O IMPÉRIO DA BOÇALIDADE?

Atualizado: 19 de Dez de 2020

-RUI VIANNA-


Boçal - Algo ou alguém privado de inteligência; estúpido, ignorante. Desprovido de comportamentos humanos, rude, bruto.


De cara, qual é a primeira associação de ideias que se faz? A quem nos remete a definição sucinta? Pois é. Há como negar que vivemos hoje sob o império da boçalidade, da estupidez, da ignorância? Não pretendia retornar a este tema que, pela repetição, tornou-se cansativo, exasperante. Descrever as tantas barbaridades perpetradas pela família "imperial" transformou-se num ato cotidiano, algo como fechar o zíper da calça, abrir a porta para sair, chamar o elevador. Normatizamos a boçalidade como uma forma de sobrevivência, normalizamos o inumano pela impossibilidade de continuarmos, o tempo todo, reagindo às continuadas agressões que estamos e continuaremos a sofrer.


Agora, em que pese ser muito difícil negar a condição de boçais de um sem número de ocupantes do atual governo, cabe, dentro da definição acima apresentada, enquadrarmos o presidente, seus filhos, ministros, integrantes do primeiro, segundo e terceiro escalões, simplesmente como boçais? Desprovidos de inteligência? Ignorantes? Diante da extensa trama, urdida de forma sórdida desde meados de 2013 e que desaguou nesse caudaloso mar de chorume fétido, podemos, tranquilamente, dizer que se trata de um processo desprovido de inteligência?


A resposta parece bastante óbvia. Não há sequer um traço de boçalidade nas maquinações deletérias que vêm ocorrendo, não há nada de inumano nem ignorante na programada destruição da natureza, na doentia liberalização da economia, defendida com unhas e dentes por Rodrigo Maia et caterva, através do fantoche grotesco Paulo Guedes, na política de terra arrasada em matéria de conquistas trabalhistas. Não há sequer um traço disso na visão negacionista que nos empurra para o precipício da maior tragédia de saúde pública que este país já viveu, com uma gestão absolutamente criminosa da pandemia e seus efeitos catastróficos.


Tudo isso faz parte de um projeto de poder, escancarado e levado a termo com apoio ora incondicional, ora dissimulado, ora envergonhado, de nossas impávidas Instituições, através da chancela tanto do Legislativo quanto do Judiciário, em todas suas instâncias.


A leitura do livro "Os Engenheiros do Caos" (Editora Vestígio), do autor italiano Giuliano da Empoli, descortina o método utilizado para a implantação do projeto de populismo de direita que assola o mundo, de forma absolutamente deliberada, estudada e aplicada com frieza cruel. Numa complexa trama, que envolve figuras burlescas, internet, big data e vários outros ingredientes, começa a desenhar-se o surgimento do populismo de direita, que viria a transformar-se numa onda mundial, atingindo a Itália, Reino Unido, Hungria, Estados Unidos, Brasil e outros, através de figuras similares como Mateo Salvini, Viktor Orban, Donald Trump e, espanto, Bolsonaro.



Explicativamente, o subtítulo do livro é "Como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições." Apesar de trazer bastante informação, o subtítulo nos remete a um texto claro e bastante elucidativo do momento nefasto da política mundial, suas origens e os instrumentos utilizados para a realização desse projeto de poder que nos assola.

Ao que interessa ao presente texto, o livro citado descreve líderes mundiais que mentem o tempo todo, sem nenhum pudor nem receio, comunicam-se freneticamente através de redes sociais, em mensagens curtas e cuidadosamente dirigidas aos fanáticos partidários (ou deveríamos chamá-los de devotos?), criam inimigos a serem combatidos todo o tempo, apoiam-se em valores morais como família, pátria e religião, atacam a ciência e a comunidade científica... Soa familiar, não? Tão familiar que cabe a citação deste trecho:


"No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson e de Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento, e esse já é eclipsado por um outro, numa espiral infinita que catalisa a atenção e satura a cena midiática."


Vivemo isso na pele, diariamente há pelo menos, o que, uns 2 ou 200 anos, a sensação de fastio, de impotência e de irrealidade nos faz perder a noção mais precisa do tempo. E a incapacidade de restabelecer a realidade dos fatos torna isso ainda mais assombroso. Como dito, mais uma vez, pelo autor:


"Por trás do aparente absurdo das fake news e das teorias da conspiração, oculta-se uma lógica bastante sólida. Do ponto de vista dos líderes populistas, as verdades alternativas não são um simples instrumento de propaganda. Contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável vetor de coesão. 'Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade', escreveu o blogueiro da direita alternativa americana Mencius Moldbug.

'Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade - e que possui um uniforme e um exército'. "


A intenção primeira deste artigo era a demonstração de que vivemos sob o império da boçalidade. Fato esse que, brevemente, me esforcei para desmentir. E creio firmemente não ser verdade, visto todo o projeto e a ciência que foram utilizados para a criação deste ambiente de boçalidade. Mas, vá lá, não podemos desprezar totalmente a irradiante boçalidade que nos cerca, rege e domina.


Se, em alguns casos, ela é praticada e exercida para agradar uma turba de, esses sim, verdadeiros boçais, dentro daquele projeto citado acima, por outras é a expressão mais sincera da alma mater, da nossa mais profunda identidade nacional, destruindo todo e qualquer mito do brasileiro cordial.


Tirante os integrantes da famiglia, esses boçais em essência bruta, apesar de esparsos sinais de articulação política, não se aplica o epíteto para vários dos áulicos que os cercam. Não podemos tachar nosso bufão das relações exteriores de uma ameba flutuante. Sabemos que o real norte dessa figura é o carreirismo, desabrido e desassombrado. Tipicamente um funcionário de carreira medíocre, que transitou impune e sem marcas visíveis pelos corredores do austero Itamaraty, em outras épocas. Diz-se até que foi simpatizante dos governos do PT, sem contudo alçar voos mais ousados. No jargão popular, "joga para a torcida".


Assim como ele, ridicularizado a todo instante não só entre seus pares, mas em nível mundial, jogando a fama da conceituadíssima diplomacia brasileira na latrina, latrina essa por onde, espera-se, desaparecerá ele mesmo dentro em breve, existem alguns outros, como o "limpinho e cheiroso" ministro da destruição ambiental, com sua sanha holocáustica e extrativista, a pretensamente folclórica implementadora de políticas de discriminação e destruição do tecido social, utilizando a palavra do Senhor como sua mais temível arma (qual seria esse Senhor? Qual seria essa Palavra?), brandindo sua carantonha assustadora sobre nossas cabeças. Todos jogando para a torcida.


Inegavelmente, após a leitura de Os Engenheiros do caos, não há sequer como duvidar que, no caso brasileiro, assim como os vários outros ao redor do mundo, a boçalidade foi e está sendo utilizada como um eficaz instrumento de tomada e manutenção do poder. Mas, diante destes e de vários outros personagens, tão falsos quanto nefastos, a pergunta ressalta óbvia: Mas, onde estão os boçais?


Mais uma vez digo, além da famiglia imperial, hoje representada por seus cinco ridículos e perigosos integrantes, estão os boçais entre todos nós. Estão entre aqueles que adotam o negacionismo como credo, mergulhando de cabeça no obscurantismo tão caro às tendências totalitárias, negando-se a adotar medidas de prevenção em meio a uma pandemia comprovadamente letal e destruidora, pontuando com insuspeita certeza sobre assuntos sobre os quais não têm a mínima ideia ou conhecimento, destilando ódio e ressentimento acumulados por décadas, numa simbiose genética, defendendo posições insustentáveis perante à razão, à natureza, à filosofia e à ciência em geral.


Enfim, os boçais estão sim entre nós, são muitos, estão no poder muito bem representados e dele não pretendem sair tão cedo. Somos, no momento, súditos desse lamentável império. Mas nada é eterno. Espero.

Rui Vianna é advogado aposentado e associado do IBAP.




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