A brutalidade como estratégia

O CASO MOÎSE E A PSICOLOGIA DE MASSAS DO FASCISMO


-ZECA SAMPAIO-



Ilustração - Ibraim Rocha

Os casos de brutalidade, assassinatos, espancamentos e humilhações têm sido tão frequentemente expostos e “normalizados” que fica até difícil escolher especificamente um deles para apresentar como paradigma. Porém, o vídeo do espancamento até a morte do imigrante congolês, juntamente com as declarações de seus agressores quando presos, suscitaram algumas reflexões que peço licença para compartilhar aqui.


Em primeiro lugar, é preciso lembrar que esses casos não se iniciaram agora. Esse tipo de brutalidade é histórica e atávica. Herdamos essa violência de nossa colonização construída a base de invasões, extermínio de povos indígenas, desterro e escravização de gente vinda da África e repressão implacável a todos os movimentos de resistência que aqui surgiram através dos séculos. Escondidas por uma narrativa de cordialidade, tais barbáries persistiram e estão sendo cada vez mais trazidas à tona por um movimento de banalização e de propaganda de extrema direita neofascista, ou mesmo, neonazista.


No pós Segunda Guerra Mundial, com a derrocada do Nazismo e do Fascismo na Europa, autores como Hebert Marcuse chamaram a atenção para o uso, por essas correntes derrotadas, da chamada pulsão primária de Tânatos, a energia destrutiva humana, como ferramenta de atração para suas políticas e propostas. Antes mesmo da ascensão do Nazismo ao poder na Alemanha, Wilhelm Reich, em seu livro Psicologia de massas do fascismo e, mais tarde, no artigo A peste emocional, incluído no livro Análise do Caráter, faz uma extensa análise do uso das emoções de raiva e ressentimento pelos estrategistas e propagandistas do fascismo.


A principal diferença entre essas análises é que Reich não aceitava a hipótese de Freud de uma pulsão primária dirigida para a autodestruição, Tânatos, que agiria em oposição à pulsão de vida, sexual, Eros. Em um artigo sobre o masoquismo, também incluído no livro Análise do Caráter, Reich afirma que o mecanismo masoquista que era geralmente considerado pelos freudianos como prova da existência de uma pulsão primária de autodestruição, poderia ser desconstruído terapeuticamente com a abordagem adequada e isto, segundo ele, provaria que a pulsão destrutiva é na verdade uma construção secundária, provinda de uma educação repressora e antivida.


Você pode estar se perguntando o que esse debate acadêmico na área da psicanálise está fazendo neste início de discussão da brutalidade em nossa sociedade atual. Peço um pouco de paciência, já que as consequências educacionais desse debate é peça chave na construção de nosso pesadelo neonazista tropical.


Trocando em miúdos, essa educação, que é violenta em si mesma, constrói as bases para uma personalidade ressentida.

A tradição judaico-cristã europeia criou uma educação que na maioria das vezes é baseada em repressão, críticas e castigos que têm como objetivo domar uma criança que é vista como selvagem, antissocial e, no fundo, portadora do pecado original. Tal educação desenvolve nas crianças um senso de desajuste, uma baixa estima, um sentimento profundo de desamor e principalmente um forte ressentimento em relação aos que, ao invés de dedicar amor incondicional e acolhimento aos recém-chegados, demonstraram preferencialmente um descontentamento com seus impulsos vitais.


Trocando em miúdos, essa educação, que é violenta em si mesma, constrói as bases para uma personalidade ressentida. Além disso, como a criança não tem como lidar com profundos sentimentos de medo, raiva, culpa e vergonha gerados por essa situação, ela recalca seu ressentimento em relação à autoridade, aos superiores que a violentaram. Conectar-se com esse ressentimento seria ressuscitar os sentimentos que foram reprimidos a altos custos. Seu ressentimento necessita, porém, de alguma expressão e, aqui, retornamos ao debate sobre a hipótese de uma pulsão destrutiva primária, já que a existência de tal pulsão primária justificaria (e tem justificado) a necessidade de uma educação que a reprima e a substitua, ou a transforme, em impulsos menos antissociais. Para Reich, essa hipótese foi a forma que Freud encontrou para escapar das conclusões inevitáveis de suas descobertas e de evitar fazer uma crítica mais profunda a uma civilização que se desenvolve a custa da saúde emocional de seus próprios integrantes. Reich sustenta que devemos levar essa crítica a suas últimas consequências e a partir daí rever nossos métodos e objetivos de educação e tentar aprender algo da educação pró-vida com outras culturas não tão repressoras. Para ele, as funções vitais básicas são sempre dirigidas para a vida, a criação, o amor, o trabalho e o conhecimento e crianças que são educadas com menos repressão costumam desenvolver menos tendências destrutivas e antissociais, ao contrário do que pregam os defensores da pulsão destrutiva primária.


Embora esse debate tenha sido aos poucos praticamente abandonado pelas esquerdas, certamente não o foi pelos ideólogos da extrema direita. Estes compreenderam o significado que pode ter uma educação repressora e conservadora especialmente no sentido moral. Não é a toa que pregam e utilizam o discurso conservador de repressão a tudo que possa significar vida nas crianças, negando-lhe desejos, sexualidade, capacidade de autorregulação, direito à diferença e ao caminho próprio. A educação familiar que pregam é uma fábrica de ressentimentos que serão descarregados não contra os responsáveis por eles, mas dirigidos preferencialmente para os mais vulneráveis que estiverem ao alcance, numa repetição do mecanismo de humilhação que sofreram. Irmãos e irmãs menores, crianças mais fracas, empregados, pessoas em situação de vulnerabilidade passam a ser as vítimas preferenciais. Depois, na escola, os colegas mais frágeis serão alvo de bullying.


Mais tarde, mulheres, crianças, gays, negros, indígenas, imigrantes, enfim, todos aqueles que estiverem em posição mais vulnerável serão possíveis vítimas de abusos que têm por motor principal um ressentimento profundo, constituído por uma educação antivida que é em si formadora de um círculo-vicioso, em que os humilhados de ontem criam os humilhados-humilhadores de amanhã.


Este mecanismo de aviltamento constante é reforçado de forma exemplar nas instituições militares onde recrutas são tratados como desprezíveis, apenas para repetir esse tratamento quando interagem com civis, especialmente com os mais vulneráveis, os pobres e pretos que supostamente não correm o perigo de ter parentes ou amigos entre os seus superiores. Também vão repetir o processo com os novos recrutas. Não é por acaso que a extrema direita prega a militarização das escolas.


De uma forma geral, as pessoas se sentem humilhadas no dia a dia por seus patrões, pela autoridade em geral, por políticos que não as consultam para nada, enfim, por uma pressão constante de um sistema hierárquico. De volta para casa, muitos descontam em suas esposas, filhos, vizinhos e qualquer vulnerável que passe na sua frente.


A propaganda fascista ainda aproveita para eleger alvos “aceitáveis” para quem essa brutalidade pode e deve ser dirigida. Esquerdistas, petistas, comunistas, ateístas, adeptos de religiões diferentes, especialmente as de origem africana, mulheres, gays, trans, negros, indígenas, pessoas com transtornos mentais são alguns desses alvos diariamente reforçados por declarações, piadas e casos apresentados na mídia como prova de que estes são os responsáveis pelos males da sociedade.


A declaração de um dos assassinos de Moîse de que “precisava extravasar a raiva” é elucidativa. E mais, “ele estava perturbando”. O que ele estava perturbando? Ele estava agindo contra as regras, era um “inferior” reclamando com seu “superior”. Uma atitude dessas afeta o equilíbrio patológico. Se for admitida poderá fazer com que o ressentimento recalcado a duras penas se sinta no direito de vir a tona e exigir reparação também. Todo elemento que perturba o equilíbrio duramente conseguido pelo recalque desperta profunda raiva e deve ser eliminado para a obtenção da paz perdida (Reich).


Até aqui, buscamos entender o papel da brutalidade na manutenção de um mecanismo de dependência e aglutinação de forças de seus adeptos, ou seja, manipulação de simpatizantes e uso da força para eliminar a resistência. Porém, a coisa não termina por aí. O fato é que todos nós fomos criados de forma mais ou menos contundente nessa cultura repressiva. Portanto, mesmo aqueles que por um motivo ou outro encontraram forças para resistir aos desejos antissociais profundos e desenvolveram uma visão de humanidade e cidadania, que veem a necessidade do respeito e mesmo do cuidado para com os vulneráveis e com os diferentes, estão envoltos nesse clima humilhação e de brutalidade.


A tática de desenvolvimento do ressentimento, da humilhação e, por fim, da brutalidade dirigida contra os mais vulneráveis, bem como contra os “inimigos” estratégicos, é uma forma de disseminar a dominação e fragilizar a resistência.

Praticamente todos os que vivem nesse ambiente sentem em maior ou menor grau a pressão pela violência, pelo ressentimento e a raiva. Muitos conseguem dirigir esses sentimentos para uma genuína luta de resistência, outros se sentem impotentes e deprimem-se. Outros ainda, mesmo que sem perceber, acabam por dirigir seus impulsos de ressentimento para aqueles que estão próximos. Assistimos a uma quantidade cada vez maior de separações de casais, de brigas e rompimentos entre amigos de longa data, dissolução de grupos e coletivos, tensões em ambientes de trabalho e dificuldades cada vez maiores na construção de acordos e consensos. Tudo isso também ajuda a diminuir a oposição na sociedade ao crescimento do fascismo de extrema direita, seja de que forma, ou sob que nomes e slogans ele se apresente.


A tática de desenvolvimento do ressentimento, da humilhação e, por fim, da brutalidade dirigida contra os mais vulneráveis, bem como contra os “inimigos” estratégicos, é uma forma de disseminar a dominação e fragilizar a resistência. Por meio da manipulação emocional da população e a disseminação proposital da Peste Emocional, a atuação direta dos mandantes se faz desnecessária. Os próprios subordinados se encarregarão de punir o menor desvio, o ressentimento se retroalimenta e serve de caldo base para uma sociedade autoritária e excludente.


Compreender os mecanismos utilizados não só no nível social, mas também no âmbito pessoal se torna essencial. Neste território todos somos aprendizes e teremos que passar por um longo processo de reeducação. Reencontrar o amor pelo diferente juntamente com os impulsos em direção à vida tanto em si mesmo, como no outro e levar essa busca para a educação e a política, é tarefa essencial no desmonte dessa farsa trágica monstruosa em que estamos metidos.

 

ZECA SAMPAIO, dramaturgo e romancista, é associado ao IBAP.



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