Que fazer? Falha a serviço de novos MBLs

Atualizado: 27 de mar.

- Guilherme Purvin -


Há oito anos, na cidade de São Paulo, teve início uma mobilização estudantil em defesa da liberação de passagens de transporte coletivo. O estopim foi o anúncio da majoração dos ônibus em vinte centavos. Os organizadores dessa mobilização apresentaram-se como "Movimento Passe Livre" - MPL, definindo-se como "um movimento social autônomo, apartidário, horizontal e independente, que luta por um transporte público de verdade, gratuito para o conjunto da população e fora da iniciativa privada" (vide home-page do MPL). O prefeito de São Paulo, na época, era Fernando Haddad.


Na sequência das passeatas cada vez mais numerosas vimos o surgimento de misteriosos grupos autodenominados de blackblocs, vestidos de negro, encapuzados. Os blackblocs surgiram na década de 1980 na Alemanha. De tendência anarquista, tinham o propósito de defender pela ação um conjunto de medidas de melhoria social e de denunciar o neonazismo.


A Polícia Militar, sempre tão varonil e ativa no ataque a negros, mulheres e jovens em seus protestos pacíficos, aparentemente não se incomodava em impedir a ação desses mascarados vestidos de preto e calçando coturnos. Preferia poupar a energia para o ataque à população ao final das manifestações, quando todos já estavam se dispersando e voltando tranquilamente para suas casas. Enquanto isso, a imprensa burguesa não se fartava de exibir cenas de vandalismo impune, que maculavam o caráter pacífico dos atos públicos do MPL.


As passeatas em defesa do transporte público gratuito (e, por consequência, contra a perigosa máfia que o controla em todas as metrópoles brasileiras) recrudesceram, dando lugar a algo muito diverso - que só tinha em comum com o movimento originário o alardeamento de um pretenso "apartidarismo" - e passaram a reunir um crescente número de pessoas brancas ou orgulhosamente autointituladas brancas. A sigla MPL serviu de inspiração para outra coisa - o MBL: não queriam "passes livres", mas um "Brasil livre". Livre do que? Livre de Lula e Dilma Roussef. Livre do Partido dos Trabalhadores.


O resultado dessa metamorfose política (que bem poderia ser chamada de metástase moral), consistente na apropriação de um espírito comum de insatisfação com o status quo, é o que temos no Brasil nos últimos seis anos: os três poderes da República saíram desmoralizados desse processo, juntamente com instituições privadas conservadoras até então aparentemente sólidas, como Rede Globo e Folha de S.Paulo.


O que fazer no contexto das guerras híbridas, da apropriação capitalista de reivindicações populares legítimas, como transporte público, saúde, educação e justiça social?


A forma como a extrema-direita reverteu em seu favor uma incipiente e ingênua mobilização estudantil "apartidária" foi de um oportunismo político genial, que pode ser comparado às táticas e estratégias utilizadas por Lenin em 1917. Aparentemente, o capitalismo estudou a fundo as lições dos revolucionários bolchevistas - em especial de Lenin, que por sinal escreveu um livro chamado "Que fazer?" (parafraseando um romance popular russo homônimo muito em voga na virada do Século XX). Dessa obra, podemos extrair algumas lições importantes.


A principal é que, sem organização política, não há nenhuma chance de se conquistar a justiça social. Não devemos acreditar em "manifestações espontâneas" e em super-heróis fabricados pela mídia. Para cada MPL que surgir, virá a reboque um MBL. Para tanto, é preciso engajamento político. É da maior importância a integração a entidades de classe, organizações da sociedade civil, partidos políticos. A extrema-direita aprendeu essa lição de Lenin e, por isso, conquistou expressivo número de representantes junto ao Poder Legislativo Federal, dos Estados e dos Municípios. Nós, da pequena e média burguesia pretensamente iluminada pelo pensamento universitário, nos deixamos embalar pelos desabafos em mensagens de WhatsApp. Mais do que mensagens catárticas e palminhas, precisamos de jornais que ajudem a difundir reflexões e denunciar fake news. Defendo, nesse contexto, a formação de uma grande frente das mídias independentes num único portal que sirva de canal para a obtenção de informações idôneas. Não esperemos da decadente Folha de S.Paulo, agora parceira do deplorável "O Antagonista", nada além do que divulgação de lixo cultural de algum cineasta pseudo-comediante amigo de Diogo Mainardi.


Num plano mais geral, de âmbito planetário, em especial no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia - isto é, OTAN - devemos pensar em termos globais. Pagamos um preço alto pela escolha feita pela extinta União Soviética do socialismo num só pais. Como denunciou Leon Trotsky em sua obra Revolução Permanente, "A renúncia à atitude internacionalista conduz, inevitavelmente, ao messianismo nacional, isto é, ao reconhecimento de vantagens e qualidades ,peculiares ao país, capazes de lhe conferir um papel que os demais países não poderiam desempenhar" (S.Paulo, Livraria Ed. Ciências Humanas Ltda., 1979, p.140). A política bélica e reacionária do ditador Vladimir Putin, ora aliado do ignóbil presidente do Brasil, revela o quanto tinham de proféticas as palavras do grande parceiro revolucionário de Lenin, covardemente assassinado no México, a mando de Stalin.


É preciso, porém, organização, debate, reflexão, ação madura e realista, num grau que os revolucionários russos não conheciam em 1917, já que vivemos tempos de vigilância plena de cada ato, de apropriação mercantil de símbolos de mobilização (camisetas e broches de Che Guevara, calças jean pré-rasgadas para poupar esforços da garotada que não vive sem um celular) e, sobretudo, de atentados como o de Marielle Franco, que completou há alguns dias o seu quarto ano sem solução.


 

Guilherme Purvin, graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor em Direito, é ambientalista, escritor e editor da Revista PUB, atualmente Presidente do IBAP.


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