NOJO! Uma barata em nosso prato!

- Flo Menezes -


Como compositor, entendo quase nada de insetos, e mal sei se nesta categoria ela deveria ser classificada. Mas conto pra vocês: sou testemunha da repulsa que causa uma barata!


Bicho nojento. Ora rastejante, ora voadora, a barata pode nos surpreender. E sempre surpreende! Quando você menos espera, avista uma. As baratas são quase vermes rastejantes, mas que podem alçar voo.


A primeira reação, de todos, é a de nojo misturado com espanto, sentimentos que se sucedem à surpresa. Há certa inação: o que fazer? Mato? Espanto? Se a mato, talvez projete nela o que ela pode fazer comigo: me trazer doenças, deixar por onde passa traços de coliformes fecais, de gotículas de urina infectada, de podridão de alimentos em decomposição; se a espanto, certamente reajo a partir de meu próprio espanto, mas incerto se a medida será eficaz, pois não sei onde esse ser vil irá parar.


Ela tem uma casca que parece cobrir o corpo todo, do qual se desprendem grandes barbatanas que, lentas, farejam o ambiente. Há uma contradição entre seu bote ou seu voo, ou mesmo sua forma repugnante de rastejar – em geral gestos rápidos –, e o movimento lento, medido e comedido dessas suas antenas, procurando captar as vibrações do ambiente para dele se beneficiar.


São bichos milenares, dizem. Acompanham há séculos os humanos e sua índole. No frio, escondem-se perfeitamente e sobrevivem no submundo dos esgotos. No calor, tomam coragem para ocupar o espaço da liberdade, causando aí toda espécie de desequilíbrio. Um ambiente propício ao pensamento, quando munidos de um livro à mão, é rapidamente perturbado pelo voo como que autoritário de uma barata asquerosa que invade o ambiente! Arremessamos de qualquer jeito o livro para bem longe, arriscando de amassar sua capa, para, assustados, tentar nos proteger daquele bicho descontrolado e repulsivo. Deixamos quase de pensar para nos defender, instintivamente.


Esculturas de baratas gigantes com faces humanas em mostra no Museu de Belas Artes de Havana, parte da 10ª Bienal de Havana, 2009 (Foto: Claudia Daut/Reuters).


Em meio a uma reunião de confraternização, a barata causa graves transtornos. Uma vez avistada sobre um prato, não há pessoa que não tenha nojo de continuar comendo: será que essa barata também não passou pelo meu? E esse bolo doce do qual iria agora desfrutar um pedaço? Ele estava descoberto... E isto sem contar pelo lado talvez mais lúdico e interessante: os sons das reações que provoca, sobretudo em vozes agudas, femininas. É como se todo o instinto penetrante dos sopranos viesse subitamente à tona para se sobrepor às vozes onipresentes dos barítonos e baixos.


A barata não respeita nem mesmo as classes sociais. Ela pode estar – e está! – presente em todas. Certa vez, ouvi de meu pai que um seu amigo, do meio jurídico, havia pedido uma sopa em um restaurante grã-fino de São Paulo e que, ao chegar a sopa à mesa, foi se servir tirando a tampa da grande baixela de prata. E não é que se deparou com uma barata boiando no caldo quente? Estava provavelmente morta, e por isso pôde reagir com discrição, como os modos lhe permitiam: chamou, silenciosamente, o garçom, comunicou-lhe o fato em voz baixa e aconselhou: “Tire sem alardes a sopa da mesa e me retirarei, como se nada houvesse!” Partiu, e os demais gourmands, às outras mesas, continuaram seus jantares aos sons das taças de seus vinhos, provavelmente com resquícios de baratas em seus pratos.


Eu mesmo vivi situações memoráveis com baratas. Certa vez, viajando com minha então namorada pelo sul da Bahia, com pouquíssimo dinheiro, acampando aqui e acolá, nos demos o luxo de não armar a barraca naquele dia e pousar em um casebre, numa semi-favela de uma velha senhora, que chamava aquilo de pousada. Em meio à noite, acordei aos gritos de soprano! Minha companheira havia acordado para fazer xixi de madrugada e, quando adentrou aquilo que deveria ser um banheiro, mesmo que sem porta, deu de cara com um vaso sanitário coberto de baratas! Fui socorrê-la e, lá chegando, consegui só com meu movimento que todas fugissem em rápido movimento centrífugo. Os bichos rastejantes despareceram num piscar de olhos, apenas fazendo um suave borbulho com o leve rosnar de suas asas e o roçar de suas pernas e barbatanas pelo chão. Baratas são silenciosas. Quando precisa, sabem agir rapidamente de modo quase desapercebido.


Uma outra situação inesquecível foi quando, também adolescente, fui solicitado por minha mãe a trocar o botijão de gás, que tinha acabado. Dirigi-me ao quintalzinho onde, dentro de um cubículo, ficava o gás. Abri a portinhola de metal e puxei o botijão para ter acesso à mangueira, e de repente me defronto com uma espécie de “bola de futebol”, brilhante e escorregadia! Era um ninho gigante de baratas junto à parede! Umas entravam dentro das outras como se fosse um desenho de um Escher, infinito e circunscrito em um mesmo espaço, um paradoxo: tudo muito móvel e ao mesmo tempo parasita. Era como um Senado ou uma Câmara Federal. A imagem, aparentemente surrealista, me remetia diretamente aos nós das gravatas: uma tira entrelaçando-se na outra, e daquela forma mantendo-se todos os trapos unidos, envolvendo todos os pescoços. Fiquei muito impressionado e fui pego de surpresa, como sempre ocorre com baratas, mas tinha que reagir. Peguei uma vassoura e logo pensei: “Varre, varre vassourinha!” Mas ao dar a primeira bordoada, centenas de baratas esvoaçaram pelos ares, desesperadas, mas loucas para voltarem a se unir naquela massa informe de deslizes, cumplicidade e nojo.


A barata não respeita sequer um morto! É capaz de causar grande constrangimento e passear impune por cima do rosto de um cadáver em pleno velório, como que zombando da comoção dos homens. E mesmo se não houver velório, a barata é capaz de adentrar o plástico que envolve um defunto e fazer ali um ninho. É como se, desmemoriada e desprovida de toda dor, a barata – teria ela algum cérebro? – procurasse apenas por sua sobrevivência. E ela pode sobreviver mesmo em circunstâncias as mais adversas, até mesmo no chão imundo de um jet-ski burguês em pleno mar.


Por isso, estou convicto: baratas devem ser eliminadas! Quando mato uma simples aranha, sou muito criticado por alguns de meus amigos defensores do meio-ambiente. Ouço e me redimo. Talvez eles tenham razão, pois a chance de aquela aranha me picar e de eu ter uma paralisia renal é pequena perto dos insetos dos quais elas mesmas podem me livrar, embora, convenhamos, eu nunca tenha presenciado uma aranha trucidando, como eu gostaria, uma barata... Mas penso comigo: até a espécie dos dinossauros, bichos gigantescos, cujo corpo é da dimensão de milhares de aranhas, foi abolida da Terra por algum cometa, e no entanto estamos todos aqui: homens, aranhas, baratas. Portanto, que não me venham com essa!


Mas a melhor forma de eliminar uma barata é, constatemos, com a sola do sapato! Não há spray de veneno que nos garanta termos eliminado essa infâmia! Esmagá-la e sentir o quebrantar de sua casca com nosso pé! Sentir a textura semilíquida até ali resistente que, pela raiva necessária a todo assassinato, se deixa aplastar e se cola ao chão imundo por onde sempre rastejou. Esparrama-se imediatamente então um caldo nojento que sai de seu corpo sujo e que de merda nem a cor tem. É como se aquele esverdeado gosmento que sai de dentro daquele corpo repugnante denunciasse que as baratas não possuem sequer intestino, quanto mais coluna vertebral. O trabalho de esmagá-la é menor do que o de desinfetar a sola por causa dos vestígios deixados por esse bicho nojento. A repulsa é tanta que demorará até voltarmos a calçar os mesmos sapatos... Mas só assim temos a certeza de que eliminamos a barata!


E para eliminarmos as tantas baratas que invadem nossa liberdade e cerceiam nossos pensamentos, é preciso mesmo a sola de muitos sapatos. É preciso um pisar coletivo, não de apenas um: uma marcha, de calçados e de descalços! Só mesmo o peso desta base sólida de um grande corpo social para que este pseudo-verme seja aplastado e se desmanche com sua estrutura de aparente consistência, mas que, no fundo, é frágil como todo inseto.

Flo Menezes é compositor brasileiro, com notável atuação na música eletroacústica e na teoria estética da música clássica na contemporaneidade, em especial, o conceito de música maximalista. É professor titular do Instituto de Artes da Unesp, fundador e diretor do Studio PANaroma de Música Eletroacústica.


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