GELADEIRA

–ANA CLAUDIA LEITE DANTAS FERREIRA-




Passei a prestar mais atenção em geladeiras ou algo do gênero. Quando uma geladeira diz que vai, ela vai, com certeza vai. Se você empurrar para frente, ela vai, se puxar para trás, ela vai. Você pode empurrar devagar, ou abraçando para que ela não se empolgue, ou até não empurrar, aliás, esta última é a melhor pedida, caso contrário: ela vai. Adotei a minha como pet. Parei de ouvir os peçonhentos do Palácio do Planalto, os dos parlamentos etc., deviam todos nascer surdos mudos. Agora pouco, estava ouvindo uma acadêmica da USP falando sobre historia da música, quando ela disse que na idade de Bach, a música era feita pela música, desinteressada de para quê, ou para quem, aí fiquei pensando: ela devia dizer isso ao próprio Bach, quem sofreu demais por passar a vida toda preso a um senhorio medíocre que não lhe permitia avançar. Morreu assim, com muita raiva. É por isso que eu, agora, ouço mesmo é minha geladeira, ao menos nas raríssimas vezes em que preciso empurrá-la.

ANA CLÁUDIA LEITE DANTAS FERREIRA é poeta, professora, desenhista e escritora. Aprendeu com os passarinhos a amar o cheiro do orvalho na grama de manhãzinha e, com os gatos, as delícias da brincadeira despreocupada. Fã incondicional de Quintana, passarinha pela vida, porque não está aqui de passagem. Escreve todo dia 19 de cada mês.


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Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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