Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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BEBER NO BICO OU NÃO BEBER NO BICO: EIS A QUESTÃO

- Marcelo Abelha Rodrigues -


Há mais ou menos 11 anos não me lembro exatamente o porquê, mas a jarra de água, cheia de gelo, que costumeiramente deixo no meu quarto estava vazia e na calada da madrugada, acordei com muita sede e fui até a cozinha para saciar a minha vontade. Lá encontrei o meu filho com a boca na botija, bebendo no bico a água que ficava na porta interna da geladeira e que era consumida pelas seis pessoas da casa.


Naquela oportunidade, depois de ele ter se saciado, no escuro da cozinha, disse:


— Filho, não beba mais no bico, porque sendo uma garrafa que serve água à todos da casa, e não é justo que todos usem um copo pra beber e que você faça desta forma.


E emendei:

— Isso é regra de convívio sadio, porque se todo mundo beber no bico certamente a água no final da garrafa vai estar cheia de resto de comida das bocas que passaram por ela. Não é justo que você tenha - e outros não – a possibilidade de beber no bico.


Ele, constrangido nos seus 6 para 7 anos de idade, pediu desculpa, disse que nunca mais iria fazer isso, e sem que eu pedisse, jogou toda a água da garrafa fora, colocou detergente dentro, repousou-a dentro da pia e encheu de água da torneira. Voltamos abraçados, rezei com ele e voltei para o meu quarto.


Esse fato ocorreu há mais ou menos 11 anos atrás, e, nesta semana me deparei com uma situação pitoresca.


Como a lasanha do jantar estava muito salgada, acordei com sede no meio da madrugada e desci para beber água; então, eis que antes de chegar na cozinha ouvi meu filho, agora com 18, dizendo para o novinho que tem 8:


— Olha só, não bebe no bico porque todo mundo da casa vai beber esta água e não é justo que todos tenham que pegar copo para manter a água da jarra limpa e que você beba a água no bico contaminando o que é de todos. Você não é melhor e nem pior do que ninguém.


Fiquei ali, naquela escuridão ouvindo sem entrar na cozinha e rapidamente voltei para o quarto sem fazer barulho para não atrapalhar o sermão que havia se replicado anos e anos depois. Não pude conter a minha felicidade pelo aprendizado repassado e demorei para retomar o sono.


Fiquei meditando.... e lembrei das primeiras aulas do curso de psicologia que abandonei quando colocaram um texto construtivista de PIAGET de que a moral não é inata, como também não é a ética, como também não o são os pré-conceitos. Tudo se adquire a partir de uma suposta evolução de estágios da vida.


Tomar a atitude de não beber água no bico da garrafa, sem ninguém por perto, na solidão da cozinha no meio da madrugada...bem...esta é uma decisão fruto da liberdade da escolha entre o caminho ético e o antiético. Se beber, ninguém saberá; por outro lado, se não beber também ninguém saberá. Não há aí nenhum aprisionamento moral que o empurre para esta ou aquela conduta. A opção é fruto da liberdade (de escolha) e pressupõe a cognição prévia de que por saber que a jarra serve à todos, por saber que posso contaminar a água de todos, por saber que não é justo que meu comportamento seja diferente de quem é igual a mim, então eu escolho o caminho que obedece a solidariedade, a igualdade e o respeito àquilo que é de todos.


Aquele episódio de 10 ou 11 anos atrás foi suficiente para educar meu filho não apenas para fazer aquilo que se deve fazer, mas para ir além. O diálogo que ouvi escondido atrás da parede – numa atitude antiética perdoável de um pai apaixonado – ele, meu filho, foi além. Ele disse para o mais novo:

— Não basta prometer que não vai fazer isso de novo, pois ninguém estará te vigiando. É você com você. É a sua consciência. Também não é suficiente colocar a jarra na pia cheia de detergente e enchê-la com a água da torneira. Vem cá, vamos lavar a garrafa e encher de água do filtro e colocar na geladeira porque outro que acordar amanhã pode beber uma água geladinha.


A ética pode ser altruísta, solidária; ela se adquire com educação, bons valores e com exemplos.


Bem sabemos que existem bens que são de uso comum e essenciais à sadia qualidade de vida e que pertencem não apenas aos seis integrantes da casa, porque a “casa” tem mais de 7,5 bilhões de pessoas. Todos devemos proteger e preservar o que é de todos não apenas para as presentes, mas também para as futuras gerações. Não porque o texto manda; não porque podemos ser sancionados, mas simplesmente porque sua consciência te impõe este caminho. É você com você.

Marcelo Abelha Rodrigues é professor da Faculdade de Direito da UFES, membro do IBAP e diretor da APRODAB. Escreve para a Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares todo dia 14 de cada mês.


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