Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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Em defesa do Cinturão Verde da Reserva da Biosfera de São Paulo

- Adriana Abelhão -

Foto de um dos locais ameaçados pela Pedreira da Votorantim.- Acervo da autora.

Somos a bola da vez. O empresariado sem escrúpulos e o crime organizado estão tomando as cidades produtoras de água que compõem o Cinturão Verde da Reserva da Biosfera de São Paulo: Itapecerica da Serra, Embu das Artes e Embu Guaçu, Juquitiba e Cotia. A todo momento vemos uma cavadeira arrancando nossa mata do solo, atropelando e matando animais silvestres, deslocando terra para dentro de nossos mananciais, muitas vezes com placas bonitinhas, com números de alvarás da Cetesb – Companhia  Ambiental do Estado de São Paulo e das Prefeituras envolvidas. Funcionários corruptos em todas as instâncias e capangas de empresários nada bonzinhos ameaçam a população e compram a concordância de pessoas em estado de pobreza e dificuldades por migalhas, como um frasco de remédio, uma muleta e “proteção” para que possam construir suas pobres, úmidas e insalubres casas em Áreas de Preservação Permanente, à beira de córregos e rios e também nas encostas de morros prestes a desabar. Durante as eleições, vale tudo, até uma fiada de blocos por um voto. Tudo isso com a concordância de muitos “mandatários dos céus”, pessoas que se dizem cristãs, mas estão a serviço de seu próprio bolso, usando o nome de Deus em vão.


Toda grande aglomeração humana, urbanizada, aquelas manchas cinzas que vemos nos mapas do Google, com o solo impermeabilizado, pouquíssimas árvores, principalmente na periferia, temperaturas altas e demandas intermináveis, precisa muito, mas muito mesmo de água limpa para beber. Mas essas áreas, totalmente ocupadas, não produzem mais água limpa. E de onde ela vem? Do Cinturão Verde da Reserva da Biosfera que circunda a Cidade de São Paulo, nada mais, nada menos que da Mata Atlântica preservada em torno dos inúmeros rios, riachos, córregos e lagos.


Itapecerica da Serra tem uma grande participação na geração de água para as nascentes do Embu Mirim. A contribuição do Rio Embu Mirim, que nasce em Itapecerica e corta o território de Embu das Artes, contribui com 33% das águas da Represa Guarapiranga, que abastece mais de 5 milhões de pessoas. Apesar disso, o Embu Mirim tem sido muito maltratado, seja pelas ocupações irregulares, seja pelos “empreendimentos” gigantescos, como galpões e aterros, que afetam a quantidade e a qualidade da água. O desmatamento produz assoreamento, pois a terra que antes ficava segura pela “malha” de raízes da Mata, se desprende e se esfarela para dentro dos rios, o que diminui a quantidade de água disponível e causa enchentes. Por outro lado, sem as mesmas raízes e árvores, que retinham a umidade do solo, a água “foge” para dentro da terra, nos lençóis freáticos, diminuindo ainda mais a oferta de água na superfície. Não bastasse isso, a ocupação desordenada traz também perda de qualidade, pois nessas áreas não há atendimento em saneamento básico e o esgoto doméstico é jogado muitas vezes “in natura” nos rios. Esse processo se repete e repete em todas as cidades do Cinturão Verde, desde Embu Guaçu, que está sendo ocupada por condomínios de classe média, que requerem grandes investimentos em infraestrutura predial, mas que não são capazes de sequer tratar as águas negras e cinzas que produzem. Todos esperando pela Sabesp, que se beneficia da geração de água da região e sequer paga um centavo às cidades por esse bem que é a matéria prima do lucro de seus, agora que será privada, acionistas e de suas ações na Bolsa de Valores.


Toda da região é cobiçada também pela mineração. Segundo informações do Consult, um grupo de empresários da região, estão em mãos com um estudo do IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o qual fornece informações “fantásticas” para a exploração da mineração na região. Pedreiras não faltam, em Embu das Artes tem pelo menos uma e Itapecerica, duas, uma sendo da empresa Votorantim Cimentos S.A., que pretende expandir seus negócios no bairro de Itaquaciara, desmatando e explodindo Mata Atlântica equivalente a 21 campos de futebol, para a produção de granito. A unidade, que não é capaz de gerar 50 empregos diretos e que deixa em média parcos R$ 500 mil por ano nos cofres públicos do município, decorrentes de impostos de mineração, pretende introduzir seus explosivos em área de Preservação de Mananciais da Bacia do Ribeira de Iguape, detonando uma área de Mata Atlântica preservada, que abriga fauna e flora exuberantes, com pelo menos oito animais em extinção ou em vias de, como a Onça Parda, o Caititu e o Bicho Preguiça, entre muitos outros, e que afeta pelo menos oito nascentes do Rio São Lourenço, rio brutalmente transposto para abastecer a cidade de São Paulo, sem sequer licenciamento ambiental, quando a população pode, aterrorizada, ver as máquinas que derrubavam árvores, trituravam animais e os jogavam ao lado de tubos gigantescos. Tudo para compensar o mesmo processo de desmatamento e destruição pelo qual sofreu o Reservatório da Serra da Cantareira que gerou a crise de abastecimento de 2014. Sem Mata, sem água.

Cotia também está sob ataque. O caso mais gritante é o empenho do Governo Estadual em fazer um Porto Seco dentro da Reserva Morro Grande, uma área totalmente destinada à produção de água. Mas não é só isso, o Governo Estadual está também empenhado em liberar as áreas da Reserva para loteamentos.


Em reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Itapecerica da Serra, uma servidora pública relatou que, ao visitar o terreno de seu avô no bairro de Itaquaciara, estranhou certa movimentação em frente à porteira. Ao aproximar-se, foi recebida por um senhor distinto, que ofereceu um lote mínimo por uma módica quantia. Era um grileiro, um bandido, vendendo terra alheia. Para quem reclamar, se toda a estrutura de fiscalização está propositalmente desmontada na região?


Vamos trocar água por granito? Vamos trocar nossa diversidade por esgotos e água suja? Vamos morrer de sede?


Em tempos de eminente Catástrofe Climática, temos a obrigação de preservar o Cinturão Verde da Reserva da Biosfera da Cidade de São Paulo, por nossas vidas e pelas vidas das futuras gerações.


É obrigação dos poderes públicos, Estadual e Municipais, deter essa destruição, buscando uma política ambiental que leve em conta alternativas em favor da preservação.

ADRIANA ABELHÃO é Presidente da Associação Ecológica Preservar Itapecerica da Serra e escreve na Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares todo dia 17 de cada mês.



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