituindo os nomes nativos por nomes portugueses, é impedir o redesenho de linhagens afro-brasileiras e ameríndias que permitiriam uma agência mais positiva sobre a história de povos com epistemologias próprias, que foram expurgados de suas tradições e de seu espaço vital por causa de um projeto colonial racista. O corte na linhagem familiar dos descendentes de povos marcados pelo uso da oralidade é sintomático de que história deve ser contada: a dos vencedores, que costumam ser brancos e europeus.


Um povo com linha genealógica mutilada é o reflexo da história de outrens, em vez da sua própria. A fala do líder quilombola Antonio Bispo dos Santos, que me foi apresentada pelo mesmo amigo genealogista do primeiro parágrafo, sintetiza e amplia meu pensamento: “O colonialismo nomina todas as pessoas que quer dominar. Às vezes fazemos a mesma coisa sem perceber: quando temos um cachorro, por exemplo, damos a ele um nome, mas não um sobrenome. Os colonialistas dão um nome, mas não dão um sobrenome porque o sobrenome é o que expressa o poder. Nome coisifica, o sobrenome empodera. “Como se vê, negar o sobrenome a alguém é coisa pra cachorro. Por isso, a destruição dos nomes familiares dos povos submetidos pelos portugueses nos mostra que, para a dominação, apagar é o mesmo que esquecer. A quem convém ignorar o testemunho desta violência ancestral, sentida em cada árvore genealógica de ramo podado? Quando se olha a certidão de nascimento de uma pessoa brasileira, quantos assassinatos de nomes e sobrenomes se deixam entrever?

Juliana Berlim é professora e escritora carioca.


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