Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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PAREÇO INOFENSIVA PARA VOCÊ?

-ANA STELA CÂMARA-


No meio das atribulações rotineiras, num curto intervalo de tempo, em que cheguei em casa, tomei um banho e troquei a roupa do trabalho por uma mais confortável para sair mais uma vez e acompanhar meu filho mais velho na natação, entrei no elevador e fitei a minha silhueta arredondada por alguns instantes no espelho. Beirando o oitavo mês de gestação, já um pouco fatigada e um tanto absorta, me dei conta de que estava vestindo uma blusa dos Beatles - uma das bandas favoritas - minha e de tantos outros.


De súbito, lembrei-me das declarações estapafúrdias do novo Presidente da Funarte, o que me causou certa apreensão. Por um átimo de segundo, tive receio. Quem me conhece sabe da busca e do compromisso que tenho com os meus princípios e com o aprimoramento espiritual, moral e intelectual, que norteiam o meu propósito de ser no mundo. E, de repente, me vi diante de uma situação em que me peguei questionando: estaria eu sendo considerada afrontosa por alguém? Será que encontraria pelo caminho pessoas que me recriminariam com seus olhares? E se alguém sentisse vontade de me dirigir alguma ofensa por estar vestindo a blusa com a estampa dos malfadados roqueiros? Por gostar daquele som, que considero autêntico, será que sou tão inofensiva quanto pareço ou penso ser?


De repente, o discreto solavanco do elevador, que anunciava a chegada no andar de destino, me sacudiu as ideias e pensei: mas que tempos são esses, meu Deus?! O que está acontecendo? A que ponto chegamos? E uma triste sensação de inadequação, de incompreensão e de certa inconformação momentaneamente se alastraram em mim.>>>

>>> Respirei fundo, saí do elevador e fui pegar meu filho, que me esperava no térreo, pra levar pro carro. Vamos. Não temos tempo a perder. Temos que nos recompor, nos refazer. Há crianças para educar, jovens com quem dialogar, na esperança de vencer este obscurantismo. Como disse Thiago de Mello, em trechos de um bonito poema, vamos procurar um diamante, para repartir com todos... traga toda a luz que tiver... construímos este diamante a medida que repartimos o amor. Mesmo com quem não quis vir ajudar. Mesmo com quem não acreditava que ele existia.


Vamos então resistir, pensar e amar. <<<

ANA STELA VIEIRA MENDES CÂMARA é doutora em Direito pela Universidade Federal do Ceará e professora de Direito Ambiental.


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