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A geração ceifada






-CARLOS MARÉS-




Por Desconhecido - Arquivo Nacional, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=74826777

Todo jovem caminhando pelas ruas de Montevidéu no início dos anos de 1970 era suspeito. Os brasileiros exilados, em sua maioria, eram da geração dos políticos cassados em 1964, já não eram jovens. Os oriundos do movimento estudantil eram poucos e sua aparência, modo de vestir e caminhar, os confundia com os integrantes da mais temida e ousada resistência urbana da América Latina, os Tupamaros. Eram suspeitos!


Caminhar no centro de Montevidéu, então, era atividade de risco, todo guarda da esquina sonhava em prender um tupamaro distraído, o que nunca acontecia, mas a obsessão continuava e bastava ver um estudante caminhando para se apressar em abordá-lo. Não era incomum em um trajeto de dez quadras ser parado três vezes. De cada dez abordagens uma ou duas resultava em condução à delegacia mais próxima. Na maior parte das vezes, o guarda não entendia o estranho documento que o Uruguai expedia aos exilados políticos. Era uma folha de papel com timbres, selos e brasões e um longo arrazoado, começando por elencar as razões políticas da perseguição no Brasil e, finalmente, concedendo asilo político. O guarda da esquina não entendia, lia as difíceis palavras entremeadas de acusações e levava o incauto para a delegacia, o delegado lia atentamente e, com sorte, entendia e soltava sem muitas gentilezas. Lá se ia a manhã ou a tarde do jovem exilado. 


Nem sempre o delegado entendia, porém. As vezes o palavreado ou a lógica da proteção não era captada e o caminhante mantido preso até novas averiguações. O pobre exilado não tinha mais remédio que chamar um advogado, invariavelmente um exilado da geração mais velha. As vezes, depois de várias leituras do insólito documento, de conversas sussurradas, os policiais chegavam a conclusão de que o preso deveria ser devolvido ao Brasil. O problema era como fazer, teriam que aguardar ordens superiores que poderiam levar dias, ainda que certamente resultasse na soltura do custodiado, a  espera era angustiante. 


Depois da difícil conversa com o delegado, a pergunta libertadora: “Mas, você tem um advogado?” “Claro, é o Ministro Amauri Silva e este é o telefone”, era a pronta resposta acompanhada da entrega do cartãozinho escrito à máquina, sempre disponível no bolso, bem guardado e bem legível.

Depois da difícil conversa com o delegado, a pergunta libertadora: “Mas, você tem um advogado?” “Claro, é o Ministro Amauri Silva e este é o telefone”, era a pronta resposta acompanhada da entrega do cartãozinho escrito à máquina, sempre disponível no bolso, bem guardado e bem legível. Raras vezes Amauri tinha que vir à delegacia assinar um novo papel que envelheceria na gaveta, a conversa do responsável com o Ministro, pelo telefone, em geral era suficiente. Às vezes Amauri precisava ligar para uma autoridade local, às vezes vinha até o posto policial pessoalmente resgatar o jovem preso, sempre com um sorriso conformado. 


Amauri era o advogado geral dos exilados jovens em Montevidéu. Mas era muito mais do que isso. Era também o anjo da guarda que cuidava de tudo, do frio à fome. Tinha um restaurante numa das praias mais badaladas de Montevidéu, Pocitos, todo envidraçado e de frente para o Rio de La Plata, se chamava Cangaceiro, era caro e sofisticado demais para os exilados jovens, mas Amauri aceitava como pagamento uma boa conversa e uma troca de opinião sobre o teatro ou o filme em cartaz na semana. Então, fornecia uma refeição especial com ingredientes menos valorizados pela clientela de elite, como as asas de frango que naquele tempo tinham que ser comprados inteiros. O mágico cozinheiro do Cangaceiro transformava as asas no maravilhoso “força aérea” que era devorado com a voracidade própria dos 20 anos.




Por Desconhecido - Arquivo Nacional, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=69580464

Mas ainda não era só isso. Amauri financiava pequenos investimentos para os exilados proverem a vida, como uma pequena banca de frutas ou revenda de linguiças, além, é claro, de conseguir aqui e ali um emprego decente. Se alguém estivesse com frio, logo surgiria uma ceroula grossa e nova como um presente a mais. Amauri não tinha fortuna pessoal para bancar tudo isso, e todos sabiam que ele sempre contava com a generosidade oculta de Jango que era visto, muitas vezes, jantando com Maria Thereza numa discreta mesa do Cangaceiro. Nessas oportunidades Jango e Amauri conversavam longamente e os devoradores da “força aérea” recebiam apenas um gentil cumprimento de cabeça do ex-presidente.



Amauri Silva, na época, tinha menos de cinquenta anos, completara quarenta no ano do golpe, em 1964, e só voltou à vida pública em 1983, com a eleição de José Richa para o governo do Paraná. Teve a vida política ceifada pela ditadura como tantos outros de sua geração. Quando do golpe de estado Amauri era Ministro do Trabalho e Previdência Social. Sua trajetória política e atuação brilhante como Ministro indicava um destacado futuro como liderança nacional. O golpe que estragou o Brasil, como dizia Paulo Freire, também estragou histórias de vida e interrompeu e enfraqueceu a construção de lideranças populares como Amauri. Aliás, o mundo brasileiro em Montevidéu, na época era povoado de homens pertencentes à geração ceifada. 


Embora fosse do sul do Paraná, nasceu em Rio Negro, sua base política e profissional foi Londrina. Contava histórias sobre seus primeiros passos na advocacia, com o piso do escritório mais ou menos improvisado manchado de barro vermelho na defesa de causas populares. Ria contando os casos. Londrina tinha pouco mais de 20 anos de fundação e muito conflito social. Foi eleito Deputado e Senador pelo Paraná numa coligação de esquerda, pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) de Jango e Brizola. Dedicado e cortês era engajado nas lutas populares.


João Goulart o convidou para assumir o Ministério do Trabalho e lá se empenhou em regulamentar e implementar a sindicalização dos trabalhadores rurais, realidade que conhecia muito bem da experiência de sua advocacia em Londrina e que fez com grande competência, mudou a realidade sindical rural nos poucos meses de Ministério. Foi ele, também, que negociou a libertação dos marinheiros entrincheirados no Sindicato dos Metalúrgicos e convenceu Jango a lhes conceder anistia. Com isso ganharia o ódio mortal dos militares e dos latifundiários que apoiariam o golpe de 1964. Já havia assumido a liderança trabalhista, de esquerda, aberta pela morte de Souza Naves em 1959, no Paraná, e estava ganhando rapidamente foro nacional. Era um líder popular em ascensão. 


No dia do golpe foi até Porto Alegre conversar com Jango e estava disposto a resistir. Mesmo com Jango ainda no Brasil, o Congresso declarou vago o governo e permitiu que as baionetas decidissem o futuro. O golpe estava consumado. Jango pediu a Amauri que voltasse ao Rio de Janeiro e assumisse sua cadeira no Senado, afinal seria importante ter senadores ativos que defendessem a democracia violada. Amauri voltou e no dia seguinte sairia a primeira lista de políticos cassados. Amauri era o número um. O golpe foi dado para reprimir o movimento camponês e Amauri tinha sido o responsável por sua sindicalização e fortalecimento. Passou a ser um dos políticos mais perseguidos pela Ditadura que não permitiu a nenhum país que lhe desse asilo em suas embaixadas no Rio de Janeiro, o que o obrigou a sair clandestino para o Uruguai.


Como Bolívar em Bogotá, Amauri teve que pular uma janela para sair do país que estava ajudando a libertar. Era, ao lado de Jango e Brizola, uma das maiores autoridades brasileiras no exílio uruguaio. Culto e amável, com uma simplicidade séria e sorridente, não havia quem não o quisesse bem e respeitasse, não importando as eventuais divergências que na época dividiam a esquerda brasileira, não perguntava a filiação política dos presos para prover sua liberdade, não por amor à advocacia, por humanidade. 


Todos esses atributos davam a Amauri a qualidade de conciliador e sua proximidade com Jango o transformava em intérprete privilegiado do ex-presidente com os exilados de todas as gerações. Teve sua vida política ceifada. Quando voltou a atividade política, já com 60 anos, seu tempo havia passado e o Paraná e o Brasil perdiam uma expressiva liderança popular. Fez parte de uma geração ceifada pela violência da Ditadura. Os melhores quadros, os mais promissores, os mais decididos tiveram sua atividade anulada. Como Amauri, Djalma Maranhão, Neiva Moreira, João Goulart, Francisco Julião e muitos outros foram impedidos de continuar a luta junto ao povo. É incrível imaginar como um país destrói uma geração pela força da arrogância militar, instalando uma ditadura para impedir avanços e melhorias sociais. E é mais incrível ainda pensar que há movimentos para reimplantá-la.


Ditadura, Nunca Mais!


 

Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito Socioambiental da PUC-PR, é Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública - IBAP.



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