O JOVEM GLAUBER ROCHA, O DIREITO E O CINEMA

- Julio Cesar de Sá da Rocha -

Glauber Rocha - Foto: Arquivo Nacional - Autoria desconhecida.

Glauber Rocha foi cineasta, escritor, ator, nasceu em Vitória da Conquista, Bahia, em 14 de março de 1939 e faleceu em 22 de agosto de 1981, no Rio de Janeiro. Seus filmes marcaram o cinema nacional. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) são três filmes paradigmáticos, nos quais a crítica social é articulada como uma forma de filmar que pretendia romper com o estilo “americanizado”. A pretensão era compartilhada pelos outros cineastas do Cinema novo, corrente artística nacional liderada principalmente por Rocha e influenciada pelo movimento francês Nouvelle Vague. Este Glauber é o mais conhecido, mas existe outro que poucos conhecem, o jovem Glauber cursou a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Em 1957, aos 18 anos, Glauber entrou para a Faculdade, vindo do Colégio da Bahia (Central), cursando até o terceiro ano (1961), abandonando para iniciar uma breve carreira jornalística como crítico de cinema, ano que produziu Barravento. Participou de jornais, colaborou nas revistas culturais e em semanário. Foi perseguido pelos militares, contestado e incompreendido por lideranças da sua época.

Da Faculdade de Direito aconteceu seu namoro e casamento com uma colega, Helena Ignez. Foi no primeiro filme de Glauber, o curta O Pátio, que Helena começou a sua carreira de atriz e decidiu largar a Faculdade. Glauber foi colega na Faculdade, dentre outros de Fernando Peres, Professor Emérito da UFBA. Em 1957, quando entrou para a Faculdade de Direito da UFBA, então regida por Edgard Santos, Glauber manteve contato com uma fase extremamente viva das artes. Interagindo fortemente com diversas unidades universitárias, dentre as quais a Escola de Teatro, sob a direção de Martim Gonçalves. Ele também teve contato com membros dos Seminários Livres de Música, com a Escola de Dança, e também com a arquiteta e cenógrafa Lina Bo Bardi, que trabalhava entre o Museu de Arte Popular e o Museu de Arte Moderna. Além destes, muitos outros artistas e intelectuais atuaram com Glauber, participando, àquela época, da fundação da Editora Macunaíma, da revista Mapa e da Iemanjá Filmes; e mais adiante trabalhou como jornalista em O Movimento, na revista Ângulos (revista fundada por estudantes da Faculdade de Direito) e no seminário Sete Dias. Neste último jornal escreveu sobre cinema, arte que lhe daria renome mundial.

No Memorial da Faculdade de Direito constam informações sobre matrículas de Glauber em todos os livros de matrícula referentes aos anos em que ele esteve na Faculdade de Direito. Foram analisados dados sobre suas matrículas do 1º ano e 2º ano, constatando-se que ele só se matriculou nas matérias do 1º ano entre os anos de 1957 até o ano de 1961, com registro de trancamentos. De fato, preferia viver fora das salas de aulas, talvez em razão das ideias conservadoras que permeavam o curso de direito, mas sempre esteve pela UFBA, que, aliás, estava sendo transformada pelo Reitor Edgar Santos "num organismo vivo e dinâmico, propulsor da cultura baiana". Contudo, das disciplinas que apreciava, praticamente não faltava as aulas, tomando como exemplo a disciplina ministrada pelo Professor Machado Neto. Com efeito, das 120 horas/aula conduzidas por Machado de Introdução ao Direito/Filosofia, somente constam apenas duas faltas de Glauber. De fato, Machado e Glauber faziam parte de uma vanguarda intelectual que tinha como objetivo romper com o atraso cultural e possibilitar produção de conhecimentos. Portanto, quis o destino que Glauber Rocha preferisse sair do direito e fosse responsável pela revolução do cinema brasileiro com o “cinema novo”, materializando a produção nacional brasileira como sua expressão cultural. Como foi dito em outra oportunidade: Glauber, com o princípio de ‘uma câmara na mão e uma ideia na cabeça’, deu identidade ao cinema nacional. Aliás, a história da Faculdade de Direito da UFBA registra a memória de célebres nomes da cultura jurídica, mas também da passagem de intelectuais que brilharam em outros campos do conhecimento, como o internacionalmente conhecido Geografo Milton Santos ou artistas da música, como Raul Seixas.

*Obs.: agradecimento especial ao Memorial da Faculdade de Direito, no apoio às investigações realizadas durante os anos de 2015 e 2016, na pessoa de sua coordenadora, Arquivista Maria Solenar Rodrigues do Nascimento. Agradecimento ao Projeto Permanecer, por meio das bolsistas de pesquisa Taimar Guimarães e Mariana Soares, atualmente bacharelas pela Faculdade de Direito da UFBA, parceiras na pesquisa sobre Glauber Rocha.


Referências

BAHIA. Assembleia Legislativa reverencia Glauber Rocha. http://www.al.ba.gov.br/midia-center/noticias/11421. Último acesso, 11.07.2019.

ROCHA, Julio Cesar de Sá, NASCIMENTO, Maria Solenar Rodrigues, GUIMARÃES, Taimar & SOARES, Mariana. Relatório da pesquisa “Glauber do direito ao cinema”. Salvador: Faculdade de Direito da UFBA,2015.

Gomes, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha esse vulcão. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1997.

__________. Entrevista concedida para a pesquisa Glauber do direito ao cinema, 2015.


Julio Cesar de Sá da Rocha é Professor da Faculdade de Direito da UFBA. Atualmente, ocupa a função da Diretor da unidade para o período 2017-2021. Seus artigos para a Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares são publicados no dia 13 de cada mês.



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