A febre puerperal, a pia e a Ponte para o Futuro

- Paulo F. Garreta Harkot -

Dr. Ignaz Semmelweis

Ignaz Semmelweis, nascido em 1818 e falecido em 1865 na atual Budapeste, formou-se em medicina pela Universidade de Viena em 1844, especializou-se em obstetrícia e atuou nos serviços de maternidade do Hospital Geral de Viena a partir de 1846, chegando a ocupar o cargo de diretor da instituição.


O Hospital de Viena contava com uma maternidade constituída por duas seções, ou Serviços, que se distinguiam pela terrível epidemia de febre puerperal responsável pela morte das parturientes e bebês, que, no Primeiro Serviço de obstetrícia apresentava taxas de mortalidade cerca de 10 vezes maiores que no Segundo Serviço.


Muito impressionado com esses resultados, Semmelweis passou a se preocupar em identificar a causa do problema uma vez que a limpeza dos ambientes, alimentação dos pacientes e demais práticas adotadas eram aparentemente idênticas nos dois Serviços. Importante ressaltar que, naquela época, vigorava a Teoria dos Miasmas assegurando que a causa das doenças decorria de influências cósmicas, telúricas e atmosféricas associadas a emanações pútridas responsáveis pelo mal-ar – daí malária – e os respectivos agravos.


Hospital Geral de Viena.

O papel etiológico dos micro-organismos na incidência e evolução das doenças era, portanto, ainda desconhecido uma vez que seria proposto por Pasteur e colegas, por meio da teoria microbiana das moléstias infecciosas, apenas duas décadas depois.


A diferença nas taxas de mortalidade das parturientes por febre puerperal entre os dois Serviços, portanto, precisava ser explicada mesmo que ainda não se dispusesse de subsídios explicar ou justificar o por quê do acometimento da enfermidade a não ser a capacidade de observação, visão crítica, angústia e inquietação para identificação da causa do problema.


No Primeiro Serviço, o atendimento das parturientes era realizado por médicos que orientavam alunos em aulas e práticas de dissecação de cadáveres, uma das atividades mais importantes para o treinamento dos estudantes. Após o término da atividade, os estudantes e médicos visitavam as parturientes tendo lavado as mãos apenas com água.


Já no Segundo Serviço as parturientes eram atendidas por médicos que não haviam participado desse tipo de atividade.


Mas, apenas essa observação não fundamentava qualquer tipo de conclusão e foi necessária a ocorrência de outro evento, na mesma época, que despertou a atenção do médico e possibilitou fundamentar a conclusão a que chegou.


Um colega próximo feriu-se com bisturi em uma autópsia, contraiu doença com sintomas semelhantes aqueles apresentados pelas parturientes com febre puerperal e, em seguida, veio a óbito.


A bactéria Streptococcus pyogenes, responsável pela febre puerperal, vista no microscópio.

Semmelweis, observador arguto, conseguiu associar ambos os eventos e estabeleceu preliminar nexo causal, ou relação de causa-efeito, ao concluir que a causa da doença nas duas situações poderia ser a mesma: introdução de “material cadavérico” na corrente sanguínea pelo bisturi, no caso do médico, e pelas mãos dos estudantes e médicos que examinavam as parturientes para avaliar a dilatação vaginal anterior ao parto.


Buscando controlar a causa da febre puerperal, tomou uma simples decisão: instalou uma pia e determinou que todos que deixassem a sala de autópsia lavassem as mãos com solução de cal clorada antes de examinar as pacientes.


Apenas com essa medida, em curto espaço de tempo, a mortalidade do Primeiro Serviço diminuiu até atingir taxas equivalentes às do Segundo Serviço. E o agente etiológico responsável pela febre puerperal, ainda que continuasse desconhecido, foi controlado.


Ótimo resultado no que respeita à diminuição da morbidade e mortalidade, melhoria da qualidade de vida das mães e crianças com investimento desprezível!


Mas, como os seres humanos são muito complexos, essa medida resultou em grande aborrecimento e irritação junto à parcela dos médicos envolvidos.


Afinal, como imputar aos médicos, profissionais situados no topo hierárquico da sociedade humana, a responsabilidade pela infecção das pacientes como resultado da prática que desempenhavam? Como exigir que alguém imbuído de tamanha nobreza fosse obrigado a lavar mãos com um higienizante, como se fosse uma pessoa comum? Quem o diretor pensava ser para obrigar os médicos a se sujeitar a atividade tão vil?


Descabido absurdo, na visão dos incomodados, que, por sua natureza, logo congregou os médicos conservadores, reacionários e não progressistas contra a simples e eficaz medida adotada para assepsia das mãos antes dos exames das pacientes em trabalho de parto.


Como resultado, o médico obstetra foi destituído da direção do hospital, a pia retirada, a determinação abolida e os médicos e estudantes deixaram de lavar as mãos com a solução higienizante antes do exame das parturientes.


A consequência, como não poderia deixar de ser, materializou-se no aumento das taxas de mortalidade do Primeiro Serviço até voltarem aos valores anteriores à implantação da higiene das mãos após o término das aulas de autópsia e atingirem cerca de dez vezes as taxas do Segundo Serviço.


Perdida essa oportunidade, passaram-se dezenas de anos, e milhares de vidas desnecessariamente perdidas, além de todo sofrimento associado, para que as práticas adotadas pelo Dr. Semmelweis passassem a ser fazer parte dos procedimentos de higiene dos hospitais.


Agora, e tomando como referência o emblemático caso depois de mais de 270 anos passados, podemos tentar estabelecer paralelo com o nosso Brasil presente, Pais que passou a se destacar pela baixa qualificação dos administradores púbicos do primeiro escalão da República, situação agravada pelo escasso compromisso com a coisa pública e com o direito das próximas gerações, como fartamente divulgado.


Nesse quadro, torna-se possível estabelecer paralelo com o impressionante evento ocorrido no Hospital Geral de Viena, quando os ganhos obtidos na redução da mortalidade desnecessária de mães e nascituros foram desprezados e destruídos apenas para a satisfação dos preconceitos e limitações intelectuais daqueles que não aceitavam outra possibilidade que não as defendidas pelo grupo ao qual se encontravam ligados.

Uma ponte que liga o nada ao lugar nenhum. No Brasil, recebeu o nome de Ponte para o Futuro.

Esse pesaroso paralelo com o nosso País demonstra o perigo ao qual nós, como população incluindo os nossos descendentes e as próximas gerações, estamos expostos quando o conservadorismo e o reacionarismo desconsidera os avanços da ciência e tecnologia para adotar visão simplificada, limitada e embotada de mundo.


No caso do Brasil constata-se o endosso de propostas similares, guardadas as proporções, por parte de futuras mães que defendem a medida para a retirada da pia e a interrupção da higienização das mãos dos médicos. Mesmo tendo ciência que as próximas vítimas da febre puerperal poderão ser elas que apoiaram tal tipo de ação.


Entre as conclusões passíveis de serem obtidas a partir da comparação desses eventos separados por pouco mais de um quarto de milênio, destaca-se uma muito objetiva: uma Ponte para o Futuro para nos transportar rapidamente para a Idade Média.


Quanto ao Dr. Semmelweis, e depois dos dissabores que o acompanharam por sempre mirar a frente do seu tempo, foi internado em um sanatório para doentes mentais em decorrência da demência senil que o acometeu, onde veio a falecer duas semanas após dar entrada.


Referências:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662007000100004

https://deepblue.lib.umich.edu/bitstream/handle/2027.42/111821/In1850IgnazSemmelwis.pdf?sequence=1&isAllowed=y

http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.151.7978&rep=rep1&type=pdf

http://www.medicinasocial.info/index.php/socialmedicine/article/view/194

http://socialmedicine.info/index.php/medicinasocial/article/viewFile/192/382

https://www.archivesofpathology.org/doi/full/10.1043/0003-9985(1999)123%3C0561%3AISATCO%3E2.0.CO%3B2

https://www.thedailystar.net/country/bridge-without-approach-road-1356535

Paulo F. Garreta Harkot – Oceanógrafo atuante na área de gestão da zona costeira e marinha brasileira, saúde pública / epidemiologia, unidades de conservação e impactos ambientais desde 1985. Avô de Pedro e Miguel e, desde sempre, um realista esperançoso. Seus artigos são publicados pela Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares todo dia 15 de cada mês.



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